Perséfone está prestes a morrer quando uma religiosa lhe oferece a salvação. A palavra, como quase tudo em “Perdoa os Nossos Pecados”, revela-se perigosa. A jovem escapa da execução e é levada para um convento, onde deveria arrepender-se, obedecer e agradecer pela vida preservada. Paul Hyett transforma esse abrigo em lugar de suspeita desde a chegada da personagem. Portas pesadas, dormitórios austeros e corredores iluminados de maneira precária não escondem o que há ali. Apenas adiam a revelação.
Hyett chegou à direção depois de mais de duas décadas trabalhando com maquiagem, criaturas e efeitos físicos em produções de horror. Participou de filmes como “Abismo do Medo” e “Eden Lake”, experiência que ajuda a compreender sua preferência por corpos ameaçados e ambientes em que o mal parece ter consistência própria. Em “Perdoa os Nossos Pecados”, contudo, o aspecto mais interessante não está na aparição de monstros. Está na maneira como o diretor associa violência espiritual a uma instituição organizada em torno da obediência.
Perséfone e a madre superiora
Hannah Arterton interpreta Perséfone como alguém que rapidamente entende que a execução talvez tivesse sido somente a primeira ameaça. A madre superiora de Clare Higgins oferece amparo, porém cada demonstração de autoridade torna menos clara a distância entre proteção e cárcere. As outras religiosas carregam seus próprios pecados, medos e suspeitas, e o convento começa a funcionar como uma pequena sociedade fechada, com regras particulares e uma ideia bastante conveniente acerca do que Deus espera de cada uma.
O nome Perséfone já carrega uma história de passagem entre mundos, e Hyett aproveita essa sugestão sem precisar transformá-la em explicação. Sua protagonista entra viva numa espécie de submundo administrado por mulheres que afirmam conhecer o caminho da redenção. Quanto mais ela tenta compreender o que acontece, mais o filme aproxima fé e superstição até que separar uma coisa da outra deixa de ser simples.
Há imagens que poderiam conduzir o longa para o terror religioso mais previsível, especialmente quando as visões começam e o convento mostra o que escondia. Hyett escapa disso em parte graças a Arterton e Higgins. A primeira sustenta o espanto sem fazer de Perséfone uma mocinha passiva. A segunda sabe que uma madre superiora assustadora não precisa andar aos gritos pelos corredores.
“Perdoa os Nossos Pecados” funciona melhor quando deixa o sobrenatural misturar-se à crueldade perfeitamente humana daquela comunidade. Demônios podem ser expulsos por algum ritual. Com fanáticos, a situação costuma ser mais complicada.

