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Em uma madrugada em Hamburgo, Tim e Olivia acordam presos no próprio apartamento após uma misteriosa parede negra bloquear todas as saídas do edifício. Tim (Matthias Schweighöfer) e Olivia, chamada de Liv (Ruby O. Fee), atravessam uma grave crise no relacionamento. Depois de sofrerem a perda de uma gravidez, os dois passaram a lidar com o luto de maneiras diferentes. Ela deseja conversar e reconstruir a vida. Ele se refugia no trabalho como desenvolvedor de jogos e permanece horas diante do computador, distante da companheira e do mundo ao redor.

Cansada de esperar por uma mudança, Liv coloca suas roupas em uma mala e decide deixar o apartamento. O plano termina quando ela abre a porta e descobre que o corredor desapareceu. Uma parede formada por blocos negros ocupa toda a passagem. As janelas também foram cobertas pelo mesmo material, deixando o imóvel isolado da rua.

Escrito e dirigido por Philip Koch, o suspense alemão “Brick” parte de uma situação simples e assustadora. Um casal prestes a se separar precisa permanecer unido porque sua casa virou uma prisão. Sem telefone, água corrente ou qualquer contato com o exterior, Tim e Liv têm poucos recursos para descobrir o que aconteceu. A falta de informação pesa tanto quanto a barreira.

O apartamento vira uma armadilha

Tim examina os blocos, procura frestas e aproxima ferramentas da superfície. Logo descobre que a parede possui uma força magnética capaz de lançar objetos metálicos de volta contra quem tenta atravessá-la. Liv verifica as torneiras, procura sinal no celular e calcula o pouco que existe para beber. Se ninguém chegar, a sede será um problema antes da fome.

A dupla decide quebrar uma divisória comum do apartamento, onde não há blocos negros. Depois de muito barulho e esforço, os dois abrem um buraco até a residência vizinha. Ali conhecem Marvin (Frederick Lau) e Ana (Salber Lee Williams), outro casal preso nas mesmas condições. A descoberta confirma que o fenômeno atingiu o prédio inteiro.

Marvin reage ao confinamento com inquietação e atitudes impulsivas. Ana procura manter algum controle sobre ele e sobre a própria situação. A convivência entre os quatro nasce por necessidade, sem confiança suficiente para sustentar uma parceria tranquila. Cada morador possui comida, ferramentas ou informações que podem ajudar, mas dividir esses recursos significa depender de desconhecidos.

Os moradores continuam abrindo passagens entre apartamentos e andares. Nesse percurso, chegam até Oswalt (Axel Werner), um homem idoso, e sua neta Lea (Sira-Anna Faal). A presença dos dois torna o deslocamento mais difícil, pois as aberturas são estreitas e exigem esforço físico. O grupo cresce, assim como a disputa por mantimentos, espaço e autoridade.

Mapas, paredes e desconfiança

Tim começa a desenhar a planta do edifício e comparar a localização dos blocos. Sua experiência com jogos o ajuda a observar padrões, calcular distâncias e pensar em rotas possíveis. Liv participa das decisões e cobra dele uma postura que faltou durante a crise do casal. O confinamento força os dois a conversar, ainda que cada conversa aconteça sob a pressão de um prazo cada vez menor.

Koch aproveita bem os corredores improvisados e os buracos abertos nos pisos. A câmera acompanha os personagens enquanto eles descem pelo prédio, revelando pouco a pouco a dimensão da prisão. Cada apartamento apresenta novos objetos, hábitos e pistas sobre seus moradores. O cenário oferece informações que o roteiro nem sempre consegue transmitir com a mesma sutileza.

O problema de “Brick” surge quando os diálogos repetem aquilo que as ações já deixaram evidente. Tim está emocionalmente ausente, Liv guarda ressentimento e Marvin pode comprometer o grupo. Essas características são anunciadas tantas vezes que parte da tensão perde força. O espectador costuma perceber o perigo antes dos personagens, o que enfraquece algumas descobertas.

Ainda assim, Matthias Schweighöfer e Ruby O. Fee sustentam o centro emocional da história. Tim tenta compensar sua antiga passividade assumindo tarefas e procurando saídas. Liv se recusa a ocupar o lugar de mulher que apenas espera pelo companheiro. Ela questiona decisões, participa das buscas e mantém atenção sobre os conflitos que surgem entre os vizinhos.

Um policial impõe sua versão

A situação fica mais perigosa quando o grupo conhece Yuri (Murathan Muslu), um policial armado e obcecado por teorias conspiratórias. Ele acredita que a barreira pode ter sido criada para proteger os moradores de alguma ameaça do lado de fora. Para Yuri, derrubar a parede talvez seja mais arriscado do que permanecer dentro do edifício.

Sua postura divide os sobreviventes. Alguns querem continuar procurando uma saída, enquanto outros temem descobrir o que existe além dos blocos. A arma de Yuri concede peso às suas ordens e transforma qualquer discordância em ameaça. A partir desse ponto, os moradores precisam enfrentar a estrutura negra e também a crescente hostilidade dentro do prédio.

O policial representa uma ideia interessante do roteiro. Diante da falta de informação, cada pessoa preenche o silêncio com aquilo que já carregava. Tim procura padrões. Liv busca cooperação. Yuri oferece suspeitas envolvendo governos, discos voadores e forças ocultas. Marvin prefere agir antes de pensar. A variedade poderia render personagens mais complexos, mas o roteiro frequentemente os mantém presos a comportamentos previsíveis.

Uma boa ideia perde força

“Brick” funciona melhor quando os moradores utilizam furadeiras, cabos, mapas e objetos domésticos para investigar a barreira. Essas sequências possuem movimento e fazem o público participar da busca. Cada experiência elimina uma possibilidade, consome energia e aumenta a preocupação com a água. O perigo nasce de problemas muito concretos, embora a origem da parede pertença à ficção científica.

A produção também acerta ao transformar um prédio comum em um espaço hostil. Cozinhas, quartos e salas deixam de representar proteção. Os apartamentos viram compartimentos de uma prisão compartilhada por pessoas que mal sabiam os nomes umas das outras. Há até uma ironia incômoda nessa aproximação forçada. Foram necessários blocos indestrutíveis nas janelas para que os vizinhos finalmente se conhecessem.

O mistério, porém, oferece pistas excessivamente visíveis e segue um caminho mais previsível do que a premissa sugeria. A violência permanece contida, e os conflitos pessoais recebem diálogos que explicam sentimentos já percebidos nas atuações. Koch possui uma ideia valiosa, um cenário eficiente e atores comprometidos, mas nem sempre confia na força desses elementos.

Mesmo com essas limitações, “Brick” mantém interesse durante boa parte da duração. A busca por uma saída avança junto com o desgaste físico e emocional dos moradores. Tim e Liv precisam decidir quanto ainda confiam um no outro, enquanto o prédio oferece cada vez menos água, espaço e segurança. A parede negra impede a fuga, mas são as escolhas humanas que tornam cada novo buraco mais perigoso.


Filme: Brick
Diretor: Philip Koch
Ano: 2025
Gênero: Drama/Ficção Científica/Mistério/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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