Nos Estados Unidos, o veterano Phillip Sauvage (Jean-Claude Van Damme) aceita proteger o ex-boxeador Wayne Barclay (Razaaq Adoti), ameaçado por um criminoso que acaba de deixar a prisão. Dirigido por Sheldon Lettich, “Força de Proteção” combina ação e suspense numa história sobre segurança, trauma de guerra e conflitos familiares. O trabalho já seria complicado por natureza, mas ganha outro problema quando Sauvage se aproxima de Tamara Barclay (Vivica A. Fox), irmã e empresária do homem que ele precisa manter vivo.
Phillip Sauvage passou anos em missões militares no Afeganistão e no Iraque. De volta ao país, tenta lidar com as lembranças do combate e com a dificuldade de retomar uma rotina comum. Ele domina armas, conhece táticas de defesa e consegue perceber ameaças antes das pessoas ao redor. O conhecimento adquirido nas operações, porém, veio acompanhado de feridas psicológicas que ainda afetam seu comportamento.
A oportunidade de trabalho surge por meio de antigos companheiros do Exército. Sauvage é chamado para integrar a segurança de Wayne Barclay, ex-campeão mundial dos pesos-pesados que trocou o ringue pelos negócios. Rico, popular e envolvido em projetos comunitários, Wayne circula entre compromissos públicos, reuniões e eventos. Essa exposição ganha um peso maior quando Terrell Singletery (Viv Leacock), magnata do rap ligado ao crime, deixa a prisão.
Singletery acredita que Wayne teve participação em sua condenação e deseja acertar essa conta. Tamara Barclay, que administra os interesses profissionais do irmão, percebe que a ameaça exige providências sérias. Wayne prefere agir com independência e demonstra pouca disposição para transformar a própria casa numa fortaleza. Sua resistência dificulta o trabalho de quem precisa antecipar os passos dos criminosos.
A segurança muda de comando
Um ataque confirma que Singletery possui homens, armas e disposição para perseguir Wayne. Sauvage reage com a experiência acumulada nos campos de batalha, mas a operação termina com uma perda grave entre os responsáveis pela proteção. A partir desse episódio, ele recebe mais autoridade e assume a tarefa de estruturar uma equipe permanente.
O veterano deseja trabalhar com profissionais experientes, mas Wayne impõe uma condição. Parte dos novos seguranças deverá sair de sua própria academia de boxe. São homens fortes e habituados ao combate corporal, embora ainda não saibam proteger outra pessoa sob disparos, controlar entradas ou cumprir ordens em grupo.
Sauvage convoca o antigo companheiro Casey Bledsoe (Mark Griffin) para ajudar no treinamento. A academia passa a abrigar exercícios de defesa, comunicação e movimentação. O resultado é a formação da equipe conhecida como The Hard Corps. O nome promete eficiência militar, embora seus integrantes ainda estejam aprendendo a diferença entre vencer uma luta e impedir que o cliente seja atingido.
Sheldon Lettich aproveita essa preparação para estabelecer a principal divergência entre Sauvage e Wayne. O guarda-costas deseja controlar horários, saídas e acompanhantes. O ex-boxeador detesta pedir autorização para circular. Um passou a vida seguindo protocolos militares. O outro conquistou fama tomando as próprias decisões dentro do ringue. Colocar ambos sob o mesmo teto parece quase tão arriscado quanto enfrentar os criminosos.
Wayne resiste às novas regras
Wayne insiste em manter encontros pessoais e compromissos públicos, ainda que sua presença possa facilitar outra emboscada. Sauvage tenta limitar os deslocamentos porque sabe que uma agenda previsível oferece vantagem aos perseguidores. Cada restrição, contudo, é recebida pelo cliente como uma invasão de privacidade.
Essa disputa oferece ao filme uma tensão mais interessante do que a simples divisão entre mocinhos e bandidos. Sauvage precisa proteger um homem que frequentemente dificulta o próprio serviço. Wayne, por sua vez, precisa entregar parte de sua liberdade a um veterano reservado, cujo passado militar desperta dúvidas. A confiança entre os dois permanece frágil, e Singletery ganha espaço sempre que eles gastam energia discutindo autoridade.
