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Em “Rebecca — A Mulher Inesquecível”, lançado em 2020, uma jovem deixa Monte Carlo para viver numa mansão inglesa após se casar com um aristocrata viúvo. Ela imagina ter escapado do emprego sufocante de dama de companhia, mas chega a Manderley e descobre que a falecida primeira esposa do marido ainda dita costumes, relações e silêncios. Dirigido por Ben Wheatley, o filme adapta o romance de Daphne du Maurier e transforma um casamento apressado numa inquietante disputa por pertencimento.

A protagonista interpretada por Lily James nem sequer recebe um nome próprio. Quando a história começa, ela trabalha como acompanhante da rica e inconveniente Sra. Van Hopper, vivida por Ann Dowd. As duas estão hospedadas em Monte Carlo, durante os anos 1930, e ocupam lugares sociais bastante diferentes. A patroa fala demais, exige atenção constante e coleciona contatos importantes. A funcionária observa tudo com discrição e tenta não causar transtornos.

É nesse ambiente que ela conhece Maxim de Winter, interpretado por Armie Hammer. Rico, elegante e viúvo, ele pertence a um mundo que a jovem acompanhava de longe. Maxim começa a convidá-la para passeios de carro, almoços e visitas pela região. A aproximação acontece longe da vigilância da Sra. Van Hopper, que considera a moça ingênua demais para despertar o interesse de um homem daquela classe.

Quando a temporada em Monte Carlo está prestes a terminar, Maxim pede a jovem em casamento. A decisão encerra o vínculo profissional com a patroa e lhe oferece uma vida que parecia inalcançável. O romance, porém, avança mais depressa do que a intimidade. A nova esposa sabe pouco sobre o passado do marido e quase nada sobre Rebecca, a mulher com quem ele viveu antes de ficar viúvo.

A chegada à mansão

Depois do casamento, Maxim leva a esposa para Manderley, a propriedade de sua família na costa inglesa. A casa impressiona pelo tamanho, pela quantidade de empregados e pelas regras mantidas há décadas. A nova Sra. de Winter chega tentando agradar, mas desconhece horários, costumes e relações que todos os demais parecem dominar.

A situação fica mais difícil por causa da Sra. Danvers, interpretada por Kristin Scott Thomas. Responsável pela administração da mansão, a governanta preserva uma fidelidade quase religiosa a Rebecca. Ela menciona a antiga patroa com frequência, conserva seus aposentos e lembra, com delicadeza bastante cruel, que a falecida sabia receber convidados, organizar festas e comandar os criados.

A nova esposa tenta assumir suas funções, porém cada escolha parece inadequada diante do padrão deixado por Rebecca. Até tarefas banais, como escrever uma carta ou decidir o cardápio, ganham a solenidade de uma audiência oficial. Lily James expressa bem o desconforto da personagem, que passa de senhora da propriedade a visitante constrangida dentro da própria casa.

Uma mulher ausente controla tudo

Rebecca morreu antes dos acontecimentos narrados, mas sua presença atravessa quase todas as relações. Seu nome está em objetos, papéis e lembranças. Os empregados falam dela com admiração, os conhecidos recordam sua desenvoltura e Maxim encerra qualquer conversa que possa revelar detalhes do casamento anterior.

Esse silêncio deixa a protagonista sem referências para interpretar o comportamento do marido. Maxim demonstra carinho em alguns momentos, mas reage com irritação quando o assunto envolve Rebecca. A esposa percebe que recebeu o sobrenome da família sem conquistar a confiança necessária para compreender o que aconteceu naquela propriedade.

Armie Hammer apresenta Maxim como um homem charmoso, reservado e emocionalmente instável. O problema é que sua interpretação nem sempre oferece profundidade suficiente para tornar essas mudanças plenamente convincentes. Há cenas em que o personagem parece carregado por segredos e outras em que apenas demonstra mau humor. O mistério permanece, embora o marido por vezes pareça mais aborrecido com a conversa do que atormentado pelo passado.

A governanta protege uma memória

Kristin Scott Thomas entrega a atuação mais forte do elenco. Sua Sra. Danvers não depende de ameaças abertas para assustar. Um olhar prolongado, uma correção educada ou uma lembrança sobre Rebecca bastam para diminuir a nova patroa. A governanta sabe quais cômodos intimidam, quais histórias machucam e quais comparações deixam a jovem insegura.

Ao perceber a fragilidade da Sra. de Winter, Danvers passa a influenciar suas escolhas. A recém-casada acredita que precisa provar sua capacidade para Maxim, para os empregados e para os amigos da família. Essa necessidade ganha força durante a preparação de um baile em Manderley. A festa representa uma chance de ocupar publicamente o lugar de anfitriã, mas a casa guarda referências que ela ainda desconhece.

Jack Favell, interpretado por Sam Riley, também interfere nesse ambiente. Primo de Rebecca, ele conhece antigos segredos da propriedade e mantém uma relação hostil com Maxim. Sua presença aumenta as dúvidas da protagonista, que começa a suspeitar de que cada pessoa preserva uma versão diferente da falecida.

O luxo enfraquece o medo

Ben Wheatley distingue os dois principais ambientes por meio das cores e do ritmo. Monte Carlo surge ensolarada, aberta e movimentada. Manderley tem corredores extensos, portas fechadas e cômodos que parecem preparados para receber alguém que nunca chegará. A mudança acompanha a perda de liberdade da protagonista. Antes do casamento, ela escapava da patroa para encontrar Maxim. Depois, precisa atravessar as regras da governanta para conversar com o próprio marido.

A produção investe em figurinos sofisticados, jardins impecáveis e interiores grandiosos. Esse requinte combina com a riqueza da família de Winter, mas deixa o suspense arrumado demais. A mansão deveria causar desconforto constante. Em algumas passagens, entretanto, parece mais pronta para uma luxuosa sessão de fotografias do que para guardar lembranças perigosas.

Mesmo com essa limitação, “Rebecca — A Mulher Inesquecível” mantém interesse ao acompanhar o amadurecimento da protagonista. A Sra. de Winter começa assustada, pede desculpas por ocupar espaço e aceita muitas humilhações em silêncio. Aos poucos, passa a observar contradições, questionar versões e procurar informações por conta própria.

Lily James torna essa mudança gradual e sensível. Sua personagem não abandona de repente a insegurança, mas aprende a agir apesar dela. O casamento que prometia proteção passa a exigir coragem, enquanto Manderley deixa de ser apenas uma residência majestosa e assume o papel de arquivo familiar. Para viver ali, a jovem terá de descobrir por que Rebecca continua governando a casa mesmo depois de morta.


Filme: Rebecca — A Mulher Inesquecível
Diretor: Ben Wheatley
Ano: 2020
Gênero: Drama/Mistério/Romance/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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