Uma vez instalada no seio doméstico, a violência corrói tudo. Quando uma família acaba, morre a mais inigualável chance de felicidade que alguém pode ter, a mais imediata, a mais genuína, e procurar explicações é alimentar o desespero. Isolamentos abrem feridas e suscitam traumas, e sentir-se parte do mundo é um desafio cujas dificuldades nem todos são capazes de vencer. Essa é a primeira impressão diante de “Anêmona”, um drama sobre tragédias íntimas que arranca o espectador de suas certezas. Para tanto, Ronan Day-Lewis tira o pai de uma aposentadoria precoce e assina com ele o roteiro, uma história que Daniel Day-Lewis preenche com a atuação irretocável que o caracteriza e que fica cada vez melhor.
A dor da ausência
Em seu longa de estreia, o diretor ilumina o passado de Ray Stoker, um ex-soldado britânico que atuou durante Os Problemas (1968-1998), a onda de violência que dividiu a Irlanda do Norte entre unionistas, em sua maioria protestantes, e nacionalistas, em sua maioria católicos. Logo resta claro que os conflitos mexeram com Ray para muito além de suas convicções políticas, e uma cena mostra um garoto chorando num quarto escuro, depois de ter espancado um colega. Tudo leva a crer que ele é filho biológico de Ray, mas foi criado por Jem, irmão do pai, novelo que o diretor vai desenredando em monólogos eloquentes, ao longo dos quais Day-Lewis libera os demônios de um homem solitário, que implora quase mudo por salvação. Nessa hora, Jem surge como um espectro à porta da cabana de Ray, e Day-Lewis e Sean Bean protagonizam os grandes momentos do filme, replicando a tensão esboçada por Samantha Morton e Samuel Bottomley. Diferentemente da mitologia grega, em “Anêmona” lágrimas não viram flores.

