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“Graça Infinita” completa 30 anos em 2026 e continua encontrando leitores que reconhecem naquele exagero americano alguma coisa de sua própria vida. A edição brasileira saiu em 2014 pela Companhia das Letras, com tradução de Caetano W. Galindo e nada menos do que 1.144 páginas. David Foster Wallace morreu em 12 de setembro de 2008. Tinha 46 anos. Em 2026, completam-se 18 anos de sua morte. Esses dois aniversários convidam a uma revisão do escritor, um dos mais ambiciosos de sua geração, que parece ter ficado conhecido até demais pela dificuldade de ser lido. No romance existe um filme tão absorvente que seus espectadores deixam de atender às próprias necessidades, coisas básicas assim, para poder continuar assistindo. E não conseguem parar de assistir. O livro tem dois ambientes centrais, uma academia de tênis e uma casa de recuperação de dependentes. A dependência aparece ao lado da competição e da cobrança por desempenho. A fama do livro pode ser uma maneira bastante eficiente de mantê-lo fechado.

Graça Infinita, de David Foster Wallace
Graça Infinita, de David Foster Wallace (Companhia das Letras, 1.144 páginas, tradução de Caetano W. Galindo)

Wallace nasceu em Ithaca, no estado de Nova York, em 1962 e cresceu em Illinois. Seu pai, James, era professor de filosofia e sua mãe, professora de inglês. As duas áreas em que ele se especializaria já estavam presentes em casa. Estudou inglês e filosofia em Amherst e fez formação em escrita na Universidade do Arizona. Ingressou na pós-graduação em filosofia em Harvard. Seu primeiro romance, “The Broom of the System”, publicado em 1987, nasceu de um trabalho universitário. Em Amherst, Wallace produziu dois trabalhos de conclusão, um em filosofia e outro em literatura. Havia ali um jovem para quem as relações entre linguagem e mundo eram um problema pessoalmente estimulante. Era também um tenista extremamente competitivo e levaria essa experiência para o livro que o imortalizaria, “Graça Infinita”. E é exatamente em “Graça Infinita” que o esporte ocupa um espaço que surpreende quem espera encontrar apenas um escritor trancado com seus livros.

Na academia de tênis, os jovens trabalham para tornar-se excepcionais. A academia funciona como um internato. Hal Incandenza, um dos personagens centrais, mora ali desde os sete anos. Na casa de recuperação, pessoas tentam voltar a fazer coisas elementares, básicas, sem se destruir, enquanto na academia a formação oferecida inclui um currículo acadêmico rigoroso, inspirado na tradição de Oxford e Cambridge. A proximidade permite uma comparação desagradável para o culto do desempenho. Treinar para vencer pode consumir uma pessoa inteira, inclusive aquilo que ela esperava aproveitar quando finalmente vencesse. Wallace conhecia o interesse do jogo e o sofrimento de quem faz da própria capacidade uma cobrança diária e permanente.

Em 1989, depois de uma internação no hospital McLean, Wallace foi morar na Granada House, em Massachusetts. A casa exigia 40 horas semanais de trabalho e Wallace conseguiu emprego como vigilante numa empresa de software. Durante a recuperação, Wallace teve de pedir afastamento de Harvard e se acostumar à convivência com os outros moradores. Não foi fácil, conta seu biógrafo, D. T. Max. Nas reuniões, anotava histórias de pessoas com experiências muito diferentes das suas. Tinha dificuldade em aceitar as fórmulas do programa. Algumas lhe pareciam ridículas. Quando questionava, a orientação era que cumprisse o que lhe pediam. Um dos homens que ele conheceu ali, Craig, forneceu a base para a criação de Don Gately, um dos personagens centrais de “Graça Infinita”.

Em “Graça Infinita”, a família desarranjada dos Incandenza vive num mundo que inclui uma organização geopolítica fictícia e separatistas do Quebec. Estados Unidos, Canadá e México integram o mesmo bloco, a Organização de Nações Norte-Americanas, cuja sigla é ONAN. Até os nomes dos anos foram vendidos a empresas. O calendário virou espaço publicitário. Grande parte da história acontece no “Ano da Fralda Geriátrica Depend”.

