Giovana Madalosso não tem uma obra extensa. Ainda. Nasceu em Curitiba, em 1975, e publicou o primeiro livro, “A Teta Racional”, em 2016, já na casa dos 40 anos. É uma coletânea de contos e chegou à final do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional, na categoria conto. Dois anos depois, Giovana publicou “Tudo Pode Ser Roubado”, seu primeiro romance, também finalista, desta vez do Prêmio São Paulo de Literatura. Ou seja, não foi exatamente uma escritora que precisou publicar uma dúzia de livros até que alguém percebesse que estava ali fazendo uma literatura de altíssima qualidade. Foi percebida quase de saída. Há aquela velha frase segundo a qual os vencedores podem ser reconhecidos na linha de partida. Com literatura é mais complicado, claro, mas alguma coisa já estava ali.

Prêmio, como se sabe, ajuda currículo, orelha de livro e dá pontos no Lattes. Às vezes ajuda muito. Mas não garante literatura de qualidade. O que começou a ficar interessante em Giovana Madalosso foi outra coisa. De um livro para outro aparecia uma escritora reconhecível, interessada nas mulheres contemporâneas sem transformá-las em discursos ou cartilhas feministas, atenta ao sexo, à maternidade, às relações de classe e àquela quantidade de pequenos cansaços que forma a vida urbana, a vida em sociedade. E ao humor, claro. Não é pouco. Sem transformar as personagens em piada. Poucas escritoras brasileiras fazem isso tão bem. Giovana é uma espécie de Claudia Piñeiro brasileira. Como a argentina, sabe construir mulheres complexas, socialmente situadas, sem abrir mão do humor, da tensão e, sobretudo, de contar uma história.
“Tudo Pode Ser Roubado” já mostrava uma característica que permaneceria como um dos símbolos de sua escrita. A protagonista é garçonete, ladra eventual, sexualmente livre e, em determinado momento, aceita roubar uma primeira edição de “O Guarani”. Parece uma daquelas histórias policiais, e, de certa forma, é. Mas Madalosso usa o enredo para observar ambição, desejo e relações de poder. Para estudar essas relações. A literatura não fica parada esperando que o leitor admire uma frase, aquele truque já meio manjado de certa literatura brasileira contemporânea. Com Madalosso, a história anda e as personagens parecem, em alguns momentos, saltar da página. Talvez venha daí uma de suas qualidades mais evidentes, escrever ficção literária sem considerar o enredo uma atividade, digamos, de segunda categoria. Um problema que, diga-se, não é exclusivamente brasileiro.
Com “Suíte Tóquio”, de 2020, a escritora deu um salto. Um voo. O desaparecimento de uma criança levada pela babá permite que o romance acompanhe duas mulheres de lugares sociais muito diferentes, Fernanda e Maju, e, sob essa perspectiva, examine maternidade, dinheiro, trabalho doméstico, desejo, abandono e desigualdade. Uma desigualdade que, no Brasil, às vezes entra na sala sem bater à porta porque, a rigor, já mora na casa. O livro foi finalista do Jabuti, ganhou edições no exterior e, na tradução de Bruna Dantas Lobato, entrou na lista dos cem livros notáveis de 2025 do “New York Times”. A essa altura já estava claro que não se tratava apenas de uma escritora promissora.

“Batida Só”, publicado em 2025, poderia ser uma repetição da fórmula que funcionou e vinha funcionando. Não é. Giovana desloca novamente o interesse para uma jornalista que descobre uma arritmia grave e passa a conviver com o próprio corpo como quem mora numa casa onde, de repente, a instalação elétrica começa a dar curto. E novamente consegue explorar temas como fé, medicina, sexualidade, medo e morte e, o mais curioso, faz isso sem abrir mão do humor. É um livro menos apressado, mais interessado nas fragilidades que fazem parte da vida. Também deixa evidente uma decisão de escritora inteligente — não passar a vida escrevendo o mesmo livro. Tem uma fórmula que funciona? Pois muda a fórmula antes que ela comece a cansar até quem a inventou.
Em menos de uma década, Madalosso publicou um livro de contos, três romances, um livro infantil, tornou-se colunista da “Folha de S.Paulo”, teve livros traduzidos, chegou às finais de alguns dos principais prêmios literários brasileiros e foi parar no “New York Times”. Não são apenas sinais de reconhecimento. Claro que ainda não há uma sentença da posteridade. Felizmente. A posteridade não funciona como uma lista de mais vendidos de banca de aeroporto.
Mas onde colocar Giovana Madalosso na literatura brasileira contemporânea? Certamente entre as escritoras mais consistentes de sua geração, que, aliás, talvez seja a melhor geração de escritoras brasileiras da história. Antes havia excelentes escritoras, algumas extraordinárias, mas pertencentes a gerações diferentes. Nunca tivemos tantas boas escritoras produzindo ao mesmo tempo.

Giovana escreveu pouco. Muito pouco, considerando uma carreira literária. Mas seus livros conversam entre si sem parecer que contam a mesma história. Há um território Madalosso muito bem definido. Um mapa Madalosso da literatura brasileira, feito de mulheres nada exemplares, culpa, desejo, maternidade, sexo, dinheiro, relações de classe. As personagens fazem coisas. Às vezes fazem coisas erradas. Erradíssimas. Não passam duzentas páginas pensando naquilo que poderiam ter feito ou deixado de fazer.
Não é uma literatura de intenções. Há falhas, pequenos acertos, coisas boas e grandes constrangimentos, e a vida é feita mais ou menos assim. É cedo para dizer que Giovana Madalosso ficará para sempre na literatura brasileira, até porque literatura não é corrida de duzentos metros e uma carreira de dez anos é muito pouco. Mas já existe uma obra para a qual se pode olhar e dizer que não se trata mais de promessa. Giovana Madalosso é, hoje, uma das grandes escritoras brasileiras vivas.
Há escritores que passam a carreira inteira tentando construir uma voz. Giovana, com relativamente poucos livros, já não precisa explicar qual é a sua.

