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Provar um gole de cada uma das 12 fontes de água de Caxambu, observar os pombos sujos locupletando-se de restos de comida em uma praça de Atenas, sentir a chuva que lança a areia do Saara pelos automóveis de Roma, fazer as contas se vale a pena comprar camarão em Paraty.

Através da janelinha do corredor do trem lacrado, preso assim dentro, ver na madrugada os operários afoitos substituindo os eixos para que o veículo possa continuar o trajeto mesmo com a diferença entre as bitolas mongóis e as chinesas. Ficar parado por horas, no carro, em uma estradinha em obras em Montenegro.

Arrepender-se do sabor escolhido para a pizza quando, tarde demais, já se está no meio do longo percurso noturno de ônibus que liga Cusco a Puno. Chegar cedo demais a Ecaterimburgo e se cansar de nada fazer de um café a outro, de uma pracinha a outra, só esperando o apartamento ficar pronto para deixar as malas e tomar um banho. Ir a Paris para ver a Torre Eiffel pela primeira vez. Depois ir a Paris e nem precisar mais ver a Torre Eiffel.

Comer um bife de zebra na Namíbia, sanduíche de baleia na Noruega, salame de urso na Rússia, carne de crocodilo no Zimbábue, churrasco de burro na Mongólia, formigas na Dinamarca e até um hambúrguer qualquer nos Estados Unidos. Fotografar, mas não comer, espetinho de insetos na China. Tomar um rosé em Saint-Martin, vários mojitos em Havana, cervejas latino-americanas em Miami.

Admirar as águas. Do lago de Bled arrombando a retina de quem vê — quando da primeira vez em que houve o encantamento definitivo — ao emocionante encontro dos rios Negro e Solimões. O canal do Panamá. O de Corinto. O Pacífico. O Egeu. O Adriático. O mar de Natal. Logo mais, o Nilo.

Ver o sol nascer na Transilvânia. Aplaudir o pôr do sol no Arpoador. Aplaudir o pôr do sol em Zadar. Aplaudir o pôr do sol em Sunião, aplaudir o pôr do sol na Cidade do Cabo. Sempre fingir que isso é aplaudível, como se o sol não estivesse fazendo somente a obrigação. Ver a neve cair pela primeira vez em Ushuaia e depois, outra primeira vez, no Maine. Tentar um primeiro boneco de neve em Chamonix, uma homenagem ao ET de Varginha. Curtir o anoitecer deitado sobre as areias desérticas dos confins marroquinos. Reclamar do calor e das artificialidades exacerbadas nos Emirados Árabes Unidos.

Ser severamente inquirido, por conta da profissão, no aeroporto de Lusaca. E também no de La Paz. Perder a placa do carro em uma estrada de lama perto de Višegrad e depois ser parado para explicações em tudo que é fronteira até voltar para casa. Viver uma noitada esquisita com locais de um vilarejo croata, participar de uma festa típica muvucada ao redor da igrejinha de Exo Gonia, em Santorini. Ir a uma feira típica em Senago, cruzar de bike o vale do Loire, fazer um piquenique no parque que circunda o autódromo de Monza, ver o Papai Noel em agosto na Lapônia. Pegar o trem errado e ir parar em uma cidadezinha suíça, pegar o barco certo mas não conseguir pagar o trajeto em Oslo. Andar a pé sobre um vulcão grego.

Conhecer a terra natal dos antepassados de um lado da família. Depois, do outro. Imaginar o último gole de sambuca que o velho Vigilio Fontana enxugou em um bar mequetrefe de Levico, horas antes de tomar o trem que o levaria para o porto e para onde jamais retornaria. Ver a placa em homenagem ao irmão do trisavô Nicola Castelluccio, lá em Lagonegro, e pensar que por pouco esse também não teria sido ceifado na Primeira Guerra e meus genes seriam outros, não seriam eu.

Sentar-se à mesa com um astronauta norte-americano, dividir uma garrafa de vinho com um morador de rua em Berlim, ouvir de um romeno que na época do socialismo era melhor porque todo mundo tinha mas ninguém podia e, depois, no capitalismo ficou melhor porque todo mundo pode mas ninguém tem. Pedir ao Pablo, lá de Cuba, para se sentar no banco do motorista de seu Lada azul 1984, só para ter uma foto bonita para guardar. Fazer amigos em algum lugar da Sibéria. Discursar para uma assembleia acadêmica em Provo, andar pelos corredores europarlamentares em Bruxelas. Atravessar a faixa de pedestres mais famosa do planeta, em Abbey Road. Ver o local onde a freira famosa nasceu em Escópia e, par de dias adiante, por onde ela passou em Pristina. Conhecer todas as casas do poeta chileno. A Polignano a Mare de Domenico Modugno.

Deveria existir uma palavra para explicar o sentimento que nos acomete em viagens quando percebemos que aquilo que estamos vivendo pode estar acontecendo pela primeira e pela última vez. Quando se nota que aquela vivência tem tudo para ser única em toda a existência. É por isso que viajar é intenso, necessário, deliciosamente humano.

Diria ser isso algo nostalgiúnico.

É quando atingimos mais do que a consciência e a certeza da mortalidade; percebemos o desejo da mortalidade. Mas que seja tarde.

Edison Veiga

Edison Veiga é escritor e jornalista e vive em Bled, na Eslovênia, desde 2018. Publicou oito livros, entre eles ‘Titereiro’ e ‘O Menino que Sabia Colecionar’.

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