Vote em quem você quiser. Não é da minha conta. A urna eletrônica, por mais que achincalhada pelos néscios, é um altar secreto onde se reza para Deus ou para o diabo, por meio do voto popular. Ops! Desculpe eu misturar política com religião. Ato falho. Devo estar assistindo à propaganda eleitoral obrigatória mais do que devia. Sempre se corre o risco de poluir os pensamentos com tamanha desfaçatez e cara de pau de alguns candidatos. Vote em quem você quiser. Ninguém tem nada com isso. Não precisa votar nos candidatos que o patrão mandou, sob ameaças de perder o emprego. Não tenha medo. Faça-se de convencido. Diga que vai votar no candidato dele, mas, na surdina, na segurança do claustro eleitoral, vote nos candidatos que julgar os mais adequados, de acordo com os seus parâmetros e princípios. Vote em quem você quiser. Ninguém manda no seu voto. Nem parente, nem patrão, nem polícia, nem influenciador digital, nem celebridade, nem líder religioso. Igreja não é lugar para se pregar política partidária. Já basta terem pregado Jesus numa cruz. Aliás, não se mistura religião com política. Tome aqui o conselho de um ateu: não vote em candidatos que misturam religião e política. Se Deus, de fato, existe, ele não quer e não precisa do seu voto. Não tenha medo. Você não vai para o inferno. Até porque, como escreveu o filósofo francês Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”, ou seja, já estamos nele, atolados em lama até o pescoço. Sim. Lidamos com inumeráveis problemas cotidianos. Um leão por dia é o que se diz. Tem como melhorar. Mas só tem um jeito. Por meio do associativismo, da democracia e do voto consciente. Vote em quem você quiser, mas vote com cuidado e com critérios. Pesquise a vida pregressa dos candidatos. Dá um Google neles. Não vai colocar qualquer zé-ruela para definir os destinos da nação, vai? Pois então. Vote de acordo com a sua consciência. Perca tempo, ou melhor, ganhe tempo ao estudar os perfis dos candidatos nos quais você pretende depositar o voto. Votar não é uma escolha ordinária, aleatória, eivada de submissão. Não aceite votar num candidato só porque um amigo ou um parente pediu esse favorzinho. Ouça com atenção. Anote o nome do indicado. E pesquise. Se o considerar digno do seu voto, digite o seu número na urna eletrônica. Se for necessário mentir para conservar o seu emprego, minta. Se for necessário tergiversar para evitar uma desavença familiar, faça-o, mantendo-se fiel às suas convicções. Enfim, se você checou até esse ponto da crônica e considera que essa linha de raciocínio faz algum sentido, não vote nos candidatos que eu recomendar, sem antes analisar os seus currículos e os seus antecedentes. Não sou candidato a nada. Eu sou um escritor. Eu sou um poeta. Eu vivo com a cabeça no mundo da lua, mas o meu corpo é parte do planeta. Leia. Pesquise. Estude. Mas tome muito cuidado com as fontes de informação. Muitas delas estão contaminadas por notícias falsas e falsos conceitos. Saia da bolha. Saia da ilha. Enxergue-se no escondidinho da urna a exercer o seu direito inalienável e intransferível, ao cravar votos preciosos, legítimos, fundamentais, em candidatos com estofo ético e intelectual para melhorar a sua vida, a vida da sua família, mas, principalmente, a vida da maior parte do povo brasileiro, em especial os menos favorecidos. Votar é um ato libertário. É uma revolução em que não se derruba sangue. Depois da educação, é a melhor arma de que dispomos para transformar o país, tornando-o mais justo, mais seguro e igualitário. Não menospreze o seu poder de mudança. Não abra mão do voto. E não permita ser coagido ou manipulado por quem quer que seja, principalmente por aqueles que se aproveitam das suas convicções religiosas para ludibriá-lo. Se há diabo, ele mora na mente e no coração desse tipo de gente ardilosa. Valorize o seu voto, meu irmão. Valorize o seu voto, minha irmã. E vamos em frente, na busca por um mundo melhor. Viva a liberdade. Viva a democracia brasileira.


Deus não precisa do seu voto
Não abra mão do voto nem permita ser coagido ou manipulado por quem quer que seja.
Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.
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