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Em 1891, o ator Lawrence Talbot retorna ao vilarejo inglês de Blackmoor para investigar a morte brutal do irmão e reencontrar o pai distante. Quando criança, Lawrence Talbot (Benicio Del Toro) deixou a propriedade da família depois da morte da mãe. O episódio marcou sua infância, rompeu a convivência com o pai e terminou com sua internação em uma instituição psiquiátrica. Já adulto, ele construiu uma carreira como ator nos Estados Unidos e manteve Blackmoor longe de sua vida. Essa distância acaba quando Gwen Conliffe (Emily Blunt), noiva de seu irmão Ben Talbot (Simon Merrells), pede ajuda para descobrir onde o rapaz está.

Lawrence retorna à Inglaterra disposto a procurar Ben, mas chega tarde demais. O corpo do irmão é encontrado mutilado, vítima de um ataque cuja brutalidade assusta até os moradores acostumados às histórias sombrias da região. Sem aceitar a falta de esclarecimentos, ele decide investigar os últimos passos de Ben e permanece na propriedade dos Talbot. A escolha o aproxima da verdade, embora também o coloque ao alcance da criatura que ronda os bosques nas noites de lua cheia.

Lançado em 2010 e dirigido por Joe Johnston, “O Lobisomem” recupera o monstro clássico apresentado pela Universal em 1941. A nova versão preserva o cenário vitoriano, a maldição e o drama familiar, mas acrescenta uma violência gráfica que deixa pouco espaço para a delicadeza. Quando a fera aparece, os corpos não costumam sair inteiros e a elegância inglesa perde a pose com uma velocidade admirável.

Um pai cercado por segredos

Na propriedade, Lawrence reencontra Sir John Talbot (Anthony Hopkins), homem frio e pouco disposto a explicar o passado. Pai e filho dividem a mesma casa, porém vivem separados por anos de ressentimento. Sir John oferece hospedagem e responde a algumas perguntas, mas conserva uma serenidade estranha diante da morte de Ben. Hopkins interpreta o patriarca com uma calma desconfortável, daquelas que fariam qualquer visitante reconsiderar a decisão de passar a noite.

Lawrence também precisa lidar com as lembranças da mãe. Os corredores, retratos e quartos da mansão devolvem a ele partes de uma infância que tentou deixar para trás. Benicio Del Toro trabalha o personagem com tristeza e contenção. Seu Lawrence fala pouco, observa muito e carrega no rosto o cansaço de alguém que voltou para resolver um crime e percebeu que sua família talvez esconda problemas ainda maiores.

Gwen permanece em Blackmoor porque deseja saber o que aconteceu com o noivo. A convivência com Lawrence nasce do luto compartilhado e cresce cercada por medo, culpa e desconfiança. Emily Blunt dá firmeza à personagem, que participa da investigação e se recusa a aceitar passivamente as decisões dos homens ao redor. Sua proximidade com Lawrence, contudo, aumenta o perigo, pois qualquer pessoa ligada aos Talbot pode se tornar alvo da criatura.

A lua cheia muda a investigação

Os moradores atribuem os ataques a uma fera de força incomum. Alguns acreditam em maldição, enquanto outros preferem procurar um animal selvagem ou um criminoso. Lawrence segue os indícios deixados pela morte do irmão e chega a um acampamento cigano, onde procura informações sobre a criatura. A busca termina em novo ataque, e o contato com a fera transforma sua investigação numa luta pela própria sobrevivência.

A ameaça cresce porque existe um prazo impossível de ignorar. Cada nova lua cheia anuncia outra noite de mortes, enquanto Lawrence tenta descobrir o que foi levado para Blackmoor e por que sua família parece ligada ao horror. A floresta limita os caminhos, a neblina esconde movimentos e os aldeões armados começam a tratar qualquer estranho como suspeito. O protagonista precisa enfrentar o monstro sem saber se os homens que o caçam são realmente mais seguros.

