Em uma Londres futura dominada pelo fascismo, V e Evey enfrentam um governo que controla a população por meio do medo e da censura. A Inglaterra vive sob o comando do Partido Fogo Nórdico, liderado pelo chanceler Adam Sutler (John Hurt). O governo controla a televisão, impõe toque de recolher e persegue qualquer cidadão considerado inconveniente. Imigrantes, homossexuais, integrantes de outras religiões e opositores políticos desapareceram das ruas. Quem permanece aprendeu a falar baixo, obedecer às ordens e não fazer perguntas.
É nessa Londres sufocada pela vigilância que vive Evey Hammond (Natalie Portman), funcionária da emissora estatal BTN. Certa noite, ela deixa sua casa após o horário permitido e é abordada pelos Homens-Dedo, agentes encarregados de patrulhar a cidade. Antes que seja presa ou agredida, um homem mascarado interfere. Ele se apresenta apenas como V (Hugo Weaving), usa uma máscara de Guy Fawkes e fala com a elegância de alguém que ensaiou cada frase diante do espelho.
V leva Evey até um ponto elevado da cidade. De lá, ela presencia a destruição do tribunal Old Bailey, preparada pelo mascarado para marcar o início de sua campanha contra o regime. O ataque, acompanhado por música, tem endereço e horário definidos. V pretende atingir os edifícios que representam o poder e, sobretudo, romper o silêncio mantido pela propaganda oficial.
Dirigido por James McTeigue, “V de Vingança” acompanha a aproximação entre essa jovem assustada e um vigilante disposto a derrubar o governo britânico. Enquanto V prepara novos ataques, o inspetor Eric Finch (Stephen Rea) recebe a tarefa de capturá-lo. A investigação leva o policial a documentos e testemunhas ligados a uma história que seus superiores preferiam manter enterrada.
A televisão vira campo de batalha
Na manhã seguinte ao ataque, a BTN informa que a demolição do tribunal já estava prevista. A mentira mal se sustenta, mas revela como o governo administra os acontecimentos. Se alguma coisa ameaça sua autoridade, basta editar as imagens, escolher palavras convenientes e oferecer ao público uma versão menos perigosa.
V invade a emissora e assume a transmissão nacional. Diante das câmeras, declara que destruiu o Old Bailey e convida a população a comparecer ao Parlamento em 5 de novembro do ano seguinte. Ele concede aos britânicos doze meses para decidir se continuarão obedecendo ao partido. A polícia cerca o prédio, mas Evey interfere quando os agentes tentam capturá-lo. Seu gesto salva V e transforma uma funcionária discreta na nova suspeita do regime.
Sem condições de voltar para casa, Evey é levada à Galeria das Sombras, o esconderijo subterrâneo de V. O lugar reúne livros, pinturas, músicas e filmes proibidos pelo governo. Enquanto Sutler elimina qualquer manifestação artística fora do padrão oficial, o mascarado preserva obras inteiras debaixo da cidade. Sua coleção oferece a Evey contato com um mundo que lhe havia sido negado, embora a porta continue sob o controle do anfitrião.
A convivência entre os dois produz algumas das passagens mais interessantes de “V de Vingança”. V cozinha, ouve música, cita Shakespeare e assiste com entusiasmo a “O Conde de Monte Cristo”. Também guarda armas, planeja atentados e procura pessoas ligadas ao próprio passado. Essa mistura impede que ele seja tratado apenas como herói. Sua educação impecável não torna seus métodos menos perturbadores.
Hugo Weaving trabalha durante toda a produção com o rosto coberto. Sem expressões faciais, o ator depende da voz, da inclinação da cabeça e dos movimentos do corpo para revelar ironia, afeto ou ameaça. A máscara permanece imóvel, mas V raramente parece igual de uma cena para outra. O desempenho dá personalidade a um homem cuja identidade verdadeira deixou de ser sua principal informação.
