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Às vésperas do Natal de 1985, um comerciante de carvão descobre abusos em um convento irlandês e arrisca a segurança da própria família. Em “Pequenas Coisas como Estas”, Bill Furlong (Cillian Murphy) vive em New Ross, pequena cidade da Irlanda, com a esposa Eileen (Eileen Walsh) e as cinco filhas. Ele trabalha entregando carvão, mantém as contas em ordem e atravessa os dias com a discrição de quem aprendeu cedo a ocupar pouco espaço. A chegada do Natal aumenta o serviço, mas uma entrega ao convento local rompe essa rotina. Bill presencia a entrada forçada de uma adolescente e começa a desconfiar do tratamento reservado às jovens acolhidas pelas freiras.

Dirigido por Tim Mielants, o drama produzido em 2024 chegou aos cinemas brasileiros em 2025. O roteiro de Enda Walsh adapta o romance homônimo de Claire Keegan e situa a história no período em que as Lavanderias de Madalena ainda funcionavam na Irlanda. Nessas instituições católicas, mulheres consideradas inadequadas aos padrões religiosos e familiares eram submetidas a trabalho forçado, isolamento e punições. O longa acompanha esse capítulo histórico pelo olhar de um homem comum, cujo sustento depende da mesma comunidade que prefere manter tudo encoberto.

Uma entrega muda a rotina

Bill conhece cada rua de New Ross e boa parte dos moradores. O carvão que transporta aquece casas, estabelecimentos e também o convento, onde meninas e mulheres trabalham sob a autoridade das religiosas. Durante uma entrega, ele entra no prédio para deixar uma fatura e observa jovens lavando roupas e esfregando pisos. Uma delas se aproxima e pede ajuda para sair dali. Antes que Bill obtenha mais informações, uma freira interrompe o contato e exige que ele deixe o local.

O pedido acompanha Bill de volta para casa. Ele lava as mãos com força, tenta remover a fuligem e desaba no banheiro, vencido por lembranças que havia mantido sob controle. Cillian Murphy interpreta esse abalo com poucos gestos e uma expressão permanentemente cansada. Bill fala pouco, mas o corpo entrega insônia, medo e vergonha. A escolha de Mielants por manter vários acontecimentos fora de quadro prolonga a incerteza e aproxima o espectador da posição desconfortável ocupada pelo comerciante.

Eileen percebe a mudança do marido e pergunta o que aconteceu. Quando Bill relata aquilo que viu, ela pede cautela. A família tem cinco meninas para criar, despesas acumuladas no período natalino e vínculos importantes com a escola administrada pelas freiras. Para Eileen, envolver-se nos assuntos do convento pode comprometer anos de trabalho. Bill rebate lembrando que sua mãe também foi jovem, solteira e rejeitada pela família. Caso ninguém lhe tivesse oferecido abrigo, ele talvez nem estivesse sentado naquela cozinha.

O passado entra pela porta

As recordações levam Bill à infância na propriedade da senhora Wilson (Michelle Fairley), mulher rica e independente que acolheu sua mãe, Sarah (Agnes O’Casey). Em vez de expulsá-la por engravidar fora do casamento, ela permitiu que a jovem permanecesse na casa e criasse o filho. Bill cresceu protegido daquela rejeição, embora nunca tenha conhecido oficialmente a identidade do pai.

Ned (Mark McKenna), funcionário da propriedade, ocupava um lugar afetuoso em sua vida. As lembranças dos dois surgem em situações simples, durante brincadeiras, refeições ou pequenos instantes de cuidado. Já adulto, Bill procura notícias dele e ouve de uma nova moradora que Ned foi levado para uma instituição após adoecer. A mulher observa a semelhança entre os dois e pergunta se são parentes. Bill não responde, mas a pergunta devolve ao passado uma importância que ele já não consegue arquivar.

Essas memórias explicam por que a situação das jovens o perturba tanto. Ele não age movido por uma coragem repentina. Reconhece nelas a vulnerabilidade de sua mãe e sabe que sua própria vida dependeu da decisão de uma mulher que contrariou a crueldade aceita naquela época. Esse vínculo também torna seu impasse mais doloroso, pois qualquer iniciativa pode prejudicar as filhas que ele tenta proteger.

Uma jovem no depósito

Ao chegar cedo para outra entrega, Bill descobre Sarah (Zara Devlin) trancada no depósito de carvão do convento, exposta ao frio. A adolescente revela que está grávida. Ele a retira dali e busca ajuda dentro do prédio, onde passa a ser recebido por Irmã Mary (Emily Watson), madre superiora da instituição.

Sarah reaparece limpa e com outras roupas. Diante da religiosa, afirma que as próprias meninas a prenderam durante uma brincadeira. A versão parece decorada, enquanto a presença de Irmã Mary impede qualquer conversa reservada. Emily Watson oferece à personagem uma cordialidade assustadora. A freira mantém a voz baixa, organiza a sala e controla quem pode falar. Nenhuma grosseria explícita é necessária para deixar Bill em desvantagem.

Irmã Mary pergunta sobre Eileen e as cinco filhas do casal. Também menciona a escola ligada ao convento, frequentada pelas meninas. O recado chega disfarçado de interesse familiar. Caso Bill espalhe o que viu, as portas da instituição poderão se fechar para suas filhas. Antes de dispensá-lo, a madre entrega um cartão de Natal com dinheiro destinado a Eileen. O envelope transforma a visita em um compromisso que Bill jamais aceitou, mas terá dificuldade para explicar.

O silêncio protege o convento

Eileen descobre o cartão e questiona por que o marido guardou o presente no bolso. Bill alega esquecimento. A quantia, porém, seria útil para as despesas de Natal, o que torna a recusa mais difícil e aumenta a distância entre os dois. Enquanto ele busca uma forma de reagir, a esposa tenta preservar a estabilidade construída dentro de uma cidade onde as freiras controlam educação, reputação e acesso.

No pub, senhora Kehoe (Helen Behan) reforça o aviso. Ela recomenda que Bill cuide da própria vida, pois enfrentar o convento significa desafiar uma autoridade respeitada por comerciantes, famílias e vizinhos. Sua fala confirma que os rumores circulam em New Ross. A falta de surpresa revela algo ainda pior. Muitas pessoas sabem ou desconfiam do que ocorre, mas calculam que o preço de intervir será alto demais.

“Pequenas Coisas como Estas” ganha força ao acompanhar esse cálculo sem transformar Bill numa figura grandiosa. Ele hesita, mente para a esposa, teme pelas filhas e demora a aceitar o que viu. A atuação contida de Cillian Murphy preserva todas essas contradições. Bill conhece o risco de perder clientes, comprometer a educação das meninas e tornar sua família alvo de comentários. Ainda assim, cada nova passagem pelo convento torna o silêncio mais difícil de sustentar.

Mielants encerra sua observação antes que as consequências possam ser acomodadas. O filme deixa Bill diante de uma escolha que exige um gesto concreto, realizado sob os olhos da cidade e sem garantia de proteção. A decisão não apaga o poder das religiosas nem oferece segurança para sua família. Apenas rompe, por alguns instantes, o acordo silencioso que permitia ao convento continuar fechando suas portas.


Filme: Pequenas Coisas Como Estas
Diretor: Tim Mielants
Ano: 2025
Gênero: Drama
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fernando Machado

Fernando Machado é jornalista e cinéfilo, com atuação voltada para conteúdo otimizado, Google Discover, SEO técnico e performance editorial. Na Cantuária Sites, integra a frente de projetos que cruzam linguagem de alta qualidade com alcance orgânico real.

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