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Franz Kafka morreu em 1924 sem saber que, oito décadas mais tarde, psicólogos transformariam um de seus contos em instrumento de laboratório para descobrir o que acontece com a cabeça humana quando o mundo para de fazer sentido. Provavelmente teria achado apropriado. Ou não teria achado nada. O que, tratando-se de Kafka, também seria apropriado.

O estudo, publicado na revista científica “Psychological Science”, foi conduzido pelos psicólogos Travis Proulx e Steven J. Heine, então ligados à Universidade da Califórnia em Santa Barbara e à Universidade da Colúmbia Britânica. A pergunta era curiosa: quando uma pessoa é confrontada com algo absurdo, incoerente, que viola aquilo que esperava encontrar, passa em seguida a procurar ordem com mais empenho?

Para descobrir, os pesquisadores recorreram a “Um médico rural”, um dos contos mais desconcertantes de Kafka. A história, escrita em 1916 ou 1917, começa de modo relativamente compreensível. Um médico precisa atravessar uma nevasca para atender um doente. O cavalo morreu. Surgem então, misteriosamente, dois cavalos e um cavalariço de dentro de um chiqueiro. Daí para a frente, a lógica comum vai sendo abandonada sem cerimônia e os acontecimentos passam a obedecer àquela espécie de coerência de pesadelo que fez da palavra “kafkiano” uma das raras homenagens literárias incorporadas à língua cotidiana.

Mas os cientistas, com uma audácia que talvez merecesse investigação psicológica própria, resolveram mexer em Kafka. Criaram uma versão chamada “The Country Dentist”, “O Dentista Rural”. O médico virou dentista, o paciente passou a sofrer de dor de dente e as referências à morte foram retiradas, para evitar que o resultado pudesse ser atribuído ao simples medo de morrer. Permaneceram os non sequiturs e as rupturas narrativas. E, para garantir que ninguém saísse dali confortável demais, foram acrescentadas ilustrações bizarras sem relação aparente com a história.

Um segundo grupo recebeu outra versão do mesmo “Dentista Rural”, agora arrumadinha, coerente, com acontecimentos que se sucediam como bons meninos numa fila escolar. Participaram do primeiro experimento 40 universitários canadenses.

Depois da leitura veio uma tarefa que não tinha absolutamente nada a ver com Kafka, dentistas, cavalos ou literatura. Os voluntários receberam sequências de letras construídas segundo uma gramática artificial. Determinadas combinações obedeciam a regras ocultas que ninguém lhes explicou. Primeiro copiaram as sequências. Mais tarde tiveram de decidir quais novas combinações seguiam o mesmo padrão.

E aconteceu o estranho. Os participantes que haviam lido a história absurda se mostraram significativamente melhores para reconhecer as sequências construídas segundo as regras escondidas. Também identificaram padrões em um número maior de combinações. Depois que Kafka bagunçou o mundo, o cérebro pareceu mais interessado em arrumá-lo em outro lugar.

A hipótese dos pesquisadores atende pelo nome pouco literário de “meaning-maintenance model”, modelo de manutenção do sentido. Uma causa produz determinada consequência. Uma pessoa continua sendo mais ou menos a mesma pessoa amanhã. Uma história começa em algum lugar e, por mais que se complique, deve conservar algum parentesco lógico com aquilo que veio antes. Quando uma dessas estruturas quebra, surge o incômodo.

Kafka fez carreira quebrando-as. Segundo Proulx e Heine, o cérebro reagiria procurando compensação. Se o sentido desaparece aqui, aumenta a disposição para encontrá-lo acolá. O absurdo não ensinou aos participantes a gramática escondida. Eles nem sequer sabiam conscientemente quais eram suas regras. Parece ter colocado em estado de alerta os mecanismos envolvidos na percepção implícita de regularidades.

Para saber se o fenômeno era realmente mais amplo que a literatura, os pesquisadores fizeram um segundo experimento. Dessa vez Kafka ficou de fora. Alguns participantes escreveram sobre aspectos de si mesmos que os faziam parecer pessoas diferentes em situações diferentes. Outros escreveram sobre aspectos que reforçavam a ideia de que continuavam sendo a mesma pessoa. Outra pequena implosão de sentido. O efeito sobre a aprendizagem dos padrões de letras apareceu de novo.

Antes que alguém providencie “A Metamorfose” para o filho na véspera do Enem, convém diminuir a velocidade. O estudo era pequeno, a tarefa era artificial e o próprio Kafka usado no experimento tinha passado por uma operação tão radical que saiu do consultório médico para o odontológico. Não se demonstrou que ler Kafka aumenta a inteligência, melhora notas, cura burrice ou transforma o leitor numa máquina de solucionar problemas.

Demonstrou-se algo mais modesto. Aquilo que durante um século leitores chamaram de inquietação, estranhamento, absurdo ou simplesmente a sensação de sair de Kafka com o mundo ligeiramente fora do lugar encontrou, naquele experimento, uma consequência mensurável. Durante alguns minutos, pelo menos, diante de fileiras sem graça de letras, o cérebro parecia procurar uma ordem com mais afinco.

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Web Stuff é o coletivo de curadoria cultural e experimentação editorial da Revista Bula, formado por Fernando Santos, Tainá Corrêa, Bruno Cantuária, Carlos Willian Leite, Ademir Luiz, Solemar Oliveira e Luiz Augusto. Reúne diferentes olhares sobre literatura, livros, cinema, artes e cultura e integra um projeto de pesquisa em jornalismo cultural digital, com experimentações em novos formatos de publicação e Progressive Web Apps (PWAs).

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