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Aos seis anos, Hushpuppy vive com o pai doente numa comunidade isolada da Louisiana, ameaçada por uma tempestade e pelo avanço das águas. Lançado em 2012 e dirigido por Benh Zeitlin, “Indomável Sonhadora” acompanha Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), uma menina de seis anos que mora com o pai, Wink (Dwight Henry), na Banheira. A comunidade fictícia fica numa região pantanosa do sul da Louisiana, depois de um grande dique que protege as cidades próximas. Seus habitantes vivem em casas improvisadas, criam animais, pescam e defendem com orgulho um cotidiano afastado das autoridades.

Hushpuppy habita seu próprio barraco, perto da casa do pai. Ela escuta o coração dos animais, conversa com objetos e observa tudo ao redor com uma curiosidade difícil de conter. A mãe está ausente, mas permanece viva nas histórias contadas por Wink. Para a garota, essa figura misteriosa pertence ao mesmo universo das lendas, dos bichos e das forças naturais que parecem conversar com ela.

Wink cria a filha com uma combinação desconcertante de afeto, dureza e impaciência. Ele ensina Hushpuppy a pescar, preparar comida e cuidar de si mesma porque sabe que sua saúde está piorando. O problema é que o pai esconde a gravidade da doença e transforma o medo em ordens ríspidas. Seu carinho raramente vem embalado de maneira delicada. Quase sempre chega aos gritos, com alguma lição de sobrevivência que nenhuma criança deveria precisar aprender tão cedo.

A tempestade muda a rotina

A vida na Banheira segue entre festas, barcos e refeições coletivas até a chegada de uma forte tempestade. Muitos moradores deixam a região, mas Wink se recusa a abandonar a casa. Para ele, atravessar o dique significaria entregar sua liberdade a pessoas que desprezam aquele modo de vida. Hushpuppy permanece ao seu lado, embora não tenha idade para avaliar o tamanho do perigo.

Depois da tempestade, a água cobre boa parte da comunidade e transforma caminhos conhecidos num enorme alagamento. Wink, Hushpuppy e outros sobreviventes passam a circular de barco, procurando comida e verificando quem ainda permaneceu ali. Jean Battiste (Levy Easterly) está entre os moradores que resistem ao desastre. A união do grupo permite alguma segurança, mas os recursos diminuem e a água parada ameaça tornar o lugar inabitável.

A inundação também piora a situação de Wink. Hushpuppy percebe a fraqueza do pai, mesmo sem receber informações precisas. Quando tenta se aproximar, costuma esbarrar na agressividade dele. Essa relação sustenta a parte mais dolorosa de “Indomável Sonhadora”. Wink ama a filha, mas parece incapaz de protegê-la sem assustá-la. Hushpuppy, por sua vez, busca carinho numa casa onde demonstrar fragilidade pode ser tratado quase como falta grave.

Criaturas antigas ganham vida

Na escola comunitária, Miss Bathsheba (Gina Montana) fala sobre auroques, criaturas pré-históricas enormes que ficaram presas no gelo. Com o aumento da temperatura e o derretimento das calotas polares, esses animais voltam a caminhar pela imaginação de Hushpuppy. Quanto mais a Banheira afunda e a saúde de Wink piora, mais próximos eles parecem estar.

A fantasia acompanha a maneira infantil de interpretar acontecimentos muito grandes. Hushpuppy ainda não conhece palavras suficientes para falar sobre abandono, morte, crise climática ou remoção forçada. Ela transforma essas ameaças em seres que podem ser vistos, ouvidos e enfrentados. Os auroques dão forma ao medo, enquanto a menina procura organizar aquilo que os adultos escondem.

Benh Zeitlin mantém a história ligada ao olhar da protagonista. A câmera segue Hushpuppy entre a lama, os animais e os escombros, deixando o público próximo de sua confusão. A narração da garota revela uma inteligência atenta, embora ainda marcada pela lógica de uma criança. Ela acredita que cada parte do universo ocupa um lugar e teme que o desaparecimento de alguém possa desarrumar tudo.

O dique separa dois mundos

Quando as autoridades chegam à área inundada, os moradores são retirados da Banheira e levados para uma unidade de acolhimento. Ali, recebem comida, roupas limpas e atendimento médico, mas perdem a liberdade que defendiam. Para Hushpuppy, o prédio organizado parece mais estranho do que sua casa cercada pela água. Wink também rejeita aquele ambiente porque sabe que os médicos podem impedir seu retorno.

O contraste entre os dois lados do dique está entre os pontos mais interessantes da produção. De um lado, existe uma comunidade precária, vulnerável e exposta a doenças. Do outro, há proteção, hospitais e regras impostas sem qualquer vínculo com aquelas pessoas. O roteiro não transforma essa diferença numa lição simples. A Banheira oferece pertencimento, mas cobra um preço alto, sobretudo de uma menina que depende de adultos resistentes até quando aceitar ajuda seria necessário.

A atuação de Dwight Henry preserva as contradições de Wink. O personagem pode ser grosseiro, assustador e irresponsável, mas sua pressa tem uma razão dolorosa. Ele tenta deixar a filha preparada para uma ausência que se aproxima. Quvenzhané Wallis oferece a Hushpuppy uma mistura rara de bravura e desorientação. Seu rosto sério muitas vezes parece anunciar uma grande estratégia, embora ela continue sendo uma criança improvisando o próximo passo.

A procura pela mãe

Sem ter certeza de quanto tempo ainda poderá contar com Wink, Hushpuppy passa a procurar a mãe desaparecida. A busca nasce das histórias que ouviu e da necessidade de encontrar alguém capaz de acolhê-la. Nesse ponto, a aventura ganha uma dimensão mais íntima. A menina já enfrentou chuva, fome e deslocamento, mas ainda deseja aquilo que nenhum treinamento do pai conseguiu oferecer por inteiro.

“Indomável Sonhadora” mistura drama, aventura e fantasia sem afastar os pés da lama. A pobreza está presente nas casas, na falta de atendimento e na insegurança alimentar, porém Hushpuppy não surge apenas como vítima. Ela toma decisões, desafia o pai e tenta preservar sua comunidade. Sua coragem emociona porque carrega medo, raiva e uma dose de teimosia herdada de Wink.

Benh Zeitlin oferece uma história sensível sobre uma infância cercada por perdas, sem transformar Hushpuppy numa pequena adulta. A garota ainda precisa de proteção, mesmo quando afirma que sabe cuidar de tudo. O filme preserva essa contradição até seus últimos movimentos e faz da Banheira um lugar cheio de afeto, perigo e escolhas difíceis. Diante da doença do pai, das águas e dos auroques, Hushpuppy segue em frente porque permanecer parada já deixou de ser uma opção.


Filme: Sonhadora Indomável
Diretor: Benh Zeitlin
Ano: 2012
Gênero: Aventura/Drama/Família
Avaliação: 4/5 1 1
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