Existem acordos que já nascem nulos porque uma das partes jamais teve condições de dizer não. É nesse terreno moralmente pantanoso que Manuel Martín Cuenca instala “O Acordo”, centrando a história em Irene, uma adolescente de quinze anos que vive numa instituição para menores infratores, está grávida e recebe de Javier, um dos educadores, uma proposta que ele apresenta com a serenidade de quem oferece abrigo durante uma tempestade. Ela poderá passar a gravidez na casa onde ele mora com Adela, sua mulher. Depois entrega-lhes o bebê.
Martín Cuenca rodou o filme na província de Jaén, especialmente nas Sierras de Cazorla, Segura y Las Villas, e sempre defendeu que a geografia deveria ter a importância de um personagem. Tem razão. A casa isolada entre montanhas parece, de início, uma proteção para Irene, um refúgio contra uma vida que vinha dando errado muito cedo, mas aos poucos aquela paisagem grandiosa vai produzindo o efeito oposto. Há espaço por todos os lados e lugar algum para onde fugir. A rodagem, iniciada antes da pandemia, acabou atravessada pelas interrupções de 2020, coincidência extrafílmica que torna ainda mais curiosa a atmosfera de confinamento que se instala na história.
A casa nas montanhas
Javier Gutiérrez evita transformar seu personagem num vilão ordinário. Javier fala, explica, organiza, oferece soluções. Há nele uma autoridade paternal que pode mesmo parecer bem-intencionada durante algum tempo, justamente o detalhe que Martín Cuenca utiliza para tornar tudo mais incômodo. O espectador sabe que Irene está ali porque ele precisa dela e que a jovem depende dele em quase todo o resto. O tal acordo reúne pessoas que se sentam à mesma mesa, mas nunca estiveram na mesma posição.
Adela compreende isso melhor que o marido, ou talvez compreenda e prefira não olhar muito de perto. Patricia López Arnaiz vai engrossando a frustração da personagem sem recorrer a acessos melodramáticos, fazendo com que o desejo pela criança transite por regiões cada vez menos nobres. Não é difícil ter pena dela. Também não é difícil começar a temê-la. A vontade de ser mãe, quando se cristaliza como um direito que alguém julga possuir sobre o corpo e o filho de outra mulher, deixa rapidamente o domínio da ternura.
Irene Virgüez estreava no cinema, ao lado de dois atores tarimbados, e a aparente desvantagem serve à personagem. Há uma rudeza, uma forma ainda irregular de reagir, uma hesitação que torna Irene muito mais convincente que seria uma composição demasiadamente calculada. Martín Cuenca e Alejandro Hernández deixam que a adolescente observe primeiro e entenda depois, movimento durante o qual a gravidez deixa de ser o problema que ela desejava solucionar e ganha existência própria em sua cabeça. É aí que o filme muda de natureza. O que Javier e Adela consideravam decidido volta à estaca zero.
Quando Irene muda o acordo
Apresentado na Seleção Oficial do Festival de San Sebastián, fora de competição, “O Acordo” pertence àquele tipo de suspense que obtém sua força do desconforto, e não da correria. Portas fechadas, refeições em silêncio, conversas interrompidas e olhares demorados fazem um trabalho que outros diretores entregariam a facas e revólveres. Marc Gómez del Moral fotografa as montanhas sem transformá-las num paraíso: quanto mais belo o entorno, mais inquietante torna-se a casa.
Há uma questão elementar que percorre o filme sem que ninguém precise formulá-la. Quem é dono de uma criança ainda por nascer? Irene começa a resposta como alguém que pensa ter muito pouco a perder, e essa é a grande vantagem de Javier e Adela. Ocorre que pessoas encurraladas também mudam. Às vezes muito depressa.

