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Li “Antes que Apague”, de Natalia Timerman. A literatura é mesmo uma ponte capaz de aproximar pessoas. Há, em todas as relações, especialmente naquelas unidas por laços de sangue, um distanciamento natural que nasce do acúmulo de decepções. É inevitável que, em algum momento de nossas vidas, vejamos nossos pais como os seres que eles realmente são: falhos. Cheios de defeitos, como todo ser humano. Mas um passo mais largo só pode ser dado com a maturidade e a experiência que chegam com a idade. Talvez precisemos ser pais para entender os nossos, mas isso é um clichê. O que não é lugar-comum é o livro de Natalia, que, por causa da doença da mãe, o Alzheimer, descobre uma vida incrustada em um passado que não existe nos livros, mas pode ser conhecido pela experiência do outro e pela narrativa dos acontecimentos. À medida que Natalia avança na tentativa de recuperar a mãe, que se distancia cada vez mais da interação com o mundo e com as pessoas, ela descobre que esse ser cheio de defeitos e erros é, para além de sua progenitora, uma mulher que viveu segundo sua época e, em muitos aspectos, avançou para além do que a própria filha imaginava. É assim que passamos de admiradores de nossos pais, quando crianças, a constrangidos por seus fracassos, quando nos achamos heróis inatingíveis nos nossos melhores anos, para, enfim, entendermos que cada pessoa é um universo particular capaz de afetar o mundo ao seu redor. Os desgostos podem, assim, se transformar em compreensão.

Mas o caso de Alice, a mãe, é mais complicado. O seu desaparecimento, ainda em vida, é o centro de um romance que se sustenta nas escolhas da narradora e nos efeitos que elas tiveram em sua vida e na de seus pais. São as escolhas que a levaram à medicina, à literatura e a um reconhecimento como escritora que já não pode ser plenamente percebido pela mãe, distante, inclusive, dos acontecimentos que poderiam aproximá-las e despertar nela o orgulho pela filha escritora. O livro é uma reflexão sobre si mesmo e sobre os caminhos da literatura. Um grande exercício sobre aquilo que nos leva a escrever. Uma ginástica da exposição, pois é necessário esticar e encolher frases, selecionar acontecimentos, mostrar pessoas e revelar personalidades complicadas e, eventualmente, ruins. O livro é um relato daquilo que, em geral, as famílias guardam do portão de suas casas para dentro e desejam que nunca seja conhecido. Natalia faz isso de forma objetiva, sensível e direta. Não poupa suas personagens em função de um propósito maior: mostrar que a literatura tem múltiplas funções, e uma delas é deixar exposta a ferida das relações, o estranhamento causado pela passagem do tempo e o florescimento de um ser que, por causa de seu talento, pode manipular a informação, contando o que acontece ao seu redor com ternura e precisão.

O grande vilão, o Alzheimer, é responsável por uma das observações mais originais exploradas pela literatura. O que não está registrado nos livros só pode ser conhecido pela tradição verbal daqueles que viveram e podem contar. Já não se pode conhecer a vida da mãe por ela mesma, não se podem comprovar suas ações ou conhecer eventos da infância, uma vez que o desaparecimento da memória e da coerência no pensamento são fatos na existência do doente. Natalia escreve para conservar; Alice esquece. A literatura cresce no mesmo movimento em que a memória desaparece. Resta um resquício de lucidez enquanto tudo não se agrava. Resta a possibilidade do reconhecimento e de recuperar a mãe do passado enquanto a doença não causa seu prejuízo definitivo. É nesse caminho que se encontra Natalia ao falar de si mesma e da mãe, da família em torno da fatalidade e do sustento das relações no limiar do desespero. O livro é sobre as migalhas deixadas por uma mente em ruína e sobre a tentativa de, antes que tudo se apague, resgatar o sentimento que ainda ampara as melhores relações.

Retrato de Natalia Timerman
Entrevista

Natalia Timerman

O que é real e o que é ficção em “Antes que Apague”?

Natalia Timerman

Tudo em “Antes que Apague” é ficção. Cada palavra está ali em função do mundo erigido pelo romance. Ou, nas palavras atribuídas ao escritor argentino Ricardo Piglia: uma gota de ficção contamina tudo de ficção. Trata-se de um livro que investiga a relação entre literatura e vida à medida que sua narradora se contrapõe à acusação da mãe de que ela fugia da vida para os livros. Ela quer provar que literatura também é vida, mas faz isso dentro do terreno da ficção.

Você diria que os temas — família, doença e memória — de seus dois romances, “As Pequenas Chances” e “Antes que Apague”, aproximam sua literatura da construção de um projeto de longo prazo?

Natalia Timerman

Eu escrevo a cada vez o livro que preciso escrever, ou melhor, o que consigo escrever. Não tenho o ângulo de visão de um projeto de longo prazo, acredito que esse projeto vá se delineando inadvertidamente ao longo do tempo. O tema da família já me cobrou horas demais de insônia, confesso que me sinto um pouco de ressaca dele. Meu corpo pede que meu próximo livro se embrenhe em outras paragens.

O título do romance sugere urgência. O que, exatamente, precisava ser salvo “Antes que Apague”?

