Reunir velhos amigos depois de muito tempo é uma experiência traiçoeira. Durante os primeiros minutos, tudo parece exatamente igual. Os mesmos vícios, as mesmas piadas, aquela sensação confortável de que os anos foram uma interrupção burocrática e que basta sentar à mesa para recomeçar do ponto exato em que todos haviam parado. Depois aparecem as diferenças. Alguém mudou de emprego, alguém envelheceu, alguém não é mais tão engraçado, alguém percebe que sentia saudade de uma coisa que já não existe. “Dix pour cent: O Filme” vive dessa contradição.
A agência ASK acabou. Andréa Martel, felizmente, não. Cinco anos depois, a agente interpretada por Camille Cottin decidiu atravessar a fronteira que durante tanto tempo ajudava seus clientes a enfrentar. Agora quer dirigir. Seu primeiro longa está prestes a começar quando Laurent Lafitte, protagonista da produção, cria um problema que ameaça fazer desmoronar o projeto. Andréa reage da única maneira que conhece. Procura as pessoas com quem passou anos resolvendo problemas de atores mimados, produtores aflitos e cineastas à beira de ataques nervosos.
Émilie Noblet recebe uma missão ingrata. Precisa transformar numa história de aproximadamente duas horas aquilo que funcionava justamente porque podia se espalhar por episódios, personagens e crises independentes. A velha série possuía uma máquina narrativa quase infalível. Uma estrela aparecia interpretando uma versão mais ou menos monstruosa de si mesma, a ASK precisava controlar o estrago e, enquanto isso, os agentes faziam de suas vidas pessoais um desastre maior que o problema profissional que tentavam resolver.
Fanny Herrero, criadora e showrunner das primeiras temporadas, volta ao roteiro ao lado de Lison Daniel, e sua presença impede que esse reencontro se converta apenas num desfile de antigos personagens. Herrero havia deixado a série depois de anos de trabalho e retornou justamente para o longa. A série original, encerrada na televisão francesa em 2020, ganhou o International Emmy de melhor comédia em 2021 e se transformou num fenômeno internacional com adaptações em diversos países. O filme, portanto, não precisava apenas continuar uma história. Tinha de enfrentar a lembrança de uma comédia que terminou quando ainda era muito amada.
Andréa do outro lado da mesa
A melhor decisão foi colocar Andréa do outro lado da mesa. Durante anos, ela administrou a insegurança de artistas. Agora é ela quem depende de dinheiro, aprovação, agenda, elenco e uma quantidade absurda de circunstâncias que não controla. Camille Cottin conhece a personagem o suficiente para não precisar reconstruí-la. Andréa continua brutal, inteligente, desagradável quando necessário e frequentemente quando não é. O poder diminuiu, mas a personalidade sobreviveu.
O reencontro de Noémie, Mathias, Gabriel, Hervé, Camille, Arlette e companhia produz o prazer mais imediato da história. E talvez também seu principal limite. Há ocasiões em que o filme parece interromper o próprio movimento apenas para permitir que o espectador reconheça alguém. É compreensível. Depois de tantos anos, há uma dívida afetiva a pagar. Só que longa-metragem não possui a elasticidade de uma temporada e essa sucessão de retornos cobra minutos que fazem falta à história de Andréa.
A velha engrenagem da ASK
Quando finalmente abandona a cerimônia das apresentações, a velha engrenagem volta a funcionar. O mundo de “Dix pour cent” continua sendo um circo em que egos milionários são administrados por pessoas emocionalmente muito menos equilibradas do que seus clientes. George Clooney, Eva Longoria, Laetitia Casta, Laurent Lafitte e Vincent Macaigne entram no jogo como as celebridades sempre entraram na série, oferecendo versões deslocadas, vaidosas ou ridículas de si mesmos. O truque permanece engraçado porque nunca foi exatamente sobre as estrelas. Era sobre aquilo que o cinema faz com quem precisa sobreviver perto delas.
Há um pouco mais de espalhafato do que deveria, sobretudo quando a história resolve transformar o caos dos bastidores em caos literal. Parte do humor fino que caracterizava a série perde espaço para situações maiores, como se o formato de longa-metragem exigisse que tudo também precisasse ficar maior. Não precisava.
Ainda assim, é difícil permanecer indiferente quando aquela equipe se reorganiza. Não porque o filme seja superior à série. Não é. Tampouco porque essas personagens necessitassem de um epílogo. Talvez não necessitassem.
A graça está em outra coisa. Por quase duas horas, elas convencem o espectador de que nunca foram embora.

