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Em 1892, no Oeste dos Estados Unidos, o capitão Joseph Blocker (Christian Bale) recebe uma ordem que considera quase uma afronta. Prestes a deixar o Exército, ele deve escoltar o chefe cheyenne Yellow Hawk (Wes Studi), gravemente doente, desde o Novo México até o Vale dos Ursos, em Montana. Os dois passaram décadas em lados opostos de uma guerra marcada por massacres, prisões e perdas pessoais. Agora, precisam atravessar juntos um território onde a patente de Blocker oferece menos proteção do que ele gostaria.

Dirigido por Scott Cooper, “Hostis” recupera o faroeste sem transformar seus homens armados em figuras heroicas e impecáveis. A violência permanece presente, porém o filme dedica atenção maior ao peso carregado por quem sobreviveu. Blocker continua preso ao ódio que cultivou durante anos. Yellow Hawk depende do inimigo para regressar à terra de sua família. Entre ambos surge Rosalee Quaid (Rosamund Pike), uma colona viúva cuja dor torna aquela viagem ainda mais delicada.

Uma ordem difícil de aceitar

Blocker construiu a reputação de soldado eficiente durante campanhas contra cheyennes, apaches e comanches. Ele perdeu companheiros, participou de combates brutais e aprendeu a enxergar os povos indígenas pela lógica militar. Yellow Hawk representa tudo aquilo que o capitão aprendeu a combater. A missão, portanto, fere seu orgulho e ameaça as poucas certezas que ainda conserva.

O coronel Abraham Biggs (Stephen Lang) não oferece muita escolha. A determinação veio da Presidência, e uma recusa pode custar a Blocker sua pensão, sua honra militar e uma saída tranquila do Exército. Ele aceita o serviço por obrigação, reúne uma pequena patrulha e mantém Yellow Hawk e seus familiares sob rígida vigilância. A primeira decisão do capitão revela o tamanho da hostilidade. Mesmo doente, o chefe cheyenne inicia o percurso tratado como prisioneiro.

A comitiva inclui o primeiro-sargento Thomas Metz (Rory Cochrane), antigo companheiro de Blocker, o tenente Rudy Kidder (Jesse Plemons), o cabo Henry Woodson (Jonathan Majors) e o jovem soldado Philippe DeJardin (Timothée Chalamet). Yellow Hawk viaja ao lado do filho Black Hawk (Adam Beach), da nora Elk Woman (Q’orianka Kilcher), da filha Living Woman (Tanaya Beatty) e do neto Little Bear (Xavier Horsechief). São pessoas ligadas pela ordem militar, embora separadas por lembranças bastante dolorosas.

Rosalee perde tudo

Longe do forte, Rosalee Quaid vive com o marido, Wesley Quaid (Scott Shepherd), e os filhos numa propriedade isolada. Um ataque destrói a casa e mata sua família. Rosalee sobrevive, mas permanece num estado de choque que Rosamund Pike interpreta sem excessos. A personagem mal consegue reconhecer a dimensão da própria perda, embora precise continuar respirando num lugar onde ninguém chegará a tempo de ajudá-la.

Blocker e seus homens descobrem Rosalee durante o percurso. O capitão decide acolhê-la e levá-la até um posto militar, pois deixá-la sozinha representaria uma sentença de morte. A presença da viúva modifica a rotina da patrulha. Ela precisa de proteção, repouso e algum espaço para atravessar o luto, enquanto o grupo continua exposto aos perigos da região.

Rosalee entra em pânico ao perceber que viajará perto de uma família cheyenne. A reação nasce do trauma recente, embora Yellow Hawk e seus parentes não tenham ligação com o ataque. Scott Cooper não transforma essa aproximação numa reconciliação fácil. Rosalee observa aquelas pessoas pouco a pouco, participa da vida no acampamento e começa a distinguir indivíduos onde antes enxergava somente uma ameaça.

A paisagem oferece pouca proteção

A marcha rumo a Montana ocupa boa parte de “Hostis”. Montanhas, florestas e campos abertos formam cenários belíssimos, mas raramente seguros. A distância entre os fortes aumenta a vulnerabilidade dos viajantes, enquanto comida, munição, cavalos e homens disponíveis determinam quanto o grupo ainda poderá avançar. Cada parada abre uma brecha, e qualquer ruído fora do acampamento pode anunciar perigo.

