Qualquer um que tenha sangue correndo nas veias já se sentiu como Enid Baines, a protagonista de “Censor”, especialmente naqueles dias perversos em que temos de decidir o que fazer da vida mesmo não sabendo direito quem nós somos. Amalgamando suspense, terror e uma sequência de observações sobre como a indústria cultural pode ser alienada — e alienadora —, a galesa Prano Bailey-Bond atribui a Enid a tarefa de despertar no público o desconforto e a indignação que ela tem sentido com a forma como ganha seu dinheiro, e aí vão entrando as questões de um passado obscuro, dolorido, pelas quais acha-se a responsável. Bailey-Bond e o corroteirista Anthony Fletcher urdem uma narrativa cercada por uma violência gráfica, aparentemente gratuita, mas também necessária, como se a personagem central se visse forçada a acordar de um longo pesadelo. E, na verdade, ela precisa, sim.
Fábrica de monstros
Enid parece estar num dos filmes de terror a que deve assistir e classificar. A repartição em que dá expediente não deixa nada a desejar a Kafka, e esta é uma imagem bastante útil para que o espectador comece a entender a agonia que a persegue desde garota, desde que Nina, a irmã, sumiu em circunstâncias misteriosas. Cenas de assassinatos e mutilações não têm nenhum efeito sobre ela que não se relacione aos seus encargos profissionais, mas a diretora vai ligando os pontos sem pressa, elaborando a sofisticada inferência de que Enid talvez tenha estado sempre junto à cura para seu trauma. Num dia de trabalho ilusoriamente habitual, um daqueles filmes é que guarda a pista a que ela esperava chegar, e o que se desenrola a partir de então é uma espiral de obsessões, que a interpretação certeira de Niamh Algar, emoldurada pela fotografia de Annika Summerson, torna concreta. Ao fim dos 84 minutos de “Censor”, não se pode negar que assistir a filmes pode ser um trabalho bem insalubre.

