Para Lêda Selma
a maior cronista que já existiu em Goiás
Na noite de 13 de setembro de 1987, dois homens empurraram pelas ruas do centro de Goiânia um carrinho de mão carregando cerca de 200 quilos de metal. Nenhum deles sabia que levava junto uma das maiores tragédias radiológicas da história. O carrinho chegou a entortar com o peso. Passou pelo Estádio Olímpico e desceu pela região da Avenida Oeste. Depois entrou por algumas ruas do centro e terminou na Rua 57. Naquela noite, as televisões estavam ligadas e crianças iam dormir. A cidade ainda levaria mais de duas semanas para descobrir o que começara ali. Goiânia continuou dormindo. Ninguém correu. Não havia sirenes nem homens vestidos com roupas especiais. O fim do mundo, quando começou, estava sendo carregado num carrinho de mão.
Eu tinha 11 anos e morava no interior. Nunca tinha ido a Goiânia. Na verdade, eu nunca tinha saído da minha cidade. Em 1987, a principal janela que a gente tinha — aliás, praticamente a única — era a televisão. Mas o acidente só entrou nacionalmente no Jornal Nacional em 30 de setembro, 17 dias depois do início da contaminação. Ficou marcado na minha cabeça. Eu era muito menino. Na primeira notícia, o jornal informou que havia 11 pessoas internadas com sintomas de contaminação radioativa. Era uma coisa assim, inimaginável para a gente. Enquanto a tragédia já acontecia havia mais de duas semanas, para quem morava no interior, como a gente, ela praticamente não existia.
Goiânia existia para mim daquele jeito meio abstrato com que as cidades existem para as crianças. Sabia que era uma capital, evidentemente. Mas Goiânia, em 1987, ainda tinha menos de 1 milhão de habitantes e vivia justamente um momento de exposição internacional porque havia recebido, em 27 de setembro, uma etapa do Campeonato Mundial de Motovelocidade. Poucos dias depois, passaria a ser associada mundialmente ao césio.
Nova York também era nome de cidade. Brasília era cidade. Tóquio também. Estavam todas em algum lugar do mundo. Goiânia estava mais perto, claro. Mas perto é uma palavra de adulto. Quando o caso veio a público, aquela cidade que eu nunca tinha visto ganhou uma realidade assustadora. Para uma criança que nunca havia estado na capital, a Goiânia concreta nasceu pela televisão e meio que nasceu associada ao medo. Para o menino que nunca havia saído de sua cidade, podia estar do outro lado do planeta.
No dia 13 de setembro eu não sabia que dois rapazes, Roberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira, haviam retirado parte de um aparelho de radioterapia abandonado. Roberto tinha 21 anos. Wagner, 20. Para os dois, aquilo não era uma máquina de tratamento contra o câncer, muito menos uma fonte radioativa. Era sucata. Metal abandonado que talvez pudesse render algum dinheiro. Queriam o chumbo.
Dentro daquela cápsula havia césio-137.
Durante mais de duas semanas aquilo foi passando de mão em mão. Há uma peça de Hugo Zorzetti, “Eita Goiás”, que ironiza justamente essa circulação. As pessoas recebem aquilo com curiosidade, perguntam o que é e o césio vai passando de uma para outra. Hoje a cena é brutal porque a graça está exatamente no que ninguém sabia. A cápsula entrou em casas e chegou ao ferro-velho de Devair Alves, onde foi aberta. Devair havia se encantado, estava quase hipnotizado com aquele brilho azul e imaginou que aquilo pudesse ser transformado em algum tipo de joia ou objeto de decoração. Mostrou a parentes e amigos, chegou a dar pequenas porções para algumas pessoas. Os fragmentos circulavam entre gente que não fazia ideia de que havia uma ameaça ali. O material, um pó que emitia uma luminosidade azul, despertou profundamente a curiosidade de todo mundo naquele espaço.
O azul costuma ser uma cor bonita. Azul é céu, água, distância. Aquele brilho azul não era uma invenção produzida depois pela memória da tragédia. Ele existiu de verdade. A Agência Internacional de Energia Atômica registrou que o fenômeno voltou a ser observado no início de 1988, nos Estados Unidos, quando técnicos de Oak Ridge abriram outra fonte de cloreto de césio-137. Na época, os pesquisadores trabalhavam com duas hipóteses para explicar a luz: fluorescência ou radiação Cherenkov, relacionada à absorção de umidade pelo material. Foi exatamente aquela beleza que também aproximou as pessoas do perigo. Em Goiânia, durante alguns dias de 1987, o azul podia matar.
No dia 28 de setembro, Maria Gabriela Ferreira, mulher de Devair, desconfiada de que a peça estava fazendo as pessoas adoecerem, colocou partes do material dentro de um saco de lixo e levou aquilo de ônibus até a Vigilância Sanitária. A identificação da radiação veio no dia seguinte, 29 de setembro. E esse é um detalhe forte: uma fonte altamente radioativa atravessou Goiânia dentro de um ônibus comum, no meio da rotina da cidade.
No dia seguinte à primeira notícia do Jornal Nacional, as primeiras imagens dos pacientes começaram a aparecer na televisão. Foi então que mostraram moradores recolhidos no Estádio Olímpico e sendo examinados. Para quem estava longe, a tragédia ganhou rosto praticamente de um dia para o outro. Não havia internet nem celular. Mas era claro que havia alguma coisa muito ruim acontecendo. A notícia tinha hora para entrar em casa. De repente, aquela cidade que eu nem conhecia ganhou uma realidade assustadora. Não apenas em Goiás. No mundo todo.
