Londres ainda encontra bombas da Segunda Guerra Mundial debaixo dos próprios pés, o que talvez seja a imagem mais conveniente para uma cidade que fez da convivência entre memória e modernidade parte de sua identidade. Em “Golpe Explosivo”, David Mackenzie transforma esse resíduo de outra era numa enorme cortina de fumaça para um crime perfeitamente contemporâneo. Operários desenterram um artefato no coração da capital, milhares de pessoas precisam deixar suas casas e escritórios às pressas e, enquanto polícia, militares e serviços de emergência ocupam-se da possibilidade de um desastre, alguém entende que o caos pode ser um excelente sócio. O diretor não demora a apresentar as duas histórias que pretende fazer colidir, uma equipe tentando impedir que a bomba exploda e outra fazendo de tudo para que o resto da cidade continue olhando para ela.
Mackenzie teve a ideia básica do filme mais de uma década antes de realizá-lo e contou que pretendia misturar a tensão de uma história de desarme de explosivos à de um assalto a banco, impulso reforçado depois de assistir a “Guerra ao Terror” (2008), de Kathryn Bigelow. Para que a parte militar não virasse apenas uma coleção de botões, fios coloridos e homens suando dentro de capacetes, a produção recorreu ao especialista em explosivos Nick Orr, veterano de trabalhos em zonas de guerra, que revisou roteiro, equipamentos, procedimentos e até o vocabulário empregado pelos personagens. Essa preocupação aparece na tela e talvez seja a grande esperteza de “Golpe Explosivo”. O absurdo só funciona porque Mackenzie trata a bomba com absoluta seriedade.
Will Tranter e Karalis
Will Tranter, o major interpretado por Aaron Taylor-Johnson, chega à zona isolada com aquela fleuma imprescindível aos sujeitos cujo trabalho consiste em aproximar-se voluntariamente de objetos que todos os demais deveriam evitar. Ele não precisa fazer pose de herói porque a profissão já resolve esse problema por ele. Do outro lado, Karalis, o especialista em diamantes de Theo James, aproveita a evacuação para comandar uma equipe escondida dentro do perímetro interditado, onde policiais naturalmente imaginariam encontrar apenas prédios vazios e uma possível cratera. A montagem passa de um núcleo ao outro com desenvoltura, como se alguém alternasse os canais entre dois filmes que, pouco a pouco, começam a fazer parte do mesmo programa.
Essa bifurcação também serve a Gugu Mbatha-Raw, que interpreta Zuzana Greenfield, a chefe de polícia obrigada a administrar uma cidade à beira da histeria sem saber que a emergência oficial é apenas metade de seu problema. Mackenzie filma os três polos — desarme, polícia, roubo — sem que um pareça existir apenas para explicar o outro. Sam Worthington, como um dos homens de Karalis, ajuda ainda a conferir ao grupo de ladrões aquela fisicalidade meio bruta que impede o assalto de parecer brincadeira de cavalheiros. Não há aqui a melancolia moral de “A Qualquer Custo” (2016), talvez o melhor filme do diretor, mas percebe-se a mesma simpatia por criminosos que não podem ser reduzidos à palavra criminoso, sujeitos que carregam histórias anteriores ao delito e continuam existindo depois dele.
A bomba e o assalto
Mackenzie gosta de brincar com a atenção do espectador, e esse é afinal o verdadeiro golpe. A bomba parece o centro de tudo, depois deixa de ser; o roubo toma a frente, logo volta para a periferia; personagens aparentemente laterais começam a adquirir outra relevância. O dispositivo pode soar artificioso quando examinado com muita calma, mas “Golpe Explosivo” não foi feito para ser examinado com calma. É um mecanismo de 96 minutos cuja função é produzir tensão, deslocá-la, fazê-la reaparecer noutro ponto e seguir em frente antes que alguém consiga perguntar se tudo aquilo seria mesmo possível.
Taylor-Johnson e James entendem essa natureza lúdica e não tentam transformar seus personagens em monumentos psicológicos. Will sabe que um erro pode matar muita gente; Karalis sabe que o erro de alguém pode enriquecê-lo. Entre os dois está uma Londres quase vazia, vigiada, atravessada por sirenes e decisões tomadas em segundos. É nesse espaço improvável que Mackenzie encontra seu filme. A bomba pode ou não explodir, o assalto pode ou não dar certo, mas o que mantém “Golpe Explosivo” de pé é uma constatação bem mais ordinária e provavelmente verdadeira. Quando todos correm para olhar o perigo, sempre aparece alguém interessado no que ficou para trás.

