Executivos meio velhacos e aqueles seus velhos aconselhamentos cretinos; astros meio fora de moda, amargando um ostracismo iminente; novas musas tentando um lugar ao sol, sujeitas às humilhações e ao assédio de produtores tarados; e veteranos que acabam por depender da bondade de estranhos num asilo lá longe: em maior ou menor proporção, tudo isso diz respeito aos personagens de “Dix pour Cent”. Émilie Noblet transforma as quatro temporadas da série exibida pela France 2 entre 2015 e 2020 e levada ao mundo pela Netflix em 2021 num enredo mais objetivo e mais ágil, sem deixar de fora as blagues afiadas sobre o brilho fugaz dos holofotes e a peleja de egos por trás. Sim, é um enredo mais genérico — e muito mais frustrante para alguns —, mas que diverte.
O show tem que continuar
Andréa Martel decidiu que podia voar mais alto. Sempre afoita, a ex-agente da Agence Samuel Kerry, a ASK, é agora uma promessa do cinema vai inteirando-se das mil dificuldades do métier. Para começar, ela descobre que alguns dos problemas de seu antigo ganha-pão resistem, incluindo uma disputa com Mathias, rival dos velhos tempos, empresário do ator que deseja ter à frente do elenco de “O Fugitivo”, seu primeiro longa, um homônimo do arrasa-quarteirão com Harrison Ford dirigido por Andrew Davis. Mathias tem se saído melhor do que a encomenda (e muito melhor do que Andréa gostaria), gancho de que as roteiristas Violaine Bellet, Lison Daniel e Fanny Herrero valem-se para esgrimir tópicos como a inclusão das mulheres em certos nichos, travando uma guerra desleal pelo sucesso. Engenhosos, Camille Cottin e Thibault de Montalembert inspiram o público a acreditar no desfecho amarradinho, embora não se possa fazer um filme sem algumas gotas de sangue.