Jean-Claude Van Damme interpreta Sauvage com uma contenção adequada ao papel. O ator deixa de lado parte da vaidade física associada aos seus trabalhos mais famosos e apresenta um homem cansado, atento e desconfortável em situações comuns. Mesmo quando permanece parado, Sauvage observa portas, carros e pessoas. Seu corpo parece continuar numa missão que a mente gostaria de encerrar.
Razaaq Adoti oferece presença a Wayne Barclay. O personagem não funciona apenas como alguém à espera de resgate. Ele conserva o orgulho de campeão, possui força física e acredita que ainda pode enfrentar os próprios inimigos. Essa segurança, por vezes excessiva, cria dificuldades para a equipe e aumenta sua exposição.
Tamara entra na disputa
Tamara ocupa um lugar importante na história porque foi ela quem levou a ameaça a sério desde o começo. Vivica A. Fox interpreta a empresária com firmeza e sensibilidade, dando à personagem participação efetiva nas decisões da família. Ela pressiona Wayne a aceitar proteção, acompanha o trabalho dos seguranças e tenta impedir que o orgulho do irmão coloque todos em perigo.
A convivência aproxima Tamara e Sauvage. Ela enxerga para além da postura fechada do veterano, enquanto ele encontra nela uma presença capaz de atravessar sua desconfiança. O interesse entre os dois incomoda Wayne, que passa a avaliar o guarda-costas por dois critérios bastante diferentes. Ele quer um profissional preparado para levar um tiro por sua família, mas não parece disposto a vê-lo namorando sua irmã. Até um campeão mundial possui suas pequenas incoerências.
O romance oferece uma dimensão pessoal ao risco. Sauvage deixa de proteger apenas um cliente e passa a se preocupar também com Tamara. Wayne começa a desconfiar das intenções do homem que chefia sua segurança. Singletery continua movimentando seus capangas enquanto a família discute quem pode amar quem. A situação seria quase uma comédia doméstica se os visitantes indesejados não carregassem armas.
O perigo invade a rotina
Os ataques obrigam Sauvage a observar pessoas próximas, revisar rotas e desconfiar de informações recebidas pela equipe. O perigo deixa de estar apenas nas ruas e alcança os espaços frequentados por Wayne e Tamara. A possibilidade de haver aliados de Singletery perto da família aumenta a pressão sobre os novos seguranças, que precisam provar se o treinamento foi suficiente.
Lettich controla as informações para manter dúvidas sobre quem merece confiança. A montagem alterna preparação, deslocamentos e ameaças sem depender apenas das lutas. Quando a violência chega, ela possui uma função definida. Cada agressão retira uma camada de segurança, compromete um plano ou força Sauvage a assumir uma responsabilidade maior.
“Força de Proteção” pertence ao período em que Van Damme passou a interpretar homens mais abatidos, distantes dos heróis quase indestrutíveis que marcaram o início de sua carreira. Sauvage ainda luta com habilidade, mas também erra, perde pessoas e precisa conviver com acusações relacionadas ao tempo no Exército. O roteiro poderia aprofundar esse passado, pois algumas informações surgem depressa e logo cedem espaço à ação.
A produção mantém uma estrutura conhecida dos filmes lançados fora do circuito tradicional dos cinemas. Há criminosos ameaçadores, guarda-costas desconfiados, disputas masculinas e um romance cercado de desaprovação. O resultado não possui a energia dos melhores trabalhos de Van Damme, mas consegue sustentar o interesse quando aproxima o perigo externo das fragilidades de Sauvage.
O veterano entra nessa missão procurando trabalho e alguma estabilidade depois da guerra. Ao assumir a proteção dos Barclay, ele ganha uma equipe, uma responsabilidade e um vínculo afetivo que não estavam previstos no contrato. Para manter Wayne e Tamara em segurança, Sauvage terá de superar a resistência do ex-campeão, preparar homens inexperientes e impedir que Singletery transforme uma vingança antiga numa tragédia familiar.

