Existem filmes que envelhecem e existem filmes que são obrigados a responder pelo que aconteceu depois deles. “Um Sonho Possível” pertence à segunda categoria. Quando chegou aos cinemas em 2009, a história de Michael Oher parecia construída para ocupar aquele território muito específico do cinema americano em que esporte, família, superação e generosidade se encontram para produzir duas horas de conforto moral. Sandra Bullock ganhou o Oscar. O filme virou enorme sucesso popular. Michael Oher chegou à NFL. Tudo parecia arrumado demais.
John Lee Hancock parte da história narrada por Michael Lewis no livro “The Blind Side: Evolution of a Game”. Oher, interpretado por Quinton Aaron, é um adolescente negro, gigantesco, pobre, praticamente sem estrutura familiar e com dificuldades escolares. Estuda numa instituição frequentada por filhos de famílias ricas de Memphis e parece atravessar aquele ambiente como alguém que entrou no lugar errado e ainda não encontrou a porta de saída. É nesse cenário que Leigh Anne Tuohy, vivida por Sandra Bullock, percebe sua situação e o leva para casa.
O filme imediatamente escolhe Leigh Anne como seu verdadeiro centro dramático. Não é uma decisão pequena. Michael é o personagem cuja vida está sendo transformada, mas é através dela que quase todas as transformações são organizadas. Leigh Anne percebe, decide, enfrenta, acolhe, providencia, convence. Michael reage. Essa distribuição de poder é parte do mecanismo emocional que tornou “Um Sonho Possível” tão eficiente e, ao mesmo tempo, a razão pela qual ele passou a ser observado com muito mais desconforto anos depois.
Sandra Bullock entende perfeitamente a personagem que recebeu. Leigh Anne fala rápido, anda como quem já decidiu antes de perguntar, invade ambientes e resolve problemas com uma confiança quase indecente. Bullock poderia transformá-la numa caricatura de mulher rica e voluntariosa, mas encontra nela humor, brutalidade prática e um tipo bastante americano de convicção moral. É uma atuação de presença. Quando está em cena, o filme imediatamente sabe para onde olhar.
Quinton Aaron trabalha pelo caminho contrário. Michael fala pouco, observa muito e carrega no corpo uma espécie de retraimento permanente. Aaron compreende que tamanho e força não significam domínio. Seu Michael parece estar sempre tentando ocupar menos espaço do que ocupa fisicamente. Há momentos em que essa contenção é muito mais interessante do que os grandes discursos reservados aos outros personagens. O problema é que o roteiro raramente lhe concede tempo suficiente para existir fora daquilo que os Tuohy enxergam nele.
O futebol americano aparece quando o corpo de Michael deixa de ser apenas uma diferença e passa a oferecer uma possibilidade de futuro. Ele tem tamanho, velocidade, força. Falta compreender o jogo. O roteiro encontra então uma de suas soluções mais evidentes ao transformar o instinto de proteção do rapaz em explicação para sua capacidade como offensive tackle. Leigh Anne percebe que Michael precisa imaginar os jogadores como membros de sua própria família. Funciona dramaticamente porque condensa personagem e esporte numa mesma imagem. É também simples demais, como quase tudo que o filme prefere simplificar.
A história que mudou depois do filme
Durante muitos anos, a principal leitura de “Um Sonho Possível” foi a de uma história real de acolhimento familiar que terminou em ascensão esportiva. A própria realidade tratou de tornar isso mais complicado.
Em 2023, Michael Oher entrou na Justiça alegando que descobrira que os Tuohy jamais o haviam adotado legalmente. O que existia era uma tutela judicial, uma conservatorship, estabelecida quando ele já tinha 18 anos. Oher afirmou que acreditara durante anos que aquele documento equivalia a uma adoção. Os Tuohy contestaram a acusação de que o teriam enganado deliberadamente. Ainda naquele ano, uma juíza do Tennessee encerrou a tutela.
Nada disso transforma automaticamente cada cena do longa em mentira. Também seria simplista fazer o caminho inverso e usar acontecimentos posteriores para decretar que tudo o que aparece na tela é fraudulento. Mas muda a maneira de assistir.
A adoção, ou aquilo que o filme apresenta como adoção, não é um detalhe periférico. Ela sustenta moralmente a história inteira. É a confirmação de que Michael encontrou uma família e de que aquela família o escolheu sem reservas. Saber que a relação jurídica real era outra introduz uma rachadura numa obra construída precisamente sobre a ausência de rachaduras.
Há ainda uma questão mais antiga. Oher sempre demonstrou desconforto com a imagem de garoto intelectualmente limitado que o filme ajudou a cristalizar. Isso importa porque “Um Sonho Possível” precisa diminuir Michael antes de fazê-lo crescer. Quanto mais perdido ele parece no começo, maior será a distância percorrida pela narrativa de superação. É uma técnica dramática antiga. O problema começa quando o personagem é uma pessoa real e continua viva depois dos créditos.
Sandra Bullock e o centro da história
John Lee Hancock dirige tudo com enorme segurança narrativa. Não existe grande invenção formal e tampouco há intenção de procurá-la. O diretor sabe onde posicionar a emoção, quando aliviar a tensão, quando convocar o humor, quando aproximar a câmera de Bullock e quando deixar o futebol produzir sua descarga de energia. Essa eficiência explica muito do sucesso do filme.
A trilha, a fotografia luminosa, o contraste entre os ambientes pobres frequentados por Michael e a casa impecável dos Tuohy, o Dia de Ação de Graças, a mesa familiar, o sofá, o quarto finalmente pertencente ao garoto. Tudo trabalha para produzir a sensação de que ele atravessou uma fronteira. O espectador compreende imediatamente onde estava e onde chegou.
O melhor personagem de “Um Sonho Possível” poderia ter sido Michael Oher. O filme preferiu transformar Leigh Anne Tuohy nessa personagem. Sandra Bullock aproveitou magnificamente a oportunidade e conquistou um Oscar merecido dentro daquilo que a obra lhe pede. Mas é impossível rever a história hoje sem perceber o paradoxo. Um longa sobre um rapaz que encontra espaço no mundo frequentemente deixa pouco espaço para que ele próprio explique quem é.
Isso não destrói “Um Sonho Possível”. Torna-o mais interessante e muito menos confortável do que pretendia ser.
Em 2009, parecia uma história sobre o poder de uma família para mudar a vida de um garoto.
Hoje também é uma história sobre quem ganhou o direito de contar a vida dele.