Uma investigação incômoda demais
Eric Finch inicia a busca pelo mascarado seguindo as ordens do governo. Ele analisa os ataques, visita arquivos e procura relações entre as pessoas perseguidas por V. Cada novo dado, porém, aproxima o inspetor de acontecimentos comprometedores ligados à ascensão do Fogo Nórdico. O policial percebe que solucionar o caso também pode destruir a versão oficial que deveria proteger.
Stephen Rea oferece a Finch uma inquietação discreta. O personagem não abandona suas obrigações de uma hora para outra, tampouco assume repentinamente o papel de rebelde. Ele continua trabalhando, entrega relatórios e escuta as cobranças de Sutler. A diferença surge nas perguntas que passa a formular e nas respostas que já não consegue aceitar com a antiga facilidade.
Evey também carrega motivos pessoais para temer o partido. Seus pais sofreram perseguição política, e sua família foi desfeita pela violência estatal. Mesmo assim, ela não adere prontamente aos planos de V. Natalie Portman preserva a fragilidade da personagem sem transformá-la em passividade. Evey sente medo, erra, foge e tenta sobreviver com os poucos recursos disponíveis.
Quando consegue deixar o esconderijo, ela pede ajuda a Gordon Deitrich (Stephen Fry), apresentador da BTN e seu antigo chefe. Gordon mantém uma vida pública adequada às exigências do governo, mas guarda objetos proibidos dentro de casa. Cansado da censura, decide satirizar Sutler em seu programa. A brincadeira diverte os espectadores e oferece aos agentes um pretexto para persegui-lo. Naquele país, fazer piada com o chanceler pode custar muito mais que o emprego.
O medo como instrumento político
O roteiro escrito pelas irmãs Wachowski adapta a graphic novel criada por Alan Moore e David Lloyd. A história preserva a pergunta mais desconfortável do material original. Até onde alguém pode ir para combater uma ditadura sem reproduzir parte da violência que condena? V deseja libertar a população, mas também manipula pessoas e decide sozinho qual preço os outros deverão pagar.
A relação entre V e Evey concentra essa contradição. Ele oferece abrigo, conhecimento e proteção, porém exige confiança sem revelar toda a verdade. Ela admira sua coragem e rejeita sua crueldade. O vínculo entre ambos cresce cercado por diferenças que nenhum jantar, música ou conversa consegue apagar.
James McTeigue mantém a ação ligada à circulação de informação. Uma transmissão interrompida muda o alcance de V. Um arquivo consultado aumenta o risco enfrentado por Finch. Uma máscara distribuída pelas ruas dificulta o trabalho dos agentes. Os elementos técnicos permanecem próximos das escolhas dos personagens e dos efeitos provocados por elas.
Quando uma máscara ganha as ruas
À medida que o novo 5 de novembro se aproxima, V distribui milhares de máscaras de Guy Fawkes pela Inglaterra. O rosto que escondia apenas um homem passa a circular em casas, ruas e espaços públicos. A polícia pode procurar um suspeito, mas perde eficiência quando qualquer cidadão tem a possibilidade de vestir a mesma identidade.
“V de Vingança” combina ação, drama e thriller político sem abandonar a história de Evey. É por meio dela que o público entra nesse universo e descobre o custo de desafiar o partido. V possui planos grandiosos, frases elaboradas e gosto por entradas teatrais. Evey, porém, enfrenta as perdas mais íntimas e precisa decidir por conta própria que tipo de liberdade deseja.
O longa permanece provocador porque não oferece uma figura confortável para ocupar o centro da resistência. V é inteligente, sedutor e perigoso. Sutler governa pelo medo, enquanto seus ministros transformam televisão, polícia e religião em ferramentas de obediência. Finch procura a verdade dentro da instituição que ajudou a escondê-la. Evey fica entre todos eles, obrigada a escolher antes que o prazo anunciado pelo mascarado termine.
Quando a data prometida chega, Londres já não é a mesma cidade vista no início. As máscaras ocupam as ruas, os soldados recebem ordens e a população precisa decidir se continuará em casa. V preparou o encontro durante um ano, mas a última escolha pertence às pessoas que atravessam a cidade e caminham em direção ao Parlamento.

