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Em maio de 1940, milhares de soldados aliados cercados em Dunquerque aguardam uma retirada marítima enquanto o avanço alemão fecha as saídas terrestres. Tommy (Fionn Whitehead) atravessa as ruas de Dunquerque sob tiros e consegue alcançar a praia. O alívio dura pouco. Diante dele, uma multidão de soldados britânicos espera a chance de embarcar rumo à Inglaterra. Atrás está o Exército alemão. À frente, o Canal da Mancha. Acima, aviões inimigos transformam filas, navios e píeres em alvos constantes.

Dirigido por Christopher Nolan, “Dunkirk” acompanha a retirada das forças aliadas entre maio e junho de 1940, durante a Segunda Guerra Mundial. Cerca de 400 mil militares britânicos, franceses e belgas ficaram cercados no litoral francês, com poucas rotas disponíveis. O objetivo parece simples apenas no papel. Eles precisam atravessar o mar antes que o cerco se feche por completo.

Tommy procura uma vaga em qualquer embarcação. Durante essa busca, aproxima-se de Gibson (Aneurin Barnard), soldado silencioso que enterra um companheiro na areia. Os dois ajudam a transportar um ferido até o píer, esperando que o trabalho lhes permita embarcar. A iniciativa revela tanto solidariedade quanto instinto de sobrevivência. Naquele lugar, carregar uma maca também pode significar alguns metros de vantagem na fila.

A praia é extensa, mas quase tudo depende de um único molhe capaz de receber embarcações maiores. O comandante Bolton (Kenneth Branagh) acompanha os embarques enquanto o coronel Winnant (James D’Arcy) avalia as chances de retirada. Os oficiais precisam retirar centenas de milhares de homens com poucos navios, sob ataques frequentes e sem domínio dos céus. Cada embarcação perdida diminui o número de lugares disponíveis.

O mar promete uma saída

Tommy e Gibson conseguem avançar entre filas, macas e conveses, mas nenhuma passagem permanece segura por muito tempo. Navios lotados tornam-se armadilhas quando são atingidos, e os soldados precisam escolher entre aguardar na areia ou tentar a sorte na água. Nolan trabalha essa pressão com pouquíssimas falas. Os personagens observam portas, escadas e coletes salva-vidas porque cada objeto pode representar abrigo ou ameaça.

Alex (Harry Styles), outro jovem combatente, surge entre os militares que procuram deixar Dunquerque. Assim como Tommy, ele está exausto, assustado e disposto a agarrar qualquer oportunidade. O roteiro permite que esses rapazes cometam escolhas egoístas sem transformá-los em vilões. A guerra retirou deles o conforto das decisões serenas. Naquele litoral, permanecer vivo depende de segundos, espaço e sorte.

“Dunkirk” dispensa histórias pessoais detalhadas. Pouco se sabe sobre a família de Tommy, o passado de Gibson ou os planos de Alex. Essa ausência impede que a experiência fique presa à biografia de um único herói. Eles representam soldados muito jovens, lançados numa situação maior do que sua capacidade de controle. Fionn Whitehead sustenta esse ponto de vista com uma atuação contida, marcada pelo cansaço e pela atenção permanente ao perigo.

Civis atravessam o Canal

Na Inglaterra, o civil Dawson (Mark Rylance) prepara seu pequeno barco para participar da retirada. A Marinha pretende assumir a embarcação, mas ele decide pilotá-la pessoalmente. Seu filho Peter (Tom Glynn-Carney) segue com ele. George (Barry Keoghan), um adolescente interessado em ajudar, entra no barco antes que alguém consiga discutir muito a ideia.

Dawson conhece o motor, as águas e as limitações da embarcação. Sua serenidade não vem de uma confiança ingênua. Ele sabe que atravessará uma região atacada por aviões e cheia de sobreviventes à deriva. Ainda assim, mantém o barco rumo à França. Mark Rylance interpreta o personagem sem pose solene. Dawson fala baixo, observa muito e preserva energia para as decisões que realmente importam.

