Trinta e seis anos depois da primeira aventura, Lydia Deetz (Winona Ryder) retorna a Winter River com a família após uma morte inesperada. Ao lado da filha, Astrid (Jenna Ortega), e da madrasta, Delia (Catherine O’Hara), ela precisa enfrentar antigas lembranças quando uma passagem para o mundo dos mortos é aberta. A situação traz de volta Beetlejuice (Michael Keaton), o demônio que marcou sua adolescência e ainda mantém planos bastante inconvenientes.
Em “Os Fantasmas Ainda Se Divertem”, Lydia transformou a capacidade de enxergar mortos em profissão. Ela apresenta um programa de televisão sobre fenômenos sobrenaturais, produzido por seu namorado, Rory (Justin Theroux). Embora tenha construído uma carreira com relatos assustadores, a apresentadora continua abalada pelas recordações de Beetlejuice.
Durante uma gravação, Lydia acredita ver o demônio entre as pessoas do estúdio. A aparição desperta um medo antigo, mas ela não tem tempo para investigar. Uma notícia triste interrompe sua rotina e obriga a família Deetz a voltar para a casa de Winter River, onde ocorreu a confusão apresentada no filme de 1988.
Lydia viaja com Astrid, Rory e Delia. O retorno deveria ser dedicado ao funeral e às providências familiares, porém a convivência revela problemas acumulados ao longo dos anos. Delia tenta expressar a dor por meio de sua arte, Rory se comporta com a delicadeza ensaiada de um apresentador de programa matinal e Astrid demonstra pouca paciência com todos.
Mãe e filha vivem afastadas
A relação entre Lydia e Astrid sustenta a parte mais sensível da continuação. A adolescente não acredita nos poderes da mãe e enxerga o programa paranormal com desconfiança. Para ela, existe uma contradição difícil de aceitar. Lydia diz conversar com pessoas mortas, mas nunca conseguiu estabelecer contato com Richard, o pai de Astrid, que morreu durante uma viagem.
Essa ausência criou uma distância entre as duas. Lydia tenta proteger a filha, enquanto Astrid interpreta seus cuidados como controle. Jenna Ortega apresenta uma jovem inteligente, solitária e ressentida, sem repetir a personalidade da Lydia adolescente. Astrid carrega o gosto familiar por roupas escuras e assuntos estranhos, mas deseja construir uma identidade longe da fama materna.
Durante um passeio de bicicleta por Winter River, Astrid conhece Jeremy (Arthur Conti), um rapaz reservado que compartilha seu interesse por literatura e música. A proximidade oferece à jovem um refúgio fora da casa dos Deetz. Ela se sente ouvida por alguém da mesma idade, enquanto Lydia percebe que está perdendo espaço na vida da filha.
A mãe tenta alertá-la sobre os perigos ligados ao passado da família, mas suas palavras parecem exageradas para Astrid. O roteiro aproveita essa falta de confiança para aproximar a adolescente do universo sobrenatural que sempre rejeitou. Quanto mais ela busca independência, maior fica o risco de entrar em um lugar do qual talvez não consiga sair sozinha.
A maquete abre outra passagem
A antiga maquete de Winter River permanece guardada no sótão. Construída décadas antes, a cidade em miniatura mantém uma ligação com o mundo dos mortos e guarda a entrada usada por Beetlejuice. Astrid encontra o objeto enquanto conhece a história da casa, sem perceber que aquela pequena cidade possui consequências muito maiores do que seu tamanho sugere.
Uma decisão impensada abre a passagem para o além. O acidente coloca Astrid em perigo e força Lydia a procurar uma solução entre os mortos. Ela conhece aquele território e sabe que qualquer ajuda oferecida ali costuma vir acompanhada de condições pouco agradáveis.
Beetlejuice surge como a opção mais eficiente e menos recomendável. O demônio ainda deseja se casar com Lydia, plano que tentou cumprir quando ela era adolescente. Para trazê-lo de volta, alguém precisa pronunciar seu nome três vezes. O ritual é simples. Lidar com ele depois é a parte complicada.
