Tyler Perry surpreende, para o bem e o mal. Em “Por Que Eu Me Casei?” (2007), a discussão de relacionamento de quatro casais muito distintos entre si desarma os espectadores, comprometidos ou não, a fim de suscitar reflexões acerca da postura de cada um diante da vida, o que quase sempre tem a ver apenas com o que fazemos de nós mesmos, em que medida somos nossos próprios vilões e nossos próprios carrascos. No caso de “Por Que Eu Me Casei de Novo?”, Perry mantém uma característica fundamental em seus trabalhos, a aura farsesca em que os personagens surgem como se num episódio de comédias de situação dos anos 1990, a um passo de quebrarem a quarta parede e fazerem espocar o saco de risadas da sonoplastia no instante exato em que a piada seguinte deve começar a ser elaborada. Feita esta ponderação, o diretor-roteirista é hábil em ir pinçando do texto, um dos carros-chefe de sua vasta produção teatral, elementos vigorosos o bastante para garantir que o público esqueça o palco por 111 minutos — ou finja que ele nunca existiu. O melhor é concentrar-se nas histórias que conta, com a ressalva de que, da mesma forma que o filme de há duas décadas, “Por Que Eu Me Casei de Novo?” não é engraçado.
Saudade do futuro
Prestes a se casar com Wesley, Jasmine reúne amigos numa viagem à Itália. Aos poucos, a filha de Angela e Marcus se dá conta de que teve uma péssima ideia: seus convivas não são tão civilizados quanto ela supunha, e uma espiral de desentendimentos e velhas mágoas assenhora-se das comemorações. Despretensiosamente, Perry chega ao coração da trama, agora com Armani Greer e Everett Osborne encarregados da tarefa de reacender o gosto do público pelos dilemas existenciais a que alude o título do filme: por que alguém resolve embarcar na perigosa aventura de dividir suas glórias, suas dores, sua intimidade e, claro, seu patrimônio com uma outra pessoa. É uma escolha feliz, não obstante os diálogos pequem pelo excesso ao querer justificar a imaturidade de certos comportamentos, quando o filme poderia ousar mais e destrinchar com mais entusiasmo o arco de Roselyn, da sempre ótima Taraji P. Henson. Nesse quesito, a ausência de Patricia Agnew, a PhD em psicologia comportamental vivida por Janet Jackson, é sem dúvida uma falta grave; só mesmo ela poderia explicar a insistência de algumas pessoas de ver no outro seu salvador.

