Discover

Álvares de Azevedo morreu aos 20 anos. Tinha exatamente 20 anos, sete meses e 13 dias, se quisermos levar a contabilidade até os momentos finais. Não concluiu o curso de Direito. Morreu aos 20. Nenhum dos livros pelos quais é lembrado foi publicado em vida. Mesmo assim, deixou uma obra fundamental para o romantismo brasileiro, que, aliás, talvez seja o mais importante período da poesia brasileira. Contos, poemas narrativos, crítica literária e até pedaços de um romance inacabado. Também teatro, ensaios. Tudo isso aos 20 anos. E talvez seja esta a parte mais assombrosa de Álvares de Azevedo.

O acervo da Biblioteca Nacional relaciona, no conjunto da obra que chegou ao público, “Lira dos Vinte Anos”, “Poesias Diversas”, “O Poema do Frade”, “O Conde Lopo”, “Macário”, “Noite na Taverna”, a terceira parte de “O Livro de Fra Gondicário”, além de estudos sobre literatura portuguesa, Lucano, George Sand e “Jacques Rolla”, artigos, discursos e quase sete dezenas de cartas. Entre 1848 e 1851, Álvares publicou poemas, artigos e discursos. Os livros só vieram depois. Quase toda a obra pela qual o conhecemos chegou quando ele já estava morto.

A carreira de Álvares de Azevedo foi meteórica, sobretudo pela importância que passou a ocupar dentro do romantismo brasileiro apesar de uma existência literária extremamente curta. É uma espécie de Rimbaud pela precocidade. E há também o caso de Raymond Radiguet, o menino francês que escreveu “O Diabo no Corpo” e “O Baile do Conde d’Orgel” e morreu aos 20 anos.

Álvares era um estudante absurdamente aplicado. Era leitor de Byron, Musset, Heine, Shakespeare, Dante, Goethe e parecia escrever com pressa, como se previsse que o tempo de sua existência não seria, digamos, generoso. Isso acontece às vezes. Escritores jovens escrevem por pulsão, com uma confiança que beira o irresponsável, acreditando num talento que supõem possuir. No caso de Álvares de Azevedo, porém, o talento não era apenas uma suposição. Álvares de Azevedo tinha um talento raro.

O Álvares de Azevedo que conhecemos é, em sua maior parte, uma construção póstuma. Não que sua literatura tenha sido inventada por editores, é claro que não. Mas morreu sem poder decidir o que gostaria ou não de publicar, aquilo que eliminaria, aquilo que reescreveria. Há alguma coisa, guardadas todas as diferenças, do problema de Kafka, que pediu a Max Brod que queimasse seus manuscritos e acabou tendo-os publicados.

Na própria “Lira dos Vinte Anos”, a maneira como divide o livro é inteiramente pensada. Há o território de Ariel e o de Calibã. De um lado, a idealização e muito, muito desejo de morte. Do outro, a ironia, o ridículo e uma disposição curiosa para rir inclusive do próprio romantismo. O poeta parece fazer pose, mas também puxa o tapete da própria pose. Antonio Candido chamou a atenção para aquilo que o próprio Álvares definia como binomia, a coexistência e o choque dos contrários.

E talvez seja exatamente por isso que ele, quase dois séculos depois, continua vivo.

Casimiro de Abreu, outro romântico, também morreu jovem. Mas, diferentemente de Casimiro, Álvares é mais difícil. Ao mesmo tempo que é sentimental, faz troça do sentimentalismo. Idealiza a mulher e sua literatura parece misturar pulsões o tempo todo. Cultiva a morte e faz humor. Lê os românticos europeus, mas tem a percepção, ou parece ter, de que algumas de suas próprias convicções podem ser inclusive ridículas.

Talvez “Macário” seja a obra que melhor mostre o Álvares de Azevedo menos comportado. É praticamente uma peça de teatro, mas uma peça estranha, que parece às vezes não fazer muita questão de ser representada.

Basicamente, Macário é um estudante, conversa com Satã, fala de amor, sociedade, discute questões pessoais, o tédio daqueles dias, daquela época. Há alguma coisa ali que parece muito jovem, porque o autor evidentemente era muito jovem. Morreu aos 20. Mas há também uma liberdade formal avassaladora para um escritor de 20 anos.

Em “Noite na Taverna”, isso fica ainda mais visível. Um grupo de homens bebe e começa a contar histórias de suas vidas. Só que essas histórias são atravessadas por temas como traição, canibalismo e necrofilia. É um livro excessivo. A impressão é de que o excesso é deliberado. Intencional.

Talvez parte da força do livro venha exatamente daí. Álvares escancarou. Queria explorar aqueles temas sem precisar pedir permissão. Não era uma literatura que pretendia seguir padrões ou ser bem-comportada. Queria experimentar e saber até onde dava para ir. E, claro, foi longe. Tanto que, quase dois séculos depois, continuamos falando dele.

Óbvio que a obra tem problemas. Há o exagero, que pode ser um vício, um sintoma da idade. Poemas que às vezes se alongam, sentimentais demais. A influência europeia é muito forte, perceptível. Há páginas que, se ele tivesse vivido, poderia ter cortado, substituído, refeito. Há imperfeições, óbvio.

O que temos é a obra da juventude de um escritor para quem a maturidade literária simplesmente não chegou a existir. Não houve tempo. Talvez, se tivesse vivido mais, fizesse suas próprias observações sobre aquilo que escreveu quando era jovem.

Outro detalhe que ajudou a construir o personagem foi a morte, que, aliás, é tema bastante comum entre os românticos.

Pouco antes de morrer, escreveu “Se eu morresse amanhã”. Ficou registrado que Joaquim Manuel de Macedo leu o poema no dia do enterro. A metáfora fica quase perfeita. O escritor que durante alguns anos havia escrito sobre cemitérios e morte morre aos 20 anos e deixa um poema com esse título.

Foi também a partir da morte que, além de escritor, Álvares de Azevedo começou a ser construído como lenda.

Mas Álvares de Azevedo não é importante porque morreu jovem. Isso é óbvio. É importante porque, antes de morrer jovem, deixou uma obra que faria uma diferença enorme na literatura brasileira. Jovens morrem todos os dias e escritores precoces aparecem em todas as literaturas do mundo. O que é raro, quase absurdo, é um garoto morrer aos 20 anos e deixar material suficiente para que, quase dois séculos depois, ainda estejamos discutindo sua poesia, sua prosa, seu teatro, seus excessos, suas contradições e até aquilo que poderia ter escrito se tivesse vivido mais. Difícil fazer suposição. Não sabemos.

Talvez tivesse se tornado o maior poeta brasileiro de todos os tempos. Talvez não fosse além do que escreveu aos 20. Talvez abandonasse o romantismo, talvez escrevesse romances. Talvez se dedicasse ao teatro. Talvez, aos 40 anos, olhasse para metade daquilo que havia escrito aos 19 e sentisse alguma vergonha. Escritores fazem isso.

Álvares de Azevedo não teve essa oportunidade.

Morreu aos 20 anos e deixou para os outros a tarefa de publicar, organizar e perpetuar sua obra.

Carlos Willian Leite

Jornalista com atuação em cultura e enojornalismo. Escreve sobre vinhos, livros, audiovisual e streaming. É sócio da Eureka Comunicação e fundador da Bula Livros.

Leia Também