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Vann Siegert mata sem pressa. Conversa, observa, aproxima-se e deixa que as pessoas revelem aquilo que ele parece estar procurando. Owen Wilson, associado durante quase toda a carreira ao humor, empresta ao protagonista de “Um a Menos” uma serenidade tão fora do lugar que Hampton Fancher quase não precisa recorrer à violência para fazer dele uma presença ameaçadora. Vann não se comporta como quem perdeu o controle. O que assusta é justamente o contrário. Ele parece tê-lo em excesso.

O filme veio do romance de Lew McCreary e continua sendo uma peça bastante singular na trajetória de Fancher, roteirista ligado a “Blade Runner” e, décadas depois, a “Blade Runner 2049”. “Um a Menos” foi sua única direção de longa-metragem. A coincidência não é irrelevante. Há nesse assassino sem origem clara algo da inquietação que atravessa os personagens pelos quais Fancher ficou conhecido como roteirista, criaturas capazes de circular entre gente comum sem que seja possível saber exatamente o que se passa dentro delas.

A serenidade de Vann Siegert

Casper, vivida por Sheryl Crow, encontra Vann num bar. Ela fala demais, está fragilizada, aceita sua companhia. Ele escuta. Esse movimento basta para que se entenda a lógica tortuosa com que o personagem escolhe as vítimas. Vann parece convencido de que está retirando do mundo pessoas que já manifestaram algum desejo de sair dele. Nenhuma cena precisa absolvê-lo ou transformar sua loucura numa teoria moral mais sofisticada do que ela é. Seu método é apenas o método de um assassino que aprendeu a revestir a própria perversidade de delicadeza.

Depois, ele aluga um quarto na casa de Doug e Jane Durwin. Brian Cox e Mercedes Ruehl dão ao casal uma tristeza doméstica que interessa muito a Fancher. Vann entra naquela rotina quase como um hóspede ideal, discreto, prestativo, disposto a ouvir, e encontra trabalho nos correios. A possibilidade de uma vida banal chega a parecer sedutora para ele. Janeane Garofalo surge como Ferrin e completa uma espécie de esboço de normalidade que o protagonista talvez deseje experimentar, embora nunca pareça disposto a pagar o preço necessário para tornar-se outra pessoa.

Owen Wilson mantém o rosto quase sempre calmo e isso livra o filme de uma sucessão de clichês sobre psicopatas. Não existem grandes explosões nem discursos em que Vann explica sua natureza. Ele mata e continua. Até sua voz parece inconvenientemente dócil para alguém assim.

Fancher também introduz dois policiais que invadem a imaginação do assassino e tornam menos confiável tudo quanto se vê. A fronteira entre delírio e realidade não precisa ser esclarecida por inteiro. Vann é um homem sem centro, capaz de passar por cidades, casas, empregos e pessoas deixando atrás de si um vazio que ninguém percebe imediatamente.

Talvez por isso “Um a Menos” permaneça desconfortável tantos anos depois. O assassino não chega coberto de sangue. Ele pede licença, senta-se à mesa e sabe conversar.


Filme: Um a Menos
Diretor: Hampton Fancher
Ano: 1999
Gênero: Drama/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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