A cultura do cancelamento acabou tornando-se um mecanismo frágil, porque baseada em informações sem contexto e simpática a arroubos. Criou-se um ambiente de tal sorte irracional que as opiniões parecem sujeitas a um paradigma, e quem não se enquadra é logo mandado às cortes inquisitoriais que investigam e julgam e condenam, sem se comover com detalhes a exemplo de direito ao contraditório ou à ampla defesa. A rápida ascensão do politicamente correto como método de avaliação intelectual tem causado inestimáveis prejuízos à formação cognitiva de uma vasta parcela dos oito bilhões de almas a habitar a Terra, chegando à imprensa e à academia, um dos pontos em “Anniversary: Mudança Radical”. Somado a ele, o diretor Jan Komasa toca ainda num assunto mais e mais espinhoso, sugerindo que movimentos autoritários ganharam força no mundo inteiro graças a um possível excesso de liberdade, que deixa que qualquer um fale e faça o que bem entende, sem prestar contas às autoridades e, claro, ignorando as minorias. Impasse sem nenhuma chance de solução.
Ouro de tolo
As bodas de prata de Ellen e Paul, o aniversário do título, reúnem os quatro filhos do casal e os seus convidados, sem que se possa saber de imediato em que momento tudo irá desandar. Ellen é uma professora de ciência política de perfil liberal-progressista que encontrou em Paul um bom contraponto à austeridade da Universidade de Georgetown, uma das mais tradicionais instituições de ensino da América. O marido é chef e dono de um restaurante em Washington, reduto de políticos e intelectuais de todos os espectros, e os dois compõem o arquétipo do casal perfeito, mormente quando se olha para a educação que deram à prole, mas as aparências, claro, podem enganar.
Despotismo para todos os gostos
Komasa, um polonês que sentiu na carne os efeitos da ocupação soviética pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945), entre os quais a adoção de um regime socialista de partido único, fica à vontade para mencionar os riscos da patrulha ideológica, tenha a coloração que tiver, e usa o texto de Lori Rosene-Gambino para denunciar o oportunismo de certas ideias. Elizabeth Nettles, a namorada de Josh, o único filho homem dos anfitriões, personifica essa imagem. Ex-aluna de Ellen, Liz é agora uma estrela do conservadorismo jovem, e ao longo do primeiro ato torna-se uma encarniçada antípoda da sogra, em especial depois que publica um calhamaço sobre um novo pacto social que fede a fundamentação teórica para a defesa de autocracias e restrição de direitos. Respaldadas por um elenco de apoio bem orquestrado, Diane Lane e Phoebe Dynevor duelam sobre as ameaças, óbvias e absconsas, do segundo governo Trump, com conclusões que já se provaram verdadeiras. A guerra que elas travam não tem nada de doméstica.

