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A vida em sociedade tenta domar a propensão natural à ruína de tudo quanto se relaciona ao gênero humano, sempre disposto a lançar-se a abismos dos quais não irá sair sem sacrifício. Busca-se a solução milagrosa que nos há de livrar a todos das garras da fera da maldade, que fazemos questão de afiar dia a dia; entretanto, só o que fica é uma pálida sensação de que tudo está irremediavelmente perdido, aqui ou nesse outro plano por ser detectado. Na Nova York de 1978, três mulheres cujos maridos acabam na cadeia por suas ligações com a máfia avançam furiosas sobre o espólio de uma guerra por poder que rompe do submundo para as elites americanas, e passam ao comando de uma facção multimilionária. “Rainhas do Crime” conta essa história, ficcional, mas nem tanto, encadeando momentos de sangue e diálogos quase poéticos, registro lúdico de uma falência moral.

Batom…

Roteirista de bons representantes do gênero, como “Herança de Sangue” (2016), dirigido por Jean-François Richet, “Crimes na Madrugada” (2017), a cargo de Baran bo Odar, e “A Mãe” (2023), levado à tela por Niki Caro, Andrea Berloff estreia na direção com um enredo que mistura drama social e tensão psicológica, com o mérito de abafar um confortável viés feminista. O que se tem aqui são figuras apavoradas, em desespero ao se dar conta de que podem terminar na sarjeta depois que o FBI investe contra a máfia da Hell’s Kitchen, o perigoso distrito de Manhattan entre as ruas 34 e 59, a Oitava Avenida e o rio Hudson, e desbarata essa quadrilha inteira.

…e trabuco

Jimmy Brennan, Kevin O’Carroll e Rob Walsh são três dos membros de maior influência na organização capturados, e assim Kathy, Ruby e Claire precisam se virar para seguir vivendo. Cada uma tem questões muito particulares, como destaca o texto de Berloff, uma adaptação da minissérie em quadrinhos da editora DC Comics lançada em 2015, escrita por Ollie Masters e ilustrada por Ming Doyle: Kathy é a mãe que cria os dois filhos sozinha enquanto Jimmy cumpre pena de três anos em Rikers Island; Ruby, a preta casada com Kevin, um irlandês-americano, hostilizada pela sogra; e Claire pena com as surras constantes de Rob. A diretora-roteirista dá ênfase às agonias delas, atentando também para a metamorfose que faz a trama evoluir para um comentário sobre a natureza maldita de certas pessoas e a força das más decisões. Melissa McCarthy, Tiffany Haddish e Elisabeth Moss dão conta do recado.


Filme: Rainhas do Crime
Diretor: Andrea Berloff
Ano: 2019
Gênero: Ação/Crime/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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