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Quem gosta de vinho acaba descobrindo pela prática que um bom vinho não significa necessariamente o vinho mais caro e que, às vezes, uma garrafa que aparece por acaso pode significar muito mais para quem bebe do que o vinho megaindicado por revistas ou premiado em degustações internacionais às cegas. E às vezes descobrir um vinho por conta própria pode simplesmente ser mais agradável e divertido do que experimentar aquilo que chega por recomendação.

Algumas garrafas, contudo, se tornam míticas e conseguem justificar a fama. A Casa Ferreirinha, que faz o lendário Barca Velha, já passou anos sem lançar uma nova safra porque considerou que o vinho não alcançava o padrão do rótulo. Mas quem abre uma garrafa por prazer não precisa conhecer cada detalhe ou saber que está bebendo um vinho lendário para gostar daquilo que está bebendo.

Esta é uma lista bastante simples. As escolhas partem da experiência de pessoas que beberam esses vinhos. Há rótulos do Chile, do Uruguai, da Itália, incluindo a Sicília, e do Líbano. São vinhos de castas e tradições bastante diferentes, e cada um deixou uma lembrança na pessoa que o bebeu.

Quem gosta de vinho pelo prazer de beber, e não pelo status de estar bebendo, tem aqui cinco excelentes rótulos, extraordinários, diria. São vinhos para beber pelo menos uma vez na vida, sem catecismo. A recomendação pode levar à primeira garrafa. E aí gostar dela, repetir, já é com quem bebe.

1Chile Vale de Colchagua

Montes Purple Angel

Garrafa do vinho Montes Purple Angel
Preço de referênciaR$ 1.259,00
Safra 2020
750 ml

A Carmenère cresceu nos vinhedos chilenos confundida com Merlot até ser identificada, em 1994. A confusão durou décadas, mas a uva recuperou o nome e ganhou importância na produção do país. O trabalho da Viña Montes ajuda a entender por quê.

Elaborado no Vale de Colchagua, com uma pequena participação de Petit Verdot, é um tinto concentrado, de frutas negras maduras e taninos macios. O traço vegetal da Carmenère permanece perceptível entre as especiarias e as notas de chocolate. Ainda bem. Parte do interesse está justamente em reconhecer a uva, mesmo depois da passagem pelo carvalho francês.

Tem bastante corpo, e quem prefere tintos delicados talvez escolha outra garrafa. Para quem aprecia esse estilo mais intenso, há muito o que aproveitar, inclusive a persistência do sabor depois de cada gole.

Características

Uvas
Carmenère e Petit Verdot
Perfil
Concentrado, com frutas negras e taninos macios
Serviço
Em torno de 18 °C

A decantação pode ajudar nas safras mais jovens.

Harmonização

Cordeiro assado, carnes vermelhas na brasa, costela suína e canelones com molho de carne.

2Itália Sicília

Due Lune

Garrafa do vinho Due Lune
Preço de referênciaR$ 388,37
Safra 2019
750 ml

A Cantina Cellaro reúne Nero d’Avola e Nerello Mascalese, duas uvas sicilianas que aqui passam por um trabalho particular. Os ramos são cortados para permitir que os frutos percam água antes da colheita. A secagem concentra os açúcares e ajuda a explicar a sensação de fruta madura do vinho.

Depois da fermentação, vem o amadurecimento em carvalho francês e americano. É um tinto encorpado, macio, com aromas de frutas vermelhas e notas de chocolate e especiarias. A maciez chama a atenção, mas convém não confundi-la com leveza.

Há concentração suficiente para acompanhar uma refeição de sabores intensos. A própria vinícola sugere, além das carnes, peixe assado. Uma possibilidade interessante para quem costuma encerrar a conversa sobre harmonização na regra de que peixe exige vinho branco.

Características

Uvas
Nero d’Avola e Nerello Mascalese
Perfil
Encorpado e macio, com frutas vermelhas, chocolate e especiarias
Serviço
Cerca de 18 °C

Harmonização

Massas com molhos encorpados, carnes grelhadas, legumes assados, queijo de cabra e peixes de carne firme preparados no forno.

