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Para o bem e para o mal, organizações que peitam o Estado e impõem sua própria lei, espalhando o terror por entre cidadãos honestos, despertam um estranho fascínio. Talvez o público espere que apareça um salvador capaz de pôr ordem na farra, diferentemente do que se dá na vida real, arrisque a própria vida sem medo e vá às últimas consequências até desbaratar os ajuntamentos de criminosos de toda espécie, tarefa dia a dia mais desafiadora e infrutífera. Lionel Essrog é o candidato a messias da Nova York de 1957, como se assiste em “Brooklyn — Sem Pai Nem Mãe”, um noir que junta o melhor do gênero numa trama com doses de paixão. Com o talento de sempre, Edward Norton incorpora o personagem central de modo tão persuasivo que qualquer um se rende e pensa que o mundo é feito de Essrogs, quando eles são a minoria. Essa façanha Norton consegue.

Um noir iluminado

Essrog escapou de uma infância de privações num orfanato graças a Frank Minna, uma lenda da investigação particular, com ele aprendeu todos os segredos do ofício e virou um dos detetives mais prestigiosos da nova geração. Logo na introdução, Minna é assassinado, Essrog resolve dedicar-se ao caso em tempo integral e vai desenredando um imenso novelo, de onde sai um esquema de corrupção mantido por uma ampla fauna de autoridades e tycoons. Baseado no romance de Jonathan Lethem, de 1999, o roteiro de Norton muda a narrativa do autor dos anos 1980 para três décadas antes, aproveitando a atmosfera de gangsterismo sem freio que sobrepuja a América de costa a costa. O diretor-roteirista amadurece a crítica social mirando a figura de Laura Rose, a ativista interpretada por Gugu Mbatha-Raw, momento em que o longa prepara um clímax estimulante, com Alec Baldwin na pele de Moses Randolph, o rei da gentrificação livremente inspirado em Robert Moses (1888-1981), responsável por desalojar centenas de milhares de pobres, quase todos negros. Aqui, o único pecado é o excesso: meia hora a menos seria o bastante.


Filme: Brooklyn — Sem Pai Nem Mãe
Diretor: Edward Norton
Ano: 2019
Gênero: Crime/Drama/Policial
Avaliação: 4.5/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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