Natalia Timerman

O livro-iminência que “Antes que Apague” é precisava salvar, da narradora, a memória da mãe, a relação com a mãe, a noção de verdade, a própria ideia de família. Ele fracassa em tudo, e só por isso existe.

Ao revisitar sua relação com sua mãe para escrever este livro, você passou a se enxergar de maneira diferente como mãe?

Natalia Timerman

A narradora de “Antes que Apague” não sou eu, e Alice, a mãe dela, não é minha mãe. Ainda assim, também precisei revisitar a relação com minha mãe, olhar para o buraco fundo em mim que pede cuidado e de onde surge também a capacidade de cuidar. Acho que enxerguei o que é uma mãe total, se é que isso existe, quando o símbolo maior de cuidado, minha mãe, passou a exigir que fosse ela mesma cuidada.

Retrato de Natalia Timerman
A mãe real e a filha real foram só um ponto de partida.

“Antes que Apague” expõe acontecimentos e relações que muitas famílias prefeririam manter “do portão de casa para dentro”. Você estabeleceu algum limite para aquilo que tinha o direito de revelar?

Natalia Timerman

Escrevo sobre o que preciso entender, e queria entender justamente qual é esse limite. Por isso trouxe, por exemplo, o personagem Henrique para o meu livro, inspirado em Henry, irmão de Nathan Zuckerman em “O Avesso da Vida”, de Philip Roth. Ambos, em determinado momento, largam a carreira de dentista e fogem para a Cisjordânia, onde viram colonos em Hebron. Roth discute, dentro da ficção, os limites desta, a questão do apropriar-se da vida de outras pessoas. Essa foi uma das maneiras de imiscuir a mesma discussão em “Antes que Apague”.

E quais foram as consequências dessas escolhas para você e para o livro?

Natalia Timerman

Para o livro: ele chegou a ser o que precisava ser. Para mim: a grande questão foi me servir da doença da minha mãe para, a partir dela, escrever um livro. Isso me causou uma sensação atroz de culpa, e a maneira que encontrei de lidar com ela foi torná-la motor da escrita.

Uma vez que lembrar, reconstruir e inventar são coisas delicadamente diferentes, quando, para você, a reconstrução da memória passa a pertencer à literatura?

Natalia Timerman

A partir do momento em que estou escrevendo um livro. Mas, antes disso: memória e ficção são vizinhas de porta, e às vezes uma mora na casa da outra.

Memória
Ficção

Memória e ficção são vizinhas de porta, e às vezes uma mora na casa da outra.

É possível que, após terminar o livro, a lembrança mais forte de sua mãe seja essa escrita por você? A literatura é capaz de substituir uma memória prévia?

Natalia Timerman

Não, a memória mais forte da minha mãe está ao redor dela, na paisagem interior das pessoas que a amam e que ela amou (e ainda ama, de alguma forma). As palavras nunca vão alcançá-la, e, se eu pudesse escolher pela saúde da minha mãe, jamais teria escrito esse livro.

Você é médica e escritora. O que foi mais relevante para você compreender e aceitar o Alzheimer de sua mãe, a medicina ou a literatura?

Natalia Timerman

Até hoje me pego relutando em aceitar o Alzheimer da minha mãe; tanto a medicina quanto a literatura me parecem tremendamente insuficientes diante dessa doença.

Qual dos dois romances foi mais difícil escrever: “As Pequenas Chances” ou “Antes que Apague”? Pode contar um pouco sobre isso?

Natalia Timerman

“Antes que Apague” foi o livro mais difícil que já escrevi. Ele é feito de pura angústia e culpa, é um livro que eu teria preferido não escrever. Não há idealização nenhuma ali, de nenhuma personagem, muito menos da narradora, que expõe a todos, principalmente a si mesma.

Retrato de Natalia Timerman
Ele é feito de pura angústia e culpa, é um livro que eu teria preferido não escrever.

A personagem Alice se afastou da mãe real? Foi necessário “deixar” a filha de lado para aprofundar-se na escrita sobre ela?

Natalia Timerman

A mãe real e a filha real foram só um ponto de partida. Tem me interessado, mais que de onde um livro vem, para onde ele vai, como constrói a própria matéria.

Se a memória falha e a escrita inventa, que tipo de verdade um livro como “Antes que Apague” pode reivindicar?

Natalia Timerman

Quando descobre o segredo da mãe, a narradora, não tendo como conversar com ela, assume o papel de detetive em busca do que de fato aconteceu, mas, no lugar da verdade, encontra apenas versões. Versões que se atritam e se contradizem enquanto a verdade escapa. “Antes que Apague”, na verdade, esfacela a ideia de verdade.

Fotografias: Aline Reis
Solemar Oliveira

Doutor em Física, professor universitário e pesquisador com trabalhos publicados em periódicos acadêmicos nacionais e internacionais. Também atua como prosador, poeta, crítico e ensaísta. Autor dos romances “Desconstruindo Sofia” e “A Confraria dos Homens Invisíveis”, além do livro de contos “A Breve Segunda Vida de uma Ideia”, destacado entre os melhores de 2022. Seu livro “As Casas do Sul e do Norte”, publicado pela editora da Revista Bula, recebeu o prêmio Hugo de Carvalho Ramos, uma das mais tradicionais láureas literárias do Brasil.

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