A nova edição já está no ar e percorre dez canções em que desejo e liberdade atravessam a música brasileira.
A cantora Fafá de Belém surgiu nas paradas de sucesso na segunda metade da década de 1970 com seu jeito peculiar de cantar, explorando o romantismo e a sensualidade, que a transformaram em símbolo sexual de sua época.
O novo episódio do Travessia, “Erotismo na MPB”, já está no ar na Revista Bula. Entre as dez canções selecionadas, trouxemos Fafá a cantar “Que Me Venha Esse Homem”, canção que emana desejo a cada acorde.
A voz de Fafá de Belém desfila sobre a ambientação musical do compositor David Tygel, um dos fundadores do Boca Livre, que musicou um poema de ninguém menos que Bruna Lombardi. Sim, a atriz e apresentadora Bruna Lombardi, que foi poetisa antes de atriz e apresentadora.
Em 1976, Bruna lançou um livro de poemas chamado “No Ritmo Dessa Festa”. Em entrevista ao Diário de Cuiabá, definiu assim o que escrevia. “Escrevo sobre o universo feminino, o que abrange o homem.”
Chico Buarque escreveu o prefácio do livro da então desconhecida Bruna. Um amigo em comum lhe mostrou os originais. Chico gostou e escreveu o texto sem que ela soubesse, e os dois acabaram amigos. Bruna Lombardi estrearia na Globo no ano seguinte, na novela “Sem Lenço, Sem Documento”, e viraria, ela também, um dos símbolos sexuais do país nas décadas seguintes.
A partir da década de 1970, com a disseminação do feminismo, uma ala da MPB passou a cantar e também a vender a imagem da liberdade da mulher. Foi uma onda de cantoras explorando a sensualidade nas músicas e nas capas de discos. Gal Costa, Rita Lee, Maria Bethânia, Joanna, Simone, Zezé Motta, Zizi Possi, entre várias outras.
Ao mesmo tempo, as gravadoras encontraram ali uma oportunidade de lucrar com isso, claro. A liberdade e o desejo da mulher poderiam ser traduzidos em capas sensuais, que ajudavam nas vendas.
Então acabaram por se encontrar duas pontas antagônicas nessa fase da indústria fonográfica. De um lado, a liberdade feminina. Do outro, uma indústria que descobria como transformar essa liberdade em produto. Fafá de Belém era um dos grandes nomes no meio dessa contradição.
Musa desde o início da carreira, lançou em 1979 o disco “Estrela Radiante”, no qual canta os versos de Bruna Lombardi que sonham com um homem selvagem.
Em sua teia de veludo
Que me fira com os olhos
E me penetre em tudo.
Fafá de Belém estava tão presente no imaginário coletivo do país que, naquele mesmo 1979, o Volkswagen Fusca ganhou lanternas traseiras maiores e arredondadas, logo apelidadas de “Fafá” porque remetiam ao busto da cantora. O carro acabaria popularmente conhecido como Fusca Fafá.
O que diz muito sobre muita coisa, para o bem e para o mal, no Brasil.

