Em “Amores Solitários”, uma escritora viaja ao Marrocos para terminar seu novo livro e conhece um executivo preso a uma vida insatisfatória. Katherine Loewe (Laura Dern) chega a um retiro literário no Marrocos decidida a trabalhar. Escritora consagrada, ela enfrenta um bloqueio criativo enquanto tenta lidar comtr o término de um relacionamento de muitos anos. A viagem deveria oferecer silêncio, distância e tempo para concluir seu novo romance. O local, porém, reúne autores de diversos países, compromissos coletivos, entrevistas, festas e pequenas vaidades profissionais. Para alguém que deseja desaparecer diante do computador, o programa parece quase uma armadilha.
Entre os convidados está Lily Kemp (Diana Silvers), jovem escritora que acaba de conquistar reconhecimento com seu primeiro livro. Ela viaja acompanhada pelo namorado, Owen Brophy (Liam Hemsworth), um executivo do setor financeiro que pouco conhece daquele universo. Lily deseja aproveitar a presença de autores famosos e criar vínculos profissionais. Owen tenta apoiá-la, mas permanece preso aos telefonemas de um trabalho que atravessa fusos horários e transforma qualquer passeio em expediente.
Katherine e Owen ocupam lugares diferentes naquele ambiente. Ela possui o prestígio que os participantes desejam alcançar, embora queira fugir da atenção. Ele acompanha alguém que finalmente pertence ao grupo, mas acaba tratado como visita inconveniente. Os dois se aproximam após um problema banal na hospedagem. Katherine procura água e se perde pelos corredores, enquanto Owen a ajuda a localizar o quarto. O gesto resolve a dificuldade daquela noite e estabelece uma intimidade discreta.
Uma excursão aproxima os dois
No dia seguinte, parte do grupo permanece no retiro para conversar com um jornalista. Katherine e Owen seguem numa excursão até uma cidade próxima. O veículo apresenta problemas durante o retorno e os passageiros dependem da acolhida de uma família local. A demora oferece aos dois algo raro desde a chegada ao Marrocos. Eles conseguem conversar sem a interferência das obrigações de Lily, das ligações empresariais ou da agenda literária.
Katherine fala sobre viagens, relacionamentos e o desgaste provocado pelo trabalho. Owen admite que não se sente confortável entre pessoas interessadas em demonstrar erudição até durante uma brincadeira. Ele procura acompanhar a namorada, embora Lily esteja cada vez mais envolvida com os escritores do retiro. O contraste cria uma situação quase cômica. Owen está cercado por livros, autores premiados e debates culturais, mas seu principal contato com a leitura parece ter sido a obrigação escolar.
Lily percebe a proximidade entre o namorado e uma escritora que admira. Seu incômodo cresce porque Katherine representa o sucesso profissional que ela deseja construir. Owen, por sua vez, começa a notar que a fama recente da companheira modificou a relação entre eles. As diferenças que antes poderiam parecer pequenas passam a ocupar jantares, passeios e conversas. A viagem criada para celebrar uma conquista profissional acaba expondo um namoro já bastante desgastado.
O trabalho acompanha cada escolha
Katherine consegue improvisar um espaço afastado das atividades para continuar escrevendo. O cômodo oferece pouca beleza, mas entrega o isolamento que seu quarto não garantiu. Ela passa horas diante do computador e protege o manuscrito porque depende dele para cumprir o prazo. A aproximação com Owen ameaça essa disciplina. Cada conversa retira tempo do livro, embora também alivie a solidão que a levou até o Marrocos.
Laura Dern interpreta Katherine com uma mistura cuidadosa de irritação, elegância e fragilidade. A personagem pode soar impaciente quando alguém interrompe seu trabalho, porém sua aspereza nasce de uma situação reconhecível. Ela perdeu uma relação duradoura, precisa deixar a antiga casa e ainda carrega a cobrança por um novo livro. O prestígio não elimina o medo de falhar. Apenas torna o fracasso mais público e menos confortável.
Owen também precisa decidir quanto tempo continuará oferecendo a um emprego que desaprova. Ele atende chamadas sobre uma operação financeira capaz de prejudicar trabalhadores distantes daquele hotel luxuoso. Essa parte do roteiro recebe menos atenção do que merecia, mas concede algum peso às dúvidas do personagem. Liam Hemsworth abandona a postura habitual de herói físico e trabalha com silêncios, constrangimento e gentileza. Owen possui dinheiro, aparência e estabilidade, mas demonstra a expressão de quem entrou na sala errada e perdeu a coragem de procurar a saída.
A diferença de idade entra em cena
Quando a amizade começa a ganhar outra temperatura, Katherine tenta conter a aproximação. A diferença de idade pesa sobre sua decisão, assim como o relacionamento de Owen com Lily. Ela conhece a cobrança lançada sobre mulheres mais velhas que se envolvem com homens jovens. Também sabe que uma paixão surgida durante uma viagem pode desaparecer quando malas, contas e compromissos voltam para casa.
Owen recebe essa resistência com frustração. Para ele, a idade parece menos importante que a afinidade criada durante os dias no retiro. Katherine, porém, possui mais motivos para desconfiar da situação. Susannah Grant, diretora e roteirista, mantém o romance apoiado em conversas, passeios e hesitações. Algumas falas explicam sentimentos que os atores já comunicaram por gestos, mas Laura Dern e Liam Hemsworth sustentam a relação com delicadeza suficiente para impedir que o envolvimento pareça uma fantasia vazia.
Diana Silvers assume a função mais ingrata do trio. Lily precisa representar o vínculo que prende Owen e, paralelamente, uma jovem autora insegura diante do próprio sucesso. A personagem comete excessos e trata o namorado com desprezo em certas ocasiões. Ainda assim, sua ansiedade diante dos colegas ajuda a mostrar que a fama recém-conquistada também cobra um preço. Ela deseja pertencer àquele grupo e acaba afastando a pessoa que viajou para apoiá-la.
Um romance bonito e irregular
“Amores Solitários” acompanha adultos que chegaram ao Marrocos com objetivos definidos e descobriram problemas que não cabiam na bagagem. Katherine queria escrever. Lily pretendia consolidar sua carreira. Owen buscava apoiar a namorada sem abandonar o emprego. A convivência transforma esses planos em escolhas afetivas e profissionais, algumas bastante dolorosas.
As paisagens marroquinas oferecem beleza ao romance, mas o melhor está nas conversas entre Katherine e Owen. Ambos carregam vidas aparentemente bem-sucedidas e fracassos difíceis de admitir. A ligação nasce menos de uma paixão fulminante que do alívio de serem ouvidos sem julgamento. Essa maturidade oferece personalidade a uma história que, em outros trechos, depende de coincidências e soluções cômodas.
Susannah Grant entrega um romance leve, adulto e agradável, mesmo quando o roteiro apressa conflitos que pediam maior desenvolvimento. Laura Dern oferece à personagem uma vulnerabilidade orgulhosa, enquanto Liam Hemsworth surpreende ao trabalhar com uma presença mais contida. Juntos, eles tornam possível acreditar que duas pessoas perdidas possam reconhecer companhia uma na outra. “Amores Solitários” deixa uma impressão acolhedora e lembra que recomeçar continua trabalhoso, mesmo sob o sol do Marrocos.

