James Xavier não está doente, não perdeu a visão e tampouco precisa de qualquer tratamento. Esse é precisamente o problema. O médico interpretado por Ray Milland enxerga bem, porém decidiu que isso é pouco. Roger Corman parte dessa insatisfação aparentemente científica para construir em “O Homem dos Olhos de Raio-X” uma história sobre um homem que se aproxima da monstruosidade justamente quando acredita estar se aperfeiçoando. Xavier desenvolve um colírio capaz de ampliar a visão para além do espectro comum, experimenta a substância no próprio corpo e, em pouco tempo, começa a descobrir que certos limites talvez existam por alguma razão.
Corman rodou o filme em poucas semanas, dentro da economia severa que marcou boa parte de sua carreira, e ainda assim conseguiu um dos trabalhos visualmente mais inventivos de sua filmografia. Em 1963, “O Homem dos Olhos de Raio-X” recebeu a Astronave de Prata no festival de ficção científica de Trieste. O reconhecimento ajuda a entender por que aqueles efeitos hoje rudimentares continuam funcionando. Corman não precisava convencer ninguém de que Xavier possuía olhos tecnologicamente plausíveis. Bastava colocar o espectador dentro da vertigem do personagem.
Os olhos de James Xavier
No começo, tudo parece uma brincadeira com as possibilidades do corpo. Xavier atravessa superfícies com os olhos, percebe o que roupas escondem, enxerga aquilo que médicos comuns não conseguem identificar. A habilidade oferece-lhe vantagens e alguma sensação de superioridade, duas coisas que homens vaidosos quase nunca administram com prudência. Aos poucos, a visão deixa de obedecê-lo. Aquilo que parecia um poder torna-se uma invasão permanente do mundo, e Xavier já não consegue escolher o que deseja ver.
Ray Milland entende muito cedo que o filme não sobreviveria se ele interpretasse Xavier como um cientista louco de segunda categoria. Há arrogância no médico, naturalmente, mas existe também medo, e é nesse intervalo que a atuação cresce. Diana Van der Vlis, Harold J. Stone e Don Rickles cercam o protagonista sem disputar com ele o centro da história. Corman sabe que seu verdadeiro espetáculo está naquele rosto cada vez menos humano, encoberto por óculos escuros e pela percepção insuportável de que o conhecimento também pode produzir horror.
Há um momento em que Xavier já não observa pessoas, paredes ou objetos. Seu olhar parece atravessar a própria matéria e avançar para algum lugar onde ciência e religião começam a se confundir. O filme barato de ficção científica que poderia ter terminado como uma curiosidade de 1963 então revela a perversidade de sua ideia. Ver tudo talvez seja uma maneira especialmente cruel de ficar cego.