Joe Johnston administra o suspense pela espera. A criatura permanece escondida durante parte do tempo, percebida por ruídos, sombras e corpos deixados pelo caminho. Quando surge, o terror abandona a sugestão e assume uma forma física, coberta de pelos, músculos e dentes. O desenho do lobisomem preserva traços humanos no rosto, lembrando que existe uma pessoa aprisionada naquela aparência. A maquiagem de Rick Baker e Dave Elsey, premiada com o Oscar, sustenta essa mistura entre homem e fera.

A Scotland Yard chega a Blackmoor

O aumento das mortes leva o inspetor Francis Aberline (Hugo Weaving) ao vilarejo. Enviado pela Scotland Yard, ele prefere trabalhar com suspeitos, depoimentos e provas concretas. Aberline ouve os moradores, observa Lawrence e tenta separar o medo coletivo dos fatos. Sua presença acrescenta pressão à história, pois o ator precisa investigar o irmão enquanto passa a ser acompanhado por uma autoridade que desconfia de sua ligação com os ataques.

Hugo Weaving interpreta Aberline com educação rígida e olhar desconfiado. O inspetor não precisa levantar a voz para deixar alguém desconfortável. Seu interesse por Lawrence cresce à medida que surgem novas vítimas, fechando as saídas disponíveis ao protagonista. De um lado estão os aldeões, prontos para matar a criatura. Do outro aparece a Scotland Yard, interessada em prender um responsável humano. Lawrence fica encurralado entre a superstição popular e uma investigação policial que exige provas.

Esse encontro entre horror gótico e suspense criminal está entre os aspectos mais interessantes de “O Lobisomem”. O roteiro acompanha uma criatura sobrenatural sem abandonar as consequências terrenas de seus ataques. Há funerais, investigações, prisões e moradores tentando proteger suas casas. O monstro pode pertencer às lendas, mas os mortos deixam famílias, perguntas e autoridades cobrando um culpado.

Uma família devorada pelo passado

O centro de “O Lobisomem” está na relação entre Lawrence e Sir John. A morte de Ben obriga os dois a conviver novamente, embora nenhum deles tenha resolvido as feridas antigas. Lawrence quer informações sobre o irmão e sobre a mãe. Sir John controla aquilo que revela e mantém uma postura quase indiferente diante do perigo. A mansão familiar, que deveria oferecer abrigo, torna-se outro espaço de ameaça.

Anthony Hopkins aproveita essa ambiguidade com prazer evidente. Sir John pode receber o filho para jantar e, ainda assim, parecer mais assustador do que qualquer ruído vindo da floresta. Del Toro responde com uma atuação mais fechada, marcada pelo desconforto de quem nunca voltou a se sentir em casa. A diferença entre os dois cria uma tensão constante e dá peso emocional às cenas que antecedem os ataques.

“O Lobisomem” perde parte da força quando acelera acontecimentos que mereciam mais tempo. Algumas relações avançam depressa, e certas revelações recebem menos atenção do que a violência. Ainda assim, o filme mantém o enredo compreensível e oferece uma leitura trágica do monstro. Lawrence não enfrenta apenas uma fera escondida nos bosques. Ele precisa lidar com uma herança familiar que permaneceu em Blackmoor, esperando sua volta.

A produção abraça castelos, cemitérios, florestas cobertas por névoa e noites iluminadas pela lua. Nada aqui deseja modernizar o lobisomem a ponto de retirar sua aparência clássica. O resultado tem a elegância sombria dos antigos filmes de horror, acrescida de sangue suficiente para estragar muitos tapetes vitorianos. Lawrence retorna à Inglaterra para descobrir quem matou o irmão e acaba preso a um perigo que ameaça sua liberdade, sua relação com Gwen e qualquer possibilidade de deixar Blackmoor novamente.


Filme: O Lobisomen
Diretor: Joe Johnston
Ano: 2010
Gênero: Drama/Fantasia/Suspense/Terror
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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