Em 11 de setembro de 2001, quase 3 mil pessoas morreram no mais devastador atentado terrorista da história. Milhões de pessoas acompanharam pela televisão o segundo avião atingir uma das Torres Gêmeas. Assistiram depois, sem sair de casa, à queda dos dois edifícios, com a fumaça se espalhando sobre Nova York. Os aviões comerciais haviam sido usados como armas.
Há acontecimentos que passam a ser lembrados pela data, sem que seja preciso dizer o ano. Ocorreu com o 11 de setembro e será muito difícil alguém, ao ouvi-lo, pensar primeiro em qualquer outro episódio ou numa data comum. Porque não é. Foi uma data que mudou o mundo.
Mas o calendário havia produzido também, nesse mesmo dia, uma coincidência.
Em 11 de setembro de 1885, D. H. Lawrence nasceu em Eastwood, na Inglaterra. Dezoito anos depois, em 11 de setembro de 1903, nascia Theodor Adorno, em Frankfurt.
Lawrence não é só um dos maiores escritores ingleses do século 20. É um dos maiores da história da literatura. Adorno, filósofo e sociólogo que também se dedicou à crítica de música, foi um dos nomes centrais da Escola de Frankfurt, influenciou gerações e continua influenciando até hoje, em 2026. Permanece como um daqueles intelectuais que, mesmo mais de meio século depois de sua morte, continuam incomodando.
A aproximação entre os dois não pode ir longe demais porque Lawrence e Adorno não diziam a mesma coisa. Se tivessem sentado frente a frente, provavelmente passariam dias e dias discordando, até porque a formação e a experiência de Lawrence tinham pouco a ver com as de Adorno. A desconfiança em relação ao progresso permite aproximá-los, embora não compartilhassem uma teoria.
Os dois perceberam, por caminhos inteiramente distintos, que uma civilização podia avançar na ciência e se organizar com os recursos da técnica sem nenhuma garantia de aperfeiçoamento moral do homem.
Lawrence descobriu esse problema cedo, muito cedo, porque nasceu dentro de uma sociedade já industrializada. Seu pai era mineiro e Eastwood vivia em torno das minas de carvão. A mina, para ele, não era um conceito aprendido com Marx ou algum economista. Fazia parte do trabalho do pai e do cotidiano das pessoas com quem o garoto convivia. Em certa medida, o escritor se formou ali também.
Em “Mulheres Apaixonadas”, Gerald Crich, um proprietário de minas, assume os negócios da família e moderniza o trabalho com novas máquinas e métodos mais eficientes. Lawrence não condena simplesmente aquilo que a máquina fez. Sua pergunta é outra. O que acontece quando a lógica da máquina começa a ser aplicada também ao homem comum?
É por aí talvez que entra aquilo que caracterizaria a literatura de Lawrence pelo resto da vida, o corpo e o desejo sexual.
Os moralistas de sua época, sempre empenhados em encontrar pornografia onde muitas vezes havia literatura, ficaram escandalizados com “O Amante de Lady Chatterley”. Havia sexo, é claro, bastante, mas reduzir Lawrence ao sexo seria como reduzir Freud ao divã de um consultório.
O escritor procurava alguma coisa que escapasse à mecanização crescente da vida. Uma parte do ser humano que ainda não tivesse sido quase escravizada pela máquina e, claro, pela utilidade que o homem teria dentro da engrenagem.
Às vezes Lawrence parece um místico brigando sozinho contra o século 20. Faz lembrar o Hermann Hesse de “O Lobo da Estepe” e também Henry Miller de “Pesadelo Refrigerado”. Em outros momentos, sua literatura demonstra uma lucidez impressionante ao perceber o que uma sociedade organizada excessivamente em torno da técnica e da eficiência poderia fazer com as pessoas.
Lawrence morreu em 1930, aos 44 anos, e não assistiu à parte mais terrível do século que já o inquietava. Hitler ainda não havia chegado ao poder, e o campo de Auschwitz não existia. Faltavam quinze anos para Hiroshima.
Adorno nasceu numa família burguesa e musical de Frankfurt. A matéria-prima de sua formação era Beethoven, muito longe do carvão. E foi obrigado a passar por esse outro mundo.
O nazismo interrompeu sua carreira universitária e o empurrou para o exílio. Adorno viu a Alemanha, uma das sociedades mais cultas da Europa, terra de Goethe, Kant e Beethoven, organizar também campos de extermínio. Como uma sociedade tão civilizada podia organizar campos para matar pessoas?
Esse talvez seja um dos fatos mais difíceis de conciliar com a ideia de progresso constante.
Porque não foram homens saídos das cavernas que construíram Auschwitz. Havia uma indústria e ferrovias, havia médicos e engenheiros. A barbárie saiu de dentro da civilização — e com a ajuda dela.
É nesse ponto que “Dialética do Esclarecimento”, escrita por Adorno e Max Horkheimer, continua tão atual. Sem propor afastar-se da razão, os dois questionavam seu uso apenas para encontrar os meios mais eficientes de alcançar fins que já não eram discutidos.
Mais de um século depois do nascimento de Lawrence, em 11 de setembro de 2001, homens sequestraram aviões comerciais. Uma das grandes realizações tecnológicas do século 20 foi transformada em instrumento de morte. Homens armados com facas e estiletes tomaram o controle de aviões e os utilizaram para atingir edifícios cheios de pessoas.
Lawrence e Adorno não previram o atentado. Intelectuais, por mais brilhantes que sejam, não são adivinhos, claro. Mas talvez reconhecessem alguma coisa naquele acontecimento a partir das questões que haviam formulado décadas antes.
O 11 de setembro deu ao mundo D. H. Lawrence e Theodor Adorno, dois homens que, sem pensar da mesma maneira, desconfiaram da crença de que avançar tecnicamente significa necessariamente melhorar como civilização.
Em 2001, a própria data acabaria marcada por uma demonstração brutal de que as duas coisas nunca foram sinônimas.

