Por pior que tenha sido, existe no passado uma estranha sensação de conforto, uma vantagem sobre o futuro e todos os riscos que guarda. Culpas e arrependimentos viram prisões em que nos trancamos em busca de segurança, e lá convencemo-nos de que não somos dignos de uma vida nova. Romper de uma vez por todas com esse ciclo implica conhecer-se e abandonar a alma velha que nos condena, gesto de legítima (e necessária) bravura. Isso é o que querem os personagens de “Frankie”, a começar, claro, pela anti-heroína que dá nome a essa comédia agridoce e refinada, plena de circunvoluções filosóficas. Ira Sachs devassa o espírito de uma mulher acostumada a mimos e consagrações que se depara com a iminência da morte, proustianamente decidida a reviver os bons tempos — que ela nunca julgou tão bons assim.
Viajar! Perder países!
Frankie está numa fase mais Françoise Crémont e parece cansada de ser sexy. Ela quer passar despercebida, mas não abre mão de nadar seminua na piscina do hotel para onde levou os filhos birraciais, seus respectivos cônjuges e os netos, em Sintra, uma vila histórica de Portugal. Os membros do clã exploram as ruas estreitas da cidadela, interagem com os moradores, trocam farpas entre si e, com alguma discrição, conversam sobre como será depois do adeus. O roteiro de Sachs, coassinado pelo carioca Mauricio Zacharias, dá ênfase às supostas inconveniências de Frankie, uma libertária, anarquista, graças a Deus, e Isabelle Huppert reproduz muito de si mesma na protagonista. As passagens com Brendan Gleeson na pele de Jimmy, com quem compõe um insólito par, são especialmente saborosas e a fotografia de Rui Poças captura o dourado de Sintra feito se preparasse o céu para um anjo torto, definição à altura de Huppert, digo, de Frankie.