Michael Keaton retorna ao papel com energia e falta de educação. Beetlejuice fala sem parar, invade espaços e transforma qualquer sofrimento alheio em oportunidade pessoal. Ele pode oferecer uma saída, mas sempre acrescenta uma exigência que beneficia apenas a si mesmo. Seu comportamento rende boas passagens cômicas, sobretudo quando os demais personagens percebem que aceitar sua ajuda foi uma ideia terrível.
O além também enfrenta problemas
Enquanto Lydia tenta proteger Astrid, uma nova ameaça atravessa o mundo dos mortos. Delores (Monica Bellucci), antiga companheira de Beetlejuice, recupera suas forças e passa a procurá-lo. A personagem recebe uma apresentação inspirada nos monstros clássicos, com uma aparência sombria e uma disposição nada amistosa.
Wolf Jackson (Willem Dafoe) assume a investigação. Antes de morrer, ele trabalhava como ator em filmes policiais. Depois da morte, tornou-se agente no além, embora continue interpretando cada missão com a solenidade de uma estrela diante das câmeras. Dafoe aproveita essa vaidade para criar um policial divertido, cercado por funcionários que parecem cansados de suas performances.
Tim Burton recupera o mundo dos mortos com seus corredores tortos, balcões lotados e servidores mutilados. A vida após a morte tem monstros, almas perdidas e uma quantidade assustadora de documentos. O diretor encontra graça nessa combinação entre o sobrenatural e a rotina de repartição. Morrer pode ser uma experiência complicada, mas aguardar atendimento parece ainda pior.
A quantidade de personagens, porém, deixa “Os Fantasmas Ainda Se Divertem” mais cheio do que o necessário. Delores, Wolf, Rory e Jeremy disputam espaço com a família Deetz e Beetlejuice. Algumas figuras recebem apresentações marcantes, mas participam pouco do centro da história. Há boas ideias que desaparecem durante parte do filme e voltam quando resta pouco tempo para desenvolvê-las.
Três gerações diante da perda
Winona Ryder preserva a sensibilidade de Lydia sem deixá-la presa à adolescente do primeiro longa. A personagem cresceu, tornou-se mãe e conquistou fama, mas ainda sofre quando Beetlejuice invade sua rotina. Sua fragilidade ganha peso porque vem acompanhada da responsabilidade de salvar Astrid.
Catherine O’Hara domina boa parte das cenas em que surge. Delia encara a morte com roupas extravagantes, obras incomuns e reações grandiosas. Seu comportamento rende algumas das passagens mais engraçadas, mas a atriz também revela a dor escondida atrás das performances. Delia pode transformar um funeral em evento artístico, embora o sentimento por trás da encenação seja verdadeiro.
Jenna Ortega completa o trio com uma atuação contida. Astrid não quer herdar as crenças da mãe nem participar do espetáculo criado ao redor dos fantasmas. Sua resistência, contudo, enfraquece quando ela se depara com aquilo que Lydia sempre tentou explicar. A experiência obriga mãe e filha a observar a mesma ameaça, ainda que permaneçam separadas por ressentimentos antigos.
“Os Fantasmas Ainda Se Divertem” funciona melhor quando acompanha Lydia, Astrid e Delia dentro da mesma casa. As três lidam com a morte de maneiras diferentes e possuem pouca habilidade para conversar sem iniciar uma discussão. Existe afeto entre elas, mas ele costuma surgir misturado a críticas, lembranças dolorosas e uma impaciência bastante familiar.
Tim Burton preserva os monstros artesanais, os ambientes desalinhados e o gosto por personagens estranhos. A continuação também repete referências do filme original, mas encontra identidade própria ao colocar Lydia no papel de mãe. O passado deixa de ser apenas uma lembrança divertida e passa a interferir na segurança de Astrid.
Apesar do excesso de histórias paralelas, “Os Fantasmas Ainda Se Divertem” mantém leveza e ritmo agradável. Michael Keaton continua irresistível como o demônio de terno listrado, enquanto Winona Ryder, Jenna Ortega e Catherine O’Hara dão coração à aventura. Beetlejuice pode até salvar uma família em apuros. O preço, naturalmente, será informado depois que alguém disser seu nome pela terceira vez.