Durante a travessia, o grupo recolhe um soldado abalado (Cillian Murphy), sobrevivente de um naufrágio. O homem acredita que está voltando para a Inglaterra e reage ao perceber que Dawson segue na direção oposta. O barco, pequeno demais para oferecer distância entre seus ocupantes, passa a carregar também o medo de alguém que acabou de escapar da morte.

A presença desse militar evidencia um aspecto pouco glamouroso da guerra. Ele está vivo, mas ainda responde ao que sofreu no mar. Cillian Murphy constrói o personagem por meio de gestos inquietos, silêncios e mudanças de expressão. Dawson precisa manter a rota enquanto protege os passageiros de um perigo que agora viaja dentro da própria embarcação.

Uma hora dentro do céu

Enquanto soldados aguardam na praia e civis atravessam o Canal, pilotos da Força Aérea Real tentam impedir que os aviões alemães destruam os navios. Farrier (Tom Hardy) e Collins (Jack Lowden) voam sobre a região com combustível limitado e informações incompletas. Qualquer erro de cálculo pode deixá-los sem condições de retornar à base.

Farrier enfrenta ainda um problema no marcador de combustível. Sem confiar no instrumento, passa a acompanhar o consumo por outros meios. Ele precisa decidir quanto tempo pode permanecer na área antes que a missão cobre um preço maior. Tom Hardy atua quase inteiramente com os olhos, cercado pelo capacete, pela máscara e pelo vidro da cabine. Mesmo assim, comunica preocupação, concentração e desgaste.

Christopher Nolan divide “Dunkirk” em três durações. Os acontecimentos na praia ocupam uma semana. A viagem de Dawson cobre um dia. A missão aérea acompanha uma hora. Essas linhas aparecem intercaladas e se aproximam aos poucos, ainda que avancem em velocidades distintas. O recurso exige atenção, mas preserva a simplicidade do objetivo central. Todos tentam retirar homens de um litoral cercado.

A montagem alterna areia, mar e céu sempre que uma escolha interfere na segurança de outras pessoas. Um caça inimigo ameaça um navio. Um piloto ganha alguns minutos para impedir o ataque. Uma embarcação civil oferece vagas que a estrutura militar já não consegue fornecer. A técnica permanece ligada à urgência dos personagens, sem interromper a história para exibir virtuosismo.

Sobreviver sem pose heroica

“Dunkirk” apresenta a guerra pelo ponto de vista de quem tenta sair dela. Os alemães quase nunca aparecem de forma individualizada, embora sua presença domine tiros, bombas e aviões. Essa distância reforça a sensação de aprisionamento. Os soldados correm de uma ameaça que raramente podem localizar com precisão.

Hans Zimmer acompanha a espera com uma música marcada pelo som de relógio. A repetição aumenta a inquietação porque cada minuto representa menos combustível, menos espaço e menos oportunidades de embarque. O trabalho sonoro também antecipa os aviões antes que eles surjam na tela. Os homens escutam o perigo, procuram abrigo e descobrem que a praia oferece proteção quase nenhuma.

A grande força de “Dunkirk” está na atenção aos gestos de sobrevivência. Tommy procura uma passagem. Dawson mantém seu barco em movimento. Farrier vigia o combustível enquanto protege os navios abaixo. Nenhum deles precisa pronunciar uma fala grandiosa para ocupar o centro da história. Suas escolhas ganham peso porque sempre custam tempo, segurança ou espaço.

Nolan realiza um filme de guerra tenso e acessível, capaz de transmitir a dimensão histórica da retirada sem perder de vista os indivíduos envolvidos. Fionn Whitehead representa o jovem que deseja voltar para casa. Mark Rylance dá rosto aos civis que atravessaram o Canal. Tom Hardy encarna o piloto obrigado a decidir quanto ainda pode oferecer. Em “Dunkirk”, sobreviver depende da vaga disponível, do barco que continua navegando e do avião que permanece no céu por mais alguns minutos.


Filme: Dunkirk
Diretor: Christopher Nolan
Ano: 2017
Gênero: Ação/Drama/Guerra/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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