Era um domingo de céu aberto. Um pobre miserável, desses que enriquecem de dissabor qualquer história de iniquidade humana, aproximou-se de mim e quis saber:
— Posso ler os seus pensamentos, senhor?
— Não. Não pode — respondi, secamente, sem lhe dar crédito nem confiança. Via de regra, não conversava com desconhecidos, a não ser comigo mesmo, ao espelho, nos dias em que me sentia melancólico.
— Se quiser, salto contigo, amigo — insistiu o sujeito.
— Não. Não salte comigo. Não somos amigos — eu disse. Os motivos são meus e são intransferíveis. Busque as suas próprias convicções, ou a falta delas, para se lançar no vazio. Estou de saco cheio, sabia? — completei, irritado com a inconveniente intromissão.
— Poderia, ao menos, vigiar o seu coração, para evitar que se aventure numa perigosa jornada, nobre senhor? — perguntou, ainda. — Faço um bom serviço nessa seara. Já salvei da insanidade e da maledicência muitos dos seus — persistiu a inoportuna companhia que, enfim, me pareceu minimamente familiar. Decerto, já me atazanara noutras ocasiões.
— Não. Não deve. Desculpe-me, estranho. Em geral, não me julgo um egoísta. Vá-se embora, pois eu já vou indo, adeus — saltei.
Duvido que aquele indivíduo com olhos de vidro e hálito escabroso repetisse o meu ato. Afinal, eu possuía um indefectível par de asas que poucos conseguiam notar. Nada mal. Nada de danoso sucedeu comigo, senão um voo extraordinário, livre de amarras, aliado a um bocado de poesia. Coisa de passarinho, se é que me entendem. Se não me entendem, ao menos, imaginem, para que faça algum sentido essa legítima história.

