Em 1977, George Lucas lançou “Star Wars” nos Estados Unidos. Elvis Presley morreu em Memphis. Pelé acabara de encerrar sua última temporada oficial pelo Cosmos de Nova York, ao lado de lendas como Franz Beckenbauer e Carlos Alberto, e faria sua partida de despedida algumas semanas depois. O Concorde levava passageiros em voos comerciais pelo mundo. Na França, naquele mesmo ano, dois homens foram executados na guilhotina. O último deles, Hamida Djandoubi, um tunisiano, morreu às 4h40 da manhã de 10 de setembro na prisão de Baumettes, em Marselha. A máquina que se tornou um dos símbolos da Revolução Francesa havia conseguido chegar ao tempo de “Star Wars”, que, curiosamente, chegaria aos cinemas franceses pouco mais de um mês depois.
A guilhotina está guardada na memória junto com Robespierre e Danton. Está também com Maria Antonieta, Barras, Joseph Fouché e o Terror francês daqueles anos. Fica-se com a impressão de que pertence ao século 18, quando, na verdade, atravessou tranquilamente o 19, entrou no 20 e está a menos de 50 anos, menos de meio século da gente. Passou pelas duas guerras mundiais e pela ocupação alemã da França. Ainda estava ali depois da Guerra da Argélia e de Maio de 68. Em 1977, continuava no Código Penal francês. E, o mais surpreendente, continuava funcionando e cortando cabeças.
Djandoubi havia ido para a França como trabalhador no fim da década de 1960. Em 1971 sofreu um acidente grave e teve cerca de dois terços da perna direita amputados. A defesa inclusive exploraria este episódio, como se o acidente tivesse transformado o tunisiano, que antes era descrito como uma pessoa tranquila e trabalhadora, em alguém brutal e cada vez mais instável. A defesa sustentou isso. Não funcionou.
Depois do acidente, envolveu-se com o proxenetismo. Élisabeth Bousquet era uma jovem que o havia denunciado porque ele tentava obrigá-la a se prostituir. Na madrugada de 3 para 4 de julho de 1974, Djandoubi torturou a jovem numa residência em Marselha e depois a levou, já moribunda, para Lançon-Provence, onde a estrangulou até a morte. Também respondeu por estupros e violências contra outras jovens francesas. Uma notícia do “Le Monde”, publicada poucas semanas depois do crime, dizia que Bousquet tinha 19 anos. Documentos posteriores registraram idade diferente. Mas, independentemente da idade, o fato é que o que estava em discussão era a brutalidade do assassinato.
Em fevereiro de 1977, a Corte de Assises de Bouches-du-Rhône condenou Djandoubi à morte. A defesa recorreu e, em 9 de junho, a Corte de Cassação rejeitou o recurso. Sobrava o perdão presidencial. Vale dizer, o presidente francês podia conceder a graça, transformando a pena capital em prisão perpétua. Valéry Giscard d’Estaing, que havia declarado publicamente sua aversão à pena de morte, não concedeu a graça a Djandoubi. Manteve a sentença.
A França já estava dividida em torno do assunto. Robert Badinter, advogado e um dos principais adversários da pena de morte, havia conseguido, em janeiro daquele ano, impedir que Patrick Henry, culpado pelo sequestro e assassinato de uma criança, fosse condenado à guilhotina. Badinter não discutia a inocência de Henry. Discutia outra coisa: até onde o Estado podia decidir matar deliberadamente uma pessoa que já estava presa e não oferecia, naquele momento, perigo físico a ninguém.
Na madrugada de 10 de setembro, acordaram o prisioneiro em Baumettes. Conhecem-se detalhes quase domésticos daqueles minutos porque Monique Mabelly, juíza de instrução escalada para assistir à execução, escreveu tudo o que havia presenciado. Seu relato permaneceu durante décadas longe do público e acabou entregue muitos anos depois por Robert Badinter ao “Le Monde”. Mabelly registrou inclusive o silêncio dos homens que caminhavam pela prisão e as mantas marrons colocadas no chão para diminuir o barulho dos passos. Para diminuir o barulho da morte.
Djandoubi fumou um cigarro, depois outro. Bebeu rum. Conversou com um imã. Quando pediu o terceiro cigarro, disseram que não havia mais tempo. Parece um detalhe, e realmente parece um detalhe diante do crime que havia cometido. Mas talvez uma das coisas mais perturbadoras daquela execução seja exatamente isso. O tempo havia acabado para quê? Por que não havia mais tempo para um terceiro cigarro? O homem morreria dali a instantes. Alguns minutos a mais modificariam o quê? Não ressuscitariam Élisabeth Bousquet, não tornariam um cigarro a mais o crime cometido menos bárbaro. Mas havia um horário para a morte e a burocracia, quando quer, funciona até no patíbulo. Sobre os cadáveres.
Prepararam Djandoubi, inclusive colocando sua perna artificial. Cortaram o colarinho de sua camisa para deixar o pescoço livre. O condenado foi levado ao lugar onde estava montada a guilhotina. Pouco depois, às 4h40, a lâmina caiu. A cabeça também. Foi a última vez na França.
A pena de morte não terminou naquela madrugada. Tribunais franceses continuaram condenando réus à morte, mas nenhum outro condenado foi executado.
François Mitterrand chegou à Presidência em 1981 tendo assumido publicamente uma posição abolicionista. Robert Badinter tornou-se seu ministro da Justiça e levou o projeto ao Parlamento. Em 17 de setembro fez uma das mais importantes sustentações políticas de sua vida, defendendo a abolição diante da Assembleia Nacional. A proposta passou pela Assembleia e depois pelo Senado. A lei foi promulgada em 9 de outubro de 1981. Quatro anos antes, ainda se cortava a cabeça de condenados numa prisão francesa.
A guilhotina havia atravessado monarquias e impérios. Passou pelas duas guerras mundiais e sobreviveu à ocupação nazista. Ainda estava em uso depois da Guerra da Argélia e de Maio de 68. Chegou quase aos anos 1980.
“Star Wars” estreou oficialmente nos cinemas franceses em 19 de outubro de 1977. Luke Skywalker, Darth Vader e a princesa Leia chegaram oficialmente às telas do país 39 dias depois da última guilhotinada.

