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A primeira obrigação de Maia Marten é continuar correndo. Todo o resto — pensar, desconfiar, improvisar, encontrar o filho sequestrado e tentar entender a voz masculina que transformou uma corrida matinal numa sentença — precisa acontecer em movimento. “Corrida Contra o Tempo” não esconde sua engenhoca. Kevin Macdonald coloca Gal Gadot nas ruas de Londres, dá a Damian Lewis um telefone e uma voz sem rosto, comprime tudo em cerca de 85 minutos e passa a testar quantas formas diferentes consegue encontrar para transmitir urgência. O problema é que movimento e tensão são parentes, não sinônimos, e o filme demora pouco para provar isso.

Macdonald já construiu uma carreira inteira saltando entre documentário e ficção. Vencedor do Oscar por “One Day in September” (1999), sobre o massacre de atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique, ele também dirigiu “O Último Rei da Escócia” (2006) e “Intrigas de Estado” (2009), e conhece bem o mecanismo pelo qual uma informação aparentemente pequena cresce até contaminar todas as outras. Aqui, escolhe uma dificuldade adicional, fazer a história transcorrer praticamente em tempo real. A proposta exigiu um controle particular de continuidade e deslocamento pelas ruas de Londres, justamente um dos aspectos que o diretor discutiu ao apresentar o filme.

Maia Marten não pode parar

Maia é uma advogada bem-sucedida, acostumada à disciplina e à vantagem de saber mais que o interlocutor, duas coisas que desaparecem no instante em que recebe a ligação. O homem do outro lado afirma estar com Noah, seu filho, e começa a ditar ordens. Ela não pode parar. Não pode avisar a polícia. Não pode decidir seu próprio caminho. Aos poucos, o sequestro deixa de ser apenas uma ameaça contra a criança e vira um instrumento para obrigá-la a interferir num caso muito maior, e Macdonald usa esse acréscimo de gravidade para tentar fazer da mãe desesperada também uma participante involuntária de um crime.

Fisicamente, Gal Gadot está exatamente no filme que lhe convém. Há uma naturalidade no modo como corre, pula obstáculos, mede distâncias, usa o próprio corpo como ferramenta e mantém o aspecto de alguém que ainda conseguiria percorrer mais três quilômetros depois de todos os demais terem pedido uma ambulância. Dramaticamente, porém, Maia exige uma variação que nem sempre aparece. O desespero permanece quase todo na mesma frequência, e quanto mais Macdonald pede à câmera para comunicar o que a protagonista deveria conseguir sugerir por um olhar, um silêncio ou uma hesitação, mais aquela correria passa a adquirir o aspecto de um exercício.

Anthony Dod Mantle, diretor de fotografia vencedor do Oscar por “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008) e parceiro frequente de Danny Boyle, lança mão de lentes, distorções e enquadramentos móveis para que a cidade pareça igualmente correr atrás de Maia. É uma escolha coerente e ao mesmo tempo perigosa. Quando a câmera não sossega, quando a montagem não deixa um plano respirar, quando todo ruído parece anunciar que a próxima tragédia está a cinquenta metros, perde-se gradualmente a diferença entre um acontecimento de fato grave e mais uma travessia de rua.

Damian Lewis e a mecânica do medo

Damian Lewis leva vantagem justamente porque pode permanecer imóvel. O Caller dispensa o esforço de aparecer e cresce como uma presença abstrata, um homem que domina Maia porque sabe onde está o filho e porque, a cada ordem cumprida, convence-a de que sabe mais alguma coisa. Lewis administra pausas e entonações que muitas vezes fazem mais pelo suspense que as pernas da protagonista. Esse contraste poderia ter rendido um jogo psicológico bem mais perverso, mas o roteiro de Mark Gibson volta tantas vezes ao próximo comando, à próxima esquina, ao próximo cronômetro, que se interessa menos pelo medo do que pela mecânica do medo.

Há engenho no modo como pequenas ações de Maia reaparecem depois com outro significado, e o terceiro ato revela que a personagem não passou todo o tempo apenas obedecendo. Macdonald planta esses sinais com a discrição necessária para que a solução não pareça inteiramente caída do céu, uma das melhores ideias de um filme que funciona mais como quebra-cabeça veloz que como drama materno.

“Corrida Contra o Tempo” teria sido mais eficiente se em alguns momentos ousasse parar. Gadot corre bem, Londres oferece um cenário inesgotável e Macdonald sabe conduzir uma perseguição. Mas quando tudo é urgência, nada parece verdadeiramente urgente. Maia precisa continuar correndo para que Noah viva; o filme, infelizmente, parece acreditar que também morreria se ficasse imóvel por alguns segundos.

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