Lançado em 2024, o romance italiano “O Fabricante de Lágrimas” acompanha dois adolescentes que deixam um orfanato opressor para viver com a mesma família adotiva. Dirigida por Alessandro Genovesi e baseada no livro de Erin Doom, a produção reúne Caterina Ferioli, Simone Baldasseroni e Sabrina Paravicini em uma história sobre jovens que cresceram sob o medo e agora precisam aprender a conviver com afeto, desejo e lembranças dolorosas.
Nica Dover (Caterina Ferioli) perdeu os pais ainda criança e foi enviada para Sunnycreek, orfanato conhecido pelos internos como Túmulo. O apelido diz bastante sobre o lugar. Sob a autoridade de Margaret Stoker (Sabrina Paravicini), as crianças vivem cercadas por castigos, silêncio e uma disciplina que deixa marcas difíceis de esconder.
Para suportar aquele ambiente, Nica se apega às histórias ouvidas no orfanato. A mais importante fala sobre o Fabricante de Lágrimas, um artesão misterioso responsável por criar os medos e as angústias guardados no coração das pessoas. A lenda oferece uma explicação fantasiosa para sentimentos que a menina ainda não consegue nomear.
Aos 17 anos, Nica recebe a oportunidade que esperou durante boa parte da vida. Anna Milligan (Roberta Rovelli) e Norman Milligan (Orlando Cinque) decidem adotá-la e lhe oferecem uma casa, um quarto e a possibilidade de pertencer a uma família. O problema surge quando o casal também acolhe Rigel Wilde (Simone Baldasseroni), outro jovem criado em Sunnycreek.
Nica queria deixar o Túmulo para trás. A presença de Rigel leva parte do orfanato para dentro da nova casa.
Rigel permanece perto demais
Rigel é bonito, reservado e um pianista talentoso. Também trata Nica com uma hostilidade que parece calculada para mantê-la à distância. Embora os dois compartilhem anos de convivência, ele se recusa a falar abertamente sobre o passado ou explicar por que acompanha cada movimento dela com tanta atenção.
A relação de Rigel com Margaret sempre foi diferente daquela imposta às demais crianças. A diretora o tratava com certo favorecimento e criou nele uma ligação marcada por dependência e domínio. Sabrina Paravicini entrega à personagem uma frieza polida. Margaret raramente precisa levantar a voz para lembrar aos antigos internos que ainda possui influência sobre eles.
Na casa dos Milligan, Nica procura corresponder ao carinho dos pais adotivos. Ela deseja participar das refeições, frequentar a escola e experimentar uma rotina sem medo de castigos. Rigel reage com ironia e transforma qualquer aproximação em desconforto. Ainda assim, seus gestos contradizem as palavras. Ele afasta Nica, mas permanece atento aos perigos ao redor dela.
Essa contradição move grande parte de “O Fabricante de Lágrimas”. Rigel quer protegê-la, embora escolha atitudes agressivas e ciumentas para fazer isso. Nica percebe o cuidado escondido sob a aspereza, mas também precisa lidar com o sofrimento provocado por ele. O romance nasce em território delicado, pois ambos foram acolhidos como filhos pelo mesmo casal, ainda que não tenham parentesco biológico.
A escola oferece outra vida
Fora de casa, Nica conhece Billie (Nicky Passarella) e Miki (Sveva Romana Candelletta), colegas que facilitam sua entrada na nova escola. Pela primeira vez, ela pode ser vista como uma adolescente comum, distante da identidade de órfã construída em Sunnycreek. A mudança lhe oferece amizades e alguma liberdade, mas não apaga sua dificuldade em confiar nas pessoas.
Lionel (Alessandro Bedetti) se interessa por Nica e passa a disputar sua atenção. A aproximação desperta o ciúme de Rigel, que responde de maneira cada vez mais agressiva. O ambiente escolar, portanto, deixa de ser apenas um refúgio e se transforma em outro espaço de tensão. Nica tenta escolher com quem deseja se relacionar, enquanto os rapazes agem movidos por sentimentos que nem sempre sabem administrar.
Alessandro Genovesi investe em olhares demorados, corredores pouco iluminados e encontros interrompidos. A câmera insiste na beleza dos protagonistas, especialmente na presença de Rigel, filmado com a solenidade de quem acabou de sair de um anúncio de perfume muito caro. O recurso agrada ao público interessado em romance juvenil, embora também torne algumas passagens excessivamente calculadas.
O passado volta a cobrar coragem
Adeline (Eco Andriolo Ranzi), amiga de Nica desde os anos no orfanato, reaparece disposta a responsabilizar Margaret pelos abusos cometidos em Sunnycreek. Ela precisa do apoio de outras vítimas para confirmar o que aconteceu. Nica, porém, hesita diante da possibilidade de reviver experiências que passou anos tentando guardar.
A decisão da jovem possui um custo concreto. Permanecer em silêncio protege sua nova rotina, mas deixa Margaret livre para preservar a própria autoridade. Falar pode ajudar Adeline e os demais antigos internos, embora coloque Nica diante da mulher que controlou sua infância. O passado deixa de ser apenas uma lembrança e passa a interferir na família que ela tenta construir.
O vínculo entre Nica e Rigel também depende dessa história. Ambos reagiram à violência de maneiras diferentes. Ela conservou a gentileza e procurou abrigo na fantasia. Ele transformou dor em isolamento, ciúme e raiva. A produção acerta ao mostrar que os dois reconhecem as feridas um do outro, mas perde força quando trata atitudes possessivas de Rigel como prova irresistível de amor.
Um romance cercado por lágrimas
Caterina Ferioli oferece delicadeza a Nica sem tornar a personagem passiva. A jovem deseja ser amada, porém precisa descobrir quanto está disposta a suportar para preservar esse sentimento. Simone Baldasseroni sustenta Rigel por meio da presença física e dos silêncios. Sua atuação combina vulnerabilidade e ameaça, ainda que o roteiro dependa demais da aparência enigmática do personagem.
“O Fabricante de Lágrimas” assume o gosto por paixões intensas, segredos juvenis e pessoas bonitas sofrendo em ambientes impecavelmente decorados. Falta maior cuidado ao discutir comportamentos agressivos dentro de uma relação amorosa, mas existe sensibilidade na maneira como Nica busca pertencimento depois de uma infância marcada pelo abandono.
A produção acompanha os esforços dos dois jovens para viver fora de Sunnycreek. Nica precisa escolher entre o silêncio e a possibilidade de proteger outras vítimas. Rigel deve decidir se continuará afastando quem ama por medo de causar sofrimento. Cada escolha ameaça a adoção, a confiança dos Milligan e o pouco de segurança conquistado desde que os portões do Túmulo ficaram para trás.

