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A infância, esse território mágico para onde vamos sempre que queremos consolo frente à dureza do existir, nunca suscita memórias de como a vida fora em verdade. Escolhemos as lembranças que devem ficar, que passagens menos felizes preferimos varrer para debaixo do tapete, que circunstâncias merecem ocupar em nós algum quinhão de nossas vivências. Quando pensamos que a realidade começa a aconchegar-se na doce monotonia de que julgamos ser dignos, ela sempre trata de engendrar-nos surpresas que tiram-nos o chão e por aí “Foge, Coelho” começa a tomar forma. A australiana Daina Reid elabora um drama de família cheio de estranheza e notas de horror, numa cadência ora plana, ora vertiginosa, urdida em lances de realismo mágico que ninguém diria absurdos.

Palavras que apodrecem

Sarah é uma mulher cujo passado não passa. Ela parece sempre ter sonhado ser médica, está numa boa fase na carreira e começa a aproveitar mais o tempo livre com Mia, uma criança serena, mas também voluntariosa, como qualquer outra. A roteirista Hannah Kent dedica-se a mostrar Sarah realizada em seus afazeres profissionais, até ampliar o horizonte, mostrando-a um tanto angustiada com a mãe, Joan, num asilo e com um quadro de demência. Reid vale-se desse gancho a fim de introduzir o argumento central do longa, e aos poucos Mia deixa de ser uma menina comum para virar o pesadelo encarnado da mãe e assumir a identidade de uma certa Alice. Na hora adequada, sabe-se que Alice é a irmã de Sarah, desaparecida num episódio que a polícia nunca conseguiu esclarecer; nesse ínterim, depois da festa de aniversário de Mia, um coelho branco aparece no quintal, tão encantador para a garota quanto feroz com a mãe. É o presságio de dias verdadeiramente infernais, explícitos nas cenas em que Sarah Snook vai de mãe afetuosa a prisioneira de seus medos, e Lily LaTorre, de anjo a enviada das trevas, imbuída de um propósito. Não há remédio para a culpa.


Filme: Foge, Coelho
Diretor: Daina Reid
Ano: 2023
Gênero: Drama/Suspense/Terror
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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