Blocker conhece a rota e possui experiência militar. Ainda assim, Yellow Hawk domina informações que o capitão não encontra nos mapas. O chefe cheyenne sabe reconhecer ameaças, interpretar sinais e avaliar regiões onde soldados podem cair numa emboscada. Para preservar a patrulha, Blocker precisa conceder alguma liberdade ao homem que gostaria de manter acorrentado. Essa dependência dá ao conflito sua força mais humana.

O capitão não abandona décadas de rancor por causa de uma conversa inspiradora. Sua mudança ocorre em pequenos gestos, quase sempre provocados por uma necessidade concreta. Ele solta correntes porque necessita de ajuda. Entrega armas porque precisa aumentar a defesa. Aceita sugestões porque homens cansados e provisões escassas não permitem orgulho ilimitado. Cada concessão custa alguma coisa, e Christian Bale faz esse desconforto aparecer no rosto antes de virar palavra.

Soldados carregam antigas guerras

Thomas Metz conhece Blocker há muitos anos e divide com ele lembranças de campanhas sangrentas. Rory Cochrane interpreta o sargento como um homem consumido pelo que fez e pelo que presenciou. A convivência com os cheyennes traz de volta episódios que ele tentou guardar, enquanto a missão perde qualquer aparência de despedida honrosa.

Outros integrantes da patrulha reagem de maneiras diferentes. Rudy Kidder ainda preserva certa formalidade de oficial jovem. Henry Woodson permanece leal ao capitão, mesmo quando a travessia exige mais do que disciplina. Philippe DeJardin possui pouca experiência diante da crueldade daquele território. A diferença entre eles permite que “Hostis” apresente o Exército menos como um bloco uniforme e mais como um grupo de homens que suporta o medo de acordo com seus próprios recursos.

A chegada a outros postos também não oferece descanso completo. Blocker recebe novas responsabilidades e precisa lidar com pessoas ligadas ao passado militar. Entre elas está o sargento Charles Wills (Ben Foster), acusado de crimes graves e entregue à custódia da patrulha. A presença dele acrescenta uma ameaça interna à viagem. O capitão passa a vigiar tanto o horizonte quanto os homens que seguem sob sua autoridade.

Um faroeste de feridas abertas

Scott Cooper trabalha a violência com secura. Os ataques surgem de maneira brusca, interrompem conversas e deixam perdas que permanecem nos trechos seguintes. Não há aventura confortável nem recompensa garantida para quem demonstra coragem. Uma pessoa pode agir corretamente e ainda pagar caro, característica que mantém a viagem sob tensão constante.

Rosamund Pike oferece a interpretação mais sensível do elenco. Rosalee começa paralisada pela dor, mas recupera aos poucos a capacidade de participar das decisões e cuidar de quem está perto. Wes Studi faz de Yellow Hawk uma presença firme, mesmo debilitada pela doença. O chefe fala pouco, observa muito e conserva uma dignidade que contrasta com o tratamento recebido. Christian Bale reúne raiva, cansaço e vergonha num personagem que parece envelhecer durante a travessia.

“Hostis” também reconhece que colocar inimigos na mesma estrada não apaga o passado. Blocker e Yellow Hawk sabem o que fizeram um contra o outro. Rosalee sabe que sua família não voltará. Metz sabe que certas lembranças continuarão acompanhando seus dias. A viagem oferece apenas a possibilidade de escolher o próximo gesto com alguma lucidez.

O faroeste é pesado, humano e muito bem interpretado. “Hostis” exige paciência porque acompanha deslocamentos, silêncios e hesitações com atenção. Essa escolha recompensa o espectador disposto a observar personagens que aprendem a dividir água, armas e proteção antes mesmo de encontrar palavras para a convivência. Enquanto Montana permanece distante, a sobrevivência depende de pessoas feridas conseguirem permanecer juntas por mais um trecho.


Filme: Hostis
Diretor: Scott Cooper
Ano: 2017
Gênero: Crime/Faroeste
Avaliação: 4/5 1 1
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