3Uruguai Canelones e Montevidéu

Bouza Monte Vide Eu

Garrafa do vinho Bouza Monte Vide Eu
Preço de referênciaR$ 834,00
Safra 2024
750 ml

Quem associa Tannat apenas àquela sensação de secura na boca encontrará aqui uma boa razão para reconsiderar. A Bodega Bouza reúne a uva a Merlot e Tempranillo, em proporções que variam conforme a safra. As variedades são vinificadas e amadurecidas separadamente antes da escolha das barricas que formarão o corte.

É um trabalho importante num vinho em que a força da Tannat precisa conviver com as características das outras duas uvas. Há fruta negra madura, notas de especiarias e um tostado discreto.

Os taninos continuam presentes, como se espera, mas a textura é mais macia do que a fama da variedade faz supor. A acidez ajuda a sustentar o conjunto. À mesa, uma carne assada permite perceber melhor essa combinação de concentração e frescor.

Características

Uvas
Tannat, Merlot e Tempranillo
Perfil
Fruta negra madura, taninos presentes e acidez que equilibra a concentração
Serviço
Entre 16 °C e 18 °C

Uma boa aeração ajuda especialmente nas safras mais jovens.

Harmonização

Cordeiro, costela, carnes vermelhas assadas ou grelhadas, pratos de longa cocção e queijos curados.

4Itália Vesúvio, Campânia

Mastroberardino Lacryma Christi del Vesuvio Rosso

Garrafa do vinho Mastroberardino Lacryma Christi del Vesuvio Rosso
Preço de referênciaR$ 375,74
Safra 2024
750 ml

A Piedirosso talvez seja o nome menos conhecido entre as uvas desta lista. Vale conhecê-la. A Mastroberardino elabora este tinto exclusivamente com essa variedade da Campânia, cultivada nos solos vulcânicos da região do Vesúvio. A vinificação ocorre em tanques de aço, sem a passagem por barricas que marca tantos tintos.

Os aromas de cereja ácida e ameixa aparecem acompanhados por pimenta e cravo. Tem estrutura, mas os taninos finos tornam o vinho agradável também pela textura. Seu interesse está nessa combinação, que funciona particularmente bem com comida.

Uma massa com cogumelos ou uma polenta com molho de carne permite apreciá-lo sem exigir uma ocasião solene. Entre os rótulos escolhidos, é uma boa oportunidade de sair das uvas mais habituais.

Características

Uvas
Piedirosso
Perfil
Cereja ácida, ameixa, pimenta e cravo, com taninos finos
Serviço
Por volta de 18 °C

Harmonização

Massas e polentas com molho de carne, cogumelos, embutidos, queijos e peixe-espada grelhado.

5Líbano Vale do Bekaa

Château Musar Rouge 2016

Garrafa do vinho Château Musar Rouge 2016
Preço de referênciaR$ 940,30
Safra 2016
750 ml

A safra de 2016 só teve seu corte montado em fevereiro de 2019. A informação dá uma ideia do cuidado com o tempo nesse produtor libanês. Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan, cultivadas no Vale do Bekaa, entram em partes iguais. Cada variedade fermentou separadamente, com leveduras naturais, e passou doze meses em carvalho francês.

O engarrafamento ocorreu sem colagem nem filtração. Na taça, a fruta continua importante, com cereja e ameixa, mas aparecem também figo, especiarias e notas de chocolate. Os taninos macios permitem apreciar a concentração sem uma aspereza excessiva.

Convém servi-lo com tempo para acompanhar as mudanças de aroma. Quem pretende conhecer este vinho por uma taça bebida às pressas perderá parte do interesse da garrafa, que continua se mostrando depois de aberta.

Características

Uvas
Cabernet Sauvignon, Cinsault e Carignan em partes iguais
Perfil
Fruta concentrada e taninos macios
Serviço
Em torno de 18 °C

Deixe a garrafa em pé na véspera para assentar os sedimentos. Decante com cuidado e permita cerca de uma hora de aeração.

Harmonização

Cordeiro assado, carnes de cozimento lento, pato, pratos libaneses com especiarias e queijos maturados.

Revista Bula

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