Caroline Wilson entende de cozinha muito mais que de si mesma, e “Romance à La Carte” começa justamente nesse pequeno descompasso. Chef de um restaurante sofisticado em Nova York, profissional obstinada, daquelas pessoas que organizam a vida alheia em pratos impecavelmente montados e depois descobrem que sua própria existência está uma bagunça, ela recebe a notícia da morte da tia Doreen e de uma herança improvável: um café em Lemon Myrtle Cove, na Austrália. Vai até lá para resolver o problema. Reformar, vender, voltar. Rosie Lourde sabe que nenhuma comédia romântica que se preze permitiria tamanha eficiência.
O longa foi a estreia de Lourde na direção de um longa-metragem, depois de anos entre atuação, produção e trabalhos de formato curto, e nasceu sob condições que explicam bastante de sua aparência modesta, quase doméstica. A cineasta teve duas semanas de pré-produção e quinze dias de filmagem, limitação que poderia condenar uma história tão dependente de atmosfera, mas acaba conferindo-lhe alguma graça. “Romance à La Carte” não parece interessado em impressionar ninguém. O sol australiano, os pequenos estabelecimentos, a vizinhança que sabe da vida uns dos outros e o café deixado por Doreen compõem uma espécie de antídoto contra a febre nova-iorquina de Caroline, e Lourde aproveita a precariedade do projeto para manter tudo perto de seus personagens.
O café de Lemon Myrtle Cove
O problema — e também o encanto — é Simon Cook. O cozinheiro vivido por Tim Ross recebe Caroline com uma mistura de resistência e curiosidade, percebendo muito antes dela que vender o café seria liquidar um pedaço da comunidade. Cindy Busby consegue deixar a protagonista naquele ponto em que uma heroína de comédia romântica costuma ser mais interessante: ainda segura de que sabe exatamente o que quer, embora cada novo acontecimento trate de provar o contrário. Caroline pretende modernizar o estabelecimento, fazer contas, resolver pendências; Simon, por seu turno, compreende que certos negócios sobrevivem porque não são apenas negócios. Uma receita pode ser ótima e ainda assim não valer nada se ninguém tiver vontade de sentar-se à mesa.
A chegada de Nathaniel, o ex-noivo interpretado por Joey Vieira, coloca uma dificuldade adicional no que já parecia resolvido demais. Ele representa o universo a que Caroline julgava pertencer, junto com os compromissos profissionais, a ambição e aquela segurança urbana que costuma parecer irresistível enquanto não aparece uma alternativa. Lourde não chega a transformar a personagem numa mulher dilacerada por grandes dilemas. Seria muito para este filme. O roteiro de Alison Spuck McNeeley e Casie Tabanou quer leveza e aceita as concessões que ela exige, inclusive a previsibilidade quase absoluta do romance.
Caroline entre dois lugares
Por isso mesmo, o melhor de “Romance à La Carte” talvez esteja nas pequenas cenas em que Caroline perde o interesse pela pressa. Cindy Busby e Tim Ross têm uma química tranquila, sem a necessidade de transformar cada aproximação num grande evento, e a paisagem deixa de funcionar como cartão-postal quando a protagonista percebe que ficar significaria renunciar à pessoa que imaginava ser. É uma escolha antiga no cinema, provavelmente tão antiga quanto os filmes em que alguém chega a uma cidadezinha pensando permanecer três dias e começa a desfazer as malas.
Lourde não tenta esconder a fórmula. Há comida, uma herança, um café ameaçado, um homem disponível no lugar certo e uma mulher que precisou atravessar meio planeta para descobrir algo que poderia ter percebido no apartamento em Nova York. Mas então não haveria filme. E Simon provavelmente continuaria cozinhando em paz.

