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Há uma fase de todo relacionamento longo em que o problema deixa de ser amar ou não amar. Isso já está resolvido. Duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, descobrir que construíram vidas que já não cabem no mesmo lugar. O amor, nessas horas, torna-se quase uma testemunha constrangida do desastre. Cisco e Cheska chegaram a esse ponto. Foram felizes, trabalharam juntos, dividiram ambições, fizeram planos. Depois começaram a competir com a própria história.

Cathy Garcia-Sampana entende que esse é o verdadeiro assunto de “Chegamos ao Fim”. A viagem que os dois fazem para decidir se continuam juntos ou se finalmente aceitam a separação poderia render mais um daqueles romances empenhados em demonstrar que basta uma conversa honesta, uma paisagem bonita e alguma música melancólica para consertar anos de ressentimento. Não é bem isso que acontece. O que interessa é justamente o desconforto de perceber que os dois têm argumentos bastante razoáveis e que, em algum momento, os argumentos razoáveis também podem destruir um casal.

Cisco, vivido por Donny Pangilinan, tem a vaidade de quem sempre se acostumou a ocupar o centro de sua própria história. Cheska, de Belle Mariano, não quer mais desempenhar a função de personagem coadjuvante na vida de ninguém. Quando as carreiras começam a avançar em velocidades diferentes, aquilo que antes servia de cumplicidade vira competição. O roteiro de Vanessa R. Valdez acerta principalmente quando deixa de procurar um culpado simples. A relação apodrece aos poucos, através de decisões aparentemente pequenas, concessões nunca suficientemente agradecidas, silêncios acumulados, expectativas que um atribui ao outro sem se dar ao trabalho de perguntar se ainda fazem sentido.

Donny Pangilinan e Belle Mariano

Pangilinan e Mariano carregam uma vantagem rara. Eles não chegam ao filme como dois atores que precisam convencer o público de que possuem intimidade. A parceria dos dois já vinha de outros trabalhos, e “Chegamos ao Fim” foi anunciada por ambos como seu último filme juntos, ao menos por enquanto. A coincidência entre a despedida profissional da dupla e a história de um casal tentando descobrir se chegou a hora de se despedir acrescenta ao longa uma camada que seria impossível fabricar apenas com roteiro. É uma dessas circunstâncias em que a vida, por acaso ou cálculo publicitário, acaba colaborando com a ficção. O filme ainda se tornou o maior sucesso cinematográfico dos dois, ultrapassando 110 milhões de pesos em bilheteria filipina.

Belle Mariano se beneficia mais dessa sobreposição. Cheska poderia ter sido escrita apenas como a mulher ferida que espera o homem amadurecer, um arquétipo particularmente resistente no melodrama romântico. A atriz lhe dá outra coisa. Existe cansaço nela. E o cansaço é muito mais difícil de resolver do que a raiva. Raiva passa, pode explodir, produzir cena, reconciliação. O cansaço é silencioso e, quando se instala, costuma anunciar que determinadas coisas já morreram antes que alguém tivesse coragem de enterrá-las.

O limite do melodrama

Garcia-Sampana, diretora muito familiarizada com romances populares filipinos, sabe extrair emoção de situações simples e às vezes exagera justamente porque sabe fazê-lo. Há momentos em que o filme parece desconfiar da força de seus personagens e sublinha sentimentos que já estavam bastante claros. Também se vale de mecanismos melodramáticos reconhecíveis, alguns dos quais diminuem a aspereza de uma história que seria ainda melhor se aceitasse permanecer apenas no território desagradável dos dois adultos que fizeram escolhas ruins enquanto acreditavam estar fazendo o melhor possível.

Nada disso anula o que há de bom no centro da obra. “Chegamos ao Fim” é muito mais interessante quando Cisco e Cheska param de discutir sobre quem está certo e começam, mesmo sem perceber, a responder a uma pergunta pior. Se ainda fossem se conhecer hoje, depois de tudo o que se tornaram, escolheriam um ao outro novamente?

O filme tem inteligência suficiente para saber que amor e compatibilidade nunca foram exatamente a mesma coisa.


Filme: Chegamos ao Fim
Diretor: Cathy Garcia-Sampana
Ano: 2026
Gênero: Drama/Romance
Avaliação: 3.5/5 1 1
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