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Romances adolescentes têm uma vantagem que romances adultos perderam há muito tempo. Aos dezessete anos, qualquer contratempo parece definitivo. Uma prova pode destruir o futuro, uma mensagem não respondida significa o fim do mundo, uma pessoa conhecida há três semanas pode adquirir subitamente a importância que outros levariam décadas para conquistar. É um período excelente para a ficção porque tudo é objetivamente pequeno e emocionalmente gigantesco.

Sean Foster vive segundo um plano. Bom aluno, disciplinado, obcecado pelo futuro, ele quer entrar no MIT e encara a escola quase como uma etapa administrativa que deve atravessar sem cometer erros graves. Flora Morgan é sua antítese aparente. Popular, impulsiva, indiferente às expectativas acadêmicas, parece ter descoberto cedo demais que a maneira mais simples de escapar da cobrança dos outros é fingir que nada importa.

É claro que vai dar errado.

O acordo que complica tudo

Os pais de Flora oferecem a Sean uma barganha bastante duvidosa. Ele deve aproximar-se da garota, ajudá-la nos estudos e, em troca, terá dinheiro e a carta de recomendação de que necessita para a faculdade. A comédia romântica de Fawzia Mirza depende desse ardil desde o início e passa boa parte do tempo tentando fazer o público esquecer que sua história de amor começa por uma fraude. Esse é também o problema mais interessante do filme, embora o roteiro não tenha coragem de explorá-lo até as últimas consequências.

Asher Angel tem o tipo de simpatia que ajuda Sean a sobreviver às próprias decisões. Paris Berelc faz ainda mais por Flora. A personagem seria muito fácil de reduzir à garota popular que precisa descobrir que possui cérebro e sentimentos, mas Berelc lhe empresta uma espécie de inquietação que sugere desde cedo que a displicência é menos uma personalidade que uma defesa. A química entre os dois resolve boa parte do que Rebecca Webb deixa previsível no roteiro.

E previsibilidade não seria necessariamente um defeito. Comédia romântica vive de convenções. O público sabe que duas pessoas incompatíveis vão se aproximar, sabe que haverá um segredo, sabe que o segredo será descoberto. A questão nunca foi descobrir o destino, e sim acreditar no caminho. “Beijar é a Parte Fácil” acredita tanto na segurança dessa fórmula que em alguns momentos se acomoda nela. Quando surge a possibilidade de tornar Sean efetivamente antipático ou permitir que Flora seja mais complicada, o longa rapidamente escolhe uma solução menos arriscada.

Uma história que veio do Wattpad

A origem da história explica um pouco dessa familiaridade. O filme adapta a webnovel homônima de Christine Duann, publicada no Wattpad e que já acumulava 31,9 milhões de leituras quando a produção foi anunciada. Paris Berelc também entrou no projeto como produtora executiva, assim como Asher Angel. Há, portanto, uma audiência que conhecia esses personagens muito antes de eles ganharem rosto, cenário e trilha sonora.

Fawzia Mirza prefere não lutar contra essa natureza. Conduz o longa como uma comédia adolescente assumidamente ligeira, apoiando-se nos protagonistas e numa inversão simpática do clichê habitual. Aqui o rapaz é o aluno aplicado e pouco interessado em prestígio social; Flora ocupa a posição da garota desejada por todos, mas não é transformada numa caricatura cruel. Isso parece pequeno, mas evita a velha preguiça de tantas histórias escolares em que uma mulher só pode ser popular se também for insuportável.

O problema é que a leveza às vezes vira indulgência. A relação nasce de uma mentira considerável e o filme gostaria que o espectador a julgasse menos grave porque Sean é um bom rapaz. Não é bem assim. A própria graça da situação estaria em permitir que ele enfrentasse a dimensão moral do que aceitou fazer. Quando a comédia se aproxima desse desconforto, fica melhor. Quando corre de volta para a segurança do romance fofo, torna-se apenas mais uma produção competente de um gênero abarrotado delas. A recepção crítica também se dividiu justamente entre o charme da dupla e a sensação de que o roteiro escolhe caminhos conhecidos demais.

Berelc e Angel impedem que essa fragilidade liquide o filme. Há alguma coisa espontânea entre os dois, e numa história dessas isso vale muito.

Beijar, no fim das contas, é mesmo a parte fácil. Difícil é construir confiança depois.


Filme: Beijar é a Parte Fácil
Diretor: Fawzia Mirza
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Romance
Avaliação: 3/5 1 1
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