Uma casa pode guardar durante anos aquilo que seus moradores se recusam a dizer. Em “Almas Perdidas”, Dino Risi coloca Tino Zanetti dentro de uma residência veneziana em que o silêncio já parece ter adquirido mobília própria. O rapaz chega para morar com os tios Fabio e Elisa Stolz e logo percebe que há alguma coisa profundamente errada naquela família. Não sabe o quê. O espectador tampouco. Risi demora o suficiente para fazer dessa ignorância a melhor parte do filme.
A escolha do diretor já torna o longa um objeto estranho. Risi construiu sua fama entre os grandes nomes da comédia italiana do pós-guerra, dirigindo filmes que faziam da burguesia, de seus pequenos ridículos e de suas ambições uma fonte quase inesgotável de humor. Aqui, adapta com Bernardino Zapponi o romance de Giovanni Arpino e leva essa mesma burguesia para um lugar onde já não existe vontade alguma de rir. Uma retrospectiva do MoMA definiu “Almas Perdidas” como uma tentativa de Risi de ultrapassar a comédia e investigar o mal-estar psicológico da vida burguesa. É uma descrição bastante exata do que acontece naquela casa.
A casa dos Stolz
Fabio, vivido por Vittorio Gassman, domina o ambiente mesmo quando não está em cena. Engenheiro, vaidoso, autoritário e cercado de hábitos que Tino não compreende, ele parece administrar a família como administra o restante de sua vida, estabelecendo zonas nas quais ninguém deve entrar. Catherine Deneuve faz de Elisa uma mulher já habituada a circular por essas fronteiras. Sua contenção diz mais sobre o casamento dos dois que qualquer discussão aberta.
Veneza ajuda. Não a cidade luminosa dos cartões-postais, e sim aquela feita de paredes antigas, água escura e construções nas quais sempre parece haver um quarto que ninguém abriu durante décadas. Risi percebe o potencial daquele cenário e resiste à vontade de transformá-lo em atração turística. O espaço vai adquirindo a mesma doença dos personagens.
Tino começa a notar sons, comportamentos estranhos e sinais de que existe na casa alguma presença que não lhe foi apresentada. Danilo Mattei preserva no rapaz a inquietação necessária para que o público continue procurando respostas com ele. Gassman, por outro lado, aproveita cada aparição para tornar Fabio mais imprevisível, às vezes quase patético, outras vezes genuinamente ameaçador.
A força de “Almas Perdidas” vem dessa recusa em separar com nitidez o grotesco do trágico. Risi passa décadas fazendo o público rir das deformações morais de seus personagens e aqui parece perguntar o que aconteceria se as mesmas criaturas fossem observadas tempo suficiente, depois que a graça acabasse.
Quando a casa enfim entrega seu segredo, Veneza já não parece esconder nada. O problema estava entre aquelas paredes desde o começo. Todo mundo ali sabia, exceto o rapaz que acabara de chegar.