Parecia o fim do mundo, pelo menos para mim, menino. Eu não entendia direito o que era radiação.
O césio-137 era quase o nome de um monstro de filme. E talvez fosse pior, porque monstros aparecem. A gente vê o monstro chegando, pode correr dele, fechar a porta, se esconder embaixo da cama.
O perigo não estava mais restrito ao ferro-velho. Tinha entrado na rotina, nas casas, nas pessoas. Em alguma proporção, olhando hoje em retrospectiva, lembra um pouco a Covid. Quando alguém pegava Covid, vinha imediatamente a pergunta: por onde aquela pessoa andou?
A televisão mostrava uma cidade assustada. Pessoas eram examinadas no Estádio Olímpico. O estádio foi transformado numa espécie de hospital, um ponto de triagem da população, com equipamentos para medir os níveis de radiação. Áreas foram isoladas. Falava-se em contaminação e morte. Mais de 100 mil pessoas acabariam sendo examinadas. Das mais de 112 mil, 249 tiveram contaminação confirmada.
Para quem estava longe, porém, aqueles números não eram exatamente pessoas. Era televisão. E aí estava a parte mais estranha. Goiânia parecia estar vivendo o apocalipse e eu, de onde estava, continuava levando a vida normalmente. Enquanto Goiânia vivia aquela operação de emergência, nas cidades do interior a rotina seguia quase igual. A televisão era desligada, o césio ficava lá e a gente continuava aqui.
Hoje isso me parece quase brutal. Na época, não. Criança não pensa o mundo, não percebe o mundo desse jeito. Terminava o jornal e a realidade voltava para aquilo que estava ao alcance dos olhos de qualquer pessoa fora da capital. Depois que passava o jornal, a programação continuava normalmente. Para quem estava fora de Goiânia, a tragédia desaparecia da sala. Era só a televisão mudar de assunto ou ser desligada.
A rua continuava a mesma. As pessoas que eu conhecia estavam ali. Não havia contaminação na minha casa. O perigo tinha ficado dentro da televisão. Era uma realidade paralela, praticamente.
Em Goiânia, algumas casas contaminadas foram interditadas e depois seriam demolidas. Aquilo que parecia um pó bonito era veneno. Aquilo matava as pessoas.
Aqui, nada. Amanhã viria outro dia. Em Goiânia também haveria outro dia, evidentemente, mas não seria o mesmo nem do mesmo jeito. Goiânia vivia sua maior tragédia.
Leide das Neves, afinal, virou filme, virou livro. E ela tinha 6 anos. Seis anos. Leide brincou com o pó do césio que o pai havia levado para casa e depois comeu um ovo com as mãos contaminadas. Foi a vítima que recebeu a maior dose de contaminação radioativa do acidente. Uma criança de 6 anos.
Morreu em 23 de outubro, no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. A garotinha foi enterrada em Goiânia num caixão especial revestido de chumbo. Pesava 700 quilos. E o mais brutal: moradores próximos ao cemitério tentaram impedir o sepultamento por medo da radiação.
Os números dão a dimensão da tragédia. Mas ninguém consegue explicá-la. Leide tinha 6 anos. Quando se é criança, seis e 11 anos não ficam tão distantes quanto ficam depois. São idades que ainda pertencem ao mesmo país: a nossa infância.
Hoje, quando olho as fotografias daquela menina, eu, que tenho dois filhos pequenos, um de 3 e outro de 12 anos, acho difícil não pensar que, enquanto eu via aquela história pela televisão, havia uma criança pouco mais nova do que eu morrendo por ter chegado perto de uma coisa que brilhava, por ter comido um ovo com a mão suja.
Naquela noite de 13 de setembro de 1987, enquanto dois homens empurravam aquele carrinho de mão pelas ruas de Goiânia, ninguém conseguiria imaginar que aquela data entraria para a história do mundo. Eles não sabiam. Quem cruzou com os dois também não. As famílias que dormiam nas proximidades, menos ainda. O carrinho passou perto do Estádio Olímpico, justamente o lugar que, poucos dias depois, receberia milhares de pessoas para exames de contaminação. Eu, numa cidade do interior que me parecia o tamanho inteiro do mundo, não sabia nem que Goiânia estava tão perto.
Depois a televisão contou. Contou de forma atrasada, porque a própria cidade descobriu atrasada, as pessoas descobriram tarde. Talvez a imagem que melhor explique aqueles dias não seja sequer a do pó azul, embora ele tenha se tornado quase símbolo do acidente. Para mim, hoje, é o carrinho de mão.
Roberto e Wagner procuravam chumbo para vender por alguns trocados, como muitos catadores continuam fazendo até os dias atuais. Sem saber, carregavam uma fonte de césio-137 com atividade de 50,9 terabecqueréis. Imagine isso: dois rapazes atravessando o centro de uma capital com aproximadamente 200 quilos de metal. Havia gente e automóveis nas ruas, e a cidade, de alguma forma, seguia seu curso. Mas dentro daquela sucata havia uma força capaz de destruir vidas e mudar a história de um Estado e de uma cidade.
O carrinho continuou andando. Ninguém sabia de nada. E o fim do mundo, antes de chegar à televisão de um menino no interior de Goiás, passou tranquilamente pelas ruas do centro de Goiânia.