É fácil aproximar o filme imaginado por Wallace do celular. É fácil e pertinente, desde que se preserve a diferença entre a fantasia do romance e os hábitos do leitor. Uma pessoa que perde a hora vendo vídeos não está vivendo literalmente aquela história, mas pode reconhecer o momento em que já nem se diverte tanto e mesmo assim continua. Queria descansar um pouco. Depois de algum tempo, está cansada de uma atividade que começou para aliviar o cansaço. Sabe disso enquanto passa ao próximo vídeo. Em 1993, três anos antes do romance, Wallace publicou “E Unibus Pluram”, ensaio sobre televisão e ficção norte-americana. Nesse texto, ele argumenta que a televisão incorporava a ironia contra si mesma e oferecia ao espectador uma sensação de superioridade que o incentivava a continuar assistindo.

A atualidade de Wallace está, em boa parte, nesse conhecimento que não basta. Saber que se está desperdiçando tempo pode produzir apenas mais uma censura íntima, incorporada ao desperdício. O personagem Ken Erdedy pede aos fornecedores que parem de lhe vender maconha. Quando volta a consumir, precisa procurar novos fornecedores. O romance permite perguntar o que se procura quando se pede diversão sem interrupção. Prazer, evidentemente. Talvez a possibilidade de não ficar sozinho com determinados pensamentos. Hal tem o hábito de fumar maconha sozinho e escondido nos túneis da academia de tênis. A distração ganha utilidade que vai além do conteúdo oferecido. Tanto faz, às vezes, o que está passando.

Há um risco em fazer do filme a explicação de “Graça Infinita”. A invenção é tão engenhosa que, usada para resumir o livro, pode dispensar indevidamente o restante. Na abertura, Hal Incandenza participa de uma entrevista universitária. A entrevista acontece na Universidade do Arizona, que pretende recrutar Hal para a equipe de tênis com isenção das mensalidades e uma bolsa-moradia. O leitor acompanha as suas observações minuciosas e o cuidado com a postura. Os avaliadores desconfiam da autoria dos ensaios apresentados por Hal. A sofisticação dos textos contrasta com suas notas muito baixas nos testes de admissão. As pessoas na sala não conseguem recebê-lo como ele acredita estar se apresentando.

Na tradução de Galindo, Hal observa que “a gramática do administrador é no geral medíocre”, mas admite que o homem consegue fazer-se entender. Hal tenta sorrir para os entrevistadores. Um deles entende a expressão como uma careta e pergunta se o rapaz está passando mal, se sente algum tipo de dor. Um dos gestores insiste no risco de uma universidade parecer estar usando Hal apenas por sua capacidade esportiva. A cena é desconfortável, mas é um dos momentos mais engraçados do livro.

Em 2005, Wallace discursou para os formandos do Kenyon College. Ele começou contando uma história, uma historinha sobre dois peixes jovens. Um peixe mais velho pergunta aos peixinhos como está a água. Depois que ele passa, um dos jovens pergunta ao outro: “Mas o que é água?” Falou também do trabalhador que, depois de um dia cansativo, precisa passar no mercado. Nos corredores e nas filas, encontra outras pessoas que parecem estar ali para atrapalhá-lo. Wallace propõe aos alunos que imaginem uma mulher que grita com o filho na fila e pondera que talvez ela esteja há três noites sem dormir, acompanhando o marido que está morrendo de câncer. O discurso, que ficou conhecido como “This Is Water”, acabou entrando para a história da literatura americana e, claro, para a biografia de Wallace.

Wallace conviveu durante anos com uma severa depressão. Desde 2002, ensinava escrita criativa no Pomona College, na Califórnia, e estava afastado das aulas no semestre em que morreu. Quando morreu, por suicídio, deixou um romance inacabado. “O Rei Pálido” foi publicado somente em 2011 e o editor Michael Pietsch organizou o livro a partir das páginas e anotações deixadas por Wallace.

Trinta anos depois, “Graça Infinita” ainda pede ao leitor que acompanhe uma história que não se revela de imediato. O romance tem 388 notas ao final e a leitura exige deslocamentos entre a narrativa e essas notas, algumas inclusive com notas próprias. Pode-se discordar dos excessos e é fácil abandonar o livro. Segundo Michael Pietsch, Wallace aceitou cortar cerca de 250 páginas do manuscrito durante a edição, embora tenha resistido a outras sugestões de corte. Mas o tempo gasto com Hal numa sala de entrevista permite conhecer alguma coisa daquele rapaz que os homens encarregados de avaliá-lo, ocupados com suas fichas, não conseguiram perceber.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

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