Um agente viaja entre diferentes décadas do século 20 para impedir um atentado e encerrar a missão que dominou toda a sua carreira. Dirigido pelos irmãos Michael e Peter Spierig, “O Predestinado” acompanha esse policial temporal, vivido por Ethan Hawke, numa perseguição ao misterioso Fizzle Bomber. A busca passa por Nova York, por uma agência secreta e por um bar em 1970, onde o personagem conhece a Mãe Solteira, interpretada por Sarah Snook. O encontro muda os rumos da operação e liga duas vidas marcadas por perdas, segredos e escolhas feitas sob pressão.
O Agente Temporal (Ethan Hawke) trabalha para uma organização capaz de enviar seus funcionários ao passado. A tarefa desses policiais é impedir crimes antes que eles ocorram. A ideia parece eficiente no papel, embora viajar pelos anos provoque tantos problemas quanto aqueles que deveria resolver.
Durante uma operação contra o Fizzle Bomber, o agente sofre ferimentos graves. O criminoso é responsável por uma série de atentados e permanece fora do alcance da polícia mesmo quando seus perseguidores conhecem datas futuras. Após passar por uma reconstrução facial, o policial recebe de Robertson (Noah Taylor), seu superior na Agência Temporal, uma última missão antes da aposentadoria.
O objetivo é localizar o terrorista, impedir seu maior atentado e fechar um caso que atravessou boa parte da carreira do agente. Robertson lhe fornece equipamentos, informações e acesso a diferentes períodos. Falta aquilo que nenhuma repartição consegue entregar com facilidade, a certeza de que uma mudança no passado não produzirá um problema ainda maior.
Uma conversa muda a investigação
Disfarçado de barman, o agente chega a Nova York em 1970. O bar tem aparência comum, frequentadores cansados e bebidas suficientes para prolongar qualquer conversa. Atrás do balcão, porém, o policial observa os clientes enquanto procura uma pessoa ligada à sua missão.
É ali que conhece a Mãe Solteira (Sarah Snook), escritora que produz relatos sentimentais para revistas femininas. O pseudônimo desperta a curiosidade do barman, que propõe uma aposta. Se aquela pessoa contar uma história mais surpreendente do que qualquer outra ouvida por ele, ganhará uma garrafa de bebida.
A conversa começa com certa provocação e ganha peso aos poucos. A Mãe Solteira relata uma infância vivida num orfanato, o desejo de conquistar independência e a tentativa de entrar num programa ligado às viagens espaciais. Também fala sobre um relacionamento amoroso, uma gravidez inesperada e procedimentos médicos que modificaram sua vida. Sarah Snook apresenta essas lembranças com firmeza, ressentimento e uma ironia discreta, sem transformar a personagem numa coleção de sofrimentos.
O agente escuta porque aquela história possui ligação com seu trabalho. Ele sabe mais do que revela e escolhe cuidadosamente o momento de apresentar sua proposta. Em vez de oferecer dinheiro ou proteção, promete algo muito mais tentador. A Mãe Solteira poderá voltar ao passado e procurar o homem que destruiu seus planos.
O passado entra na aposta
O equipamento usado nas viagens fica guardado num estojo de violino. O objeto oferece uma imagem curiosa. Enquanto qualquer músico carregaria partituras ou um instrumento, o agente transporta décadas inteiras debaixo do braço. Basta ajustar o destino para atravessar os anos, embora cada salto possa cobrar um preço inesperado.
A Mãe Solteira aceita a oferta porque deseja rever uma parte dolorosa de sua vida. O agente, por sua vez, espera cumprir as ordens da Agência Temporal e preparar um possível novo integrante para a organização. Os dois seguem juntos, mas não compartilham as mesmas informações. Um busca reparação. O outro precisa obedecer ao prazo estabelecido por Robertson e continuar a caçada ao Fizzle Bomber.
Essa diferença sustenta boa parte do suspense de “O Predestinado”. O espectador acompanha a missão por uma perspectiva incompleta, pois o agente raramente revela tudo o que sabe. Datas, nomes e lembranças surgem em etapas. Quando uma informação parece solucionar uma dúvida, outra passagem temporal modifica o contexto e exige atenção aos detalhes.
Os irmãos Michael e Peter Spierig usam as viagens para aproximar acontecimentos separados por muitos anos. A montagem corta entre períodos sem transformar a história numa aula de cronologia. O efeito pode causar alguma confusão, sobretudo quando as peças começam a se aproximar, mas esse desconforto pertence à proposta. O agente vive num trabalho em que passado, presente e futuro disputam espaço dentro da mesma missão.
Sarah Snook assume o centro
Embora Ethan Hawke ocupe a função de protagonista, Sarah Snook entrega a atuação mais marcante. A Mãe Solteira muda ao longo dos anos, enfrenta rejeições e aprende a sobreviver depois que seus antigos planos deixam de existir. Cada passagem depende da capacidade da atriz de preservar a mesma personalidade em circunstâncias muito diferentes.
Hawke interpreta o agente com um cansaço adequado ao personagem. Ele já viu épocas demais, perdeu colegas e passou anos atrás de um criminoso que parece conhecer seus movimentos. O barman simpático faz parte do disfarce, mas o homem por trás do balcão carrega pressa, culpa e medo de fracassar novamente.
Noah Taylor aparece com menos frequência, porém Robertson exerce influência sobre todas as decisões. Ele comanda a agência, define as missões e trata as viagens temporais com a frieza de quem distribui tarefas num escritório. Seus funcionários atravessam décadas, correm riscos físicos e mudam vidas. Para o chefe, tudo precisa caber num relatório.
Uma ficção científica íntima
“O Predestinado” possui atentados, perseguições e tecnologia, mas dedica grande parte de sua duração a uma conversa entre duas pessoas num bar. Essa escolha afasta o longa das aventuras futuristas carregadas de efeitos especiais. A tensão depende mais do que o barman esconde e do que a Mãe Solteira decide contar.
A produção também trata de identidade, solidão e livre-arbítrio dentro de uma trama policial. O agente acredita que pode impedir crimes porque conhece partes do futuro. Ainda assim, cada intervenção limita suas escolhas e aumenta sua dependência da Agência Temporal. Quanto mais tenta dominar os acontecimentos, menor parece ser sua liberdade.
A adaptação do conto “Todos Vocês, Zumbis”, de Robert A. Heinlein, preserva os paradoxos que tornaram a história conhecida. O roteiro exige atenção, mas oferece pistas suficientes para que o público acompanhe a investigação sem receber uma cartilha. Quem desejar compreender cada ligação provavelmente pensará no longa depois dos créditos e talvez queira revê-lo. Não por obrigação, felizmente, mas porque algumas peças ganham outro peso quando observadas pela segunda vez.
É possível dizer que “O Predestinado” trata o tempo como uma armadilha montada pelas próprias escolhas. O Agente Temporal entra na missão disposto a capturar o Fizzle Bomber e se aposentar. A conversa com a Mãe Solteira, porém, abre caminhos que Robertson não esclareceu por completo. Quando o estojo de violino volta a ser preparado, o policial já possui menos tempo, menos segurança e muito mais a perder.

