Paul Hough não concede ao espectador tempo para elaborar uma estratégia. Em “Corra ou Morra”, dezenas de pessoas arrancadas de suas vidas aparecem num lugar desconhecido e ouvem as regras de uma competição tão simples que quase dispensa explicações: é preciso correr, permanecer no caminho, não pisar na grama e evitar ser ultrapassado duas vezes. O descumprimento resulta em morte instantânea. Não existe recurso, juiz ou oportunidade para reclamar do regulamento. Corre-se.
O argumento parece saído de alguma conversa adolescente depois de uma sessão de “Battle Royale”, e Hough nunca escondeu a dívida. O diretor também apontou “Corra, Lola, Corra” como uma das inspirações do projeto, embora a verdadeira origem do filme seja bem mais interessante. Hough queria escrever um papel relevante para Eddie McGee, ator que perdera uma perna ainda criança devido a um câncer e encontrava enormes dificuldades para ser considerado para personagens que não fossem veteranos mutilados ou figuras reduzidas à própria deficiência. A solução do cineasta foi de uma perversidade carinhosa: fazer um filme em que McGee tivesse de correr.
Essa informação muda bastante a percepção da história. Eddie, o personagem de McGee, não é colocado na disputa para inspirar compaixão, tampouco ganha imunidade moral por possuir uma perna só. Hough elimina gente com brutal indiferença e faz dessa igualdade macabra uma das ideias mais estimulantes de seu roteiro. Há idosos, atletas, uma mulher grávida, pessoas com deficiência, um padre, gente aparentemente saudável e outras figuras que uma narrativa convencional trataria como mais ou menos aptas a sobreviver. Para as forças que comandam aquela corrida, essas diferenças não têm nenhum valor especial.
Eddie McGee no centro da corrida
O longa foi filmado aos pedaços durante anos, com um orçamento tão pequeno que sua precariedade técnica aparece em cena sem pedir licença. Hough chegou a dispor de dinheiro para poucos dias consecutivos de gravação e concentrou boa parte da ação num antigo centro correcional juvenil próximo de Los Angeles. A limitação ajuda e atrapalha. Algumas mortes têm a textura de um terror barato, um certo gosto de cinema de garagem, mas a secura do espaço e a repetição enlouquecedora do percurso reforçam a sensação de que aqueles competidores foram arremessados dentro de uma experiência cujo verdadeiro objetivo ninguém conhece.
Paul McCarthy-Boyington, como Justin, e McGee sustentam boa parte da transição da carnificina coletiva para os conflitos individuais. Conforme o número de corredores diminui, também vão desaparecendo as ilusões de solidariedade que pareciam tão nobres no começo. O padre pode continuar sendo padre enquanto a morte é uma possibilidade abstrata; um sujeito razoavelmente civilizado pode defender regras de convivência até perceber que apenas uma pessoa sairá dali viva. Hough parece mais interessado nesse momento de deterioração que na identidade de quem montou o espetáculo.
Quando os outros viram o obstáculo
E isso livra “Corra ou Morra” de ser apenas mais uma brincadeira de eliminação.
Não é um filme elegante. Em várias passagens, nem parece querer sê-lo. A violência vem seca, exagerada, às vezes quase cômica, e a encenação deixa expostas as costuras de um projeto independente que passou quatro anos lutando para existir. Entretanto, há alguma inteligência naquele massacre. Os personagens começam a corrida acreditando que o grande obstáculo está nas regras; pouco depois, percebem que o problema são os outros competidores.
Eddie McGee vai avançando entre gente muito mais veloz, mais jovem, com duas pernas e nenhuma vantagem que realmente importe. Hough construiu um filme sobre correr e acabou encontrando seu assunto em quem Hollywood achava que não poderia fazê-lo.

