He-Man sempre foi absurdo demais para exigir solenidade. Um sujeito de franja impecável, músculos suficientes para abastecer três academias, espada erguida aos céus e um tigre verde como companheiro dificilmente sobreviveria a uma adaptação que resolvesse tratá-lo com a gravidade de Hamlet. Travis Knight percebe isso cedo em “Mestres do Universo”, mas também entende o perigo contrário. Há um limite para a piada que um filme pode fazer de si mesmo antes de começar a pedir desculpas por existir. Durante boa parte das mais de duas horas de aventura, Knight anda precisamente sobre essa corda, às vezes com surpreendente segurança, outras dando a impressão de que vai despencar junto com toda Eternia.
O príncipe Adam é arrancado de seu planeta ainda menino, quando Esqueleto avança sobre o reino e a Espada do Poder precisa desaparecer de seu alcance. Quinze anos depois, o futuro He-Man está em Oklahoma City, submetido a uma modalidade de tortura que talvez nem o vilão de Jared Leto imaginasse: expediente de escritório, reuniões, reclamações de recursos humanos e encontros amorosos nos quais qualquer referência a reinos mágicos, espadas encantadas e tigres falantes basta para fazer a pretendente procurar a saída. Nicholas Galitzine entende que esse Adam só funcionaria se houvesse nele alguma coisa essencialmente pueril. Ele não parece um guerreiro disfarçado de homem comum, mas um homem comum que ainda não sabe se tem competência para tornar-se guerreiro.
Travis Knight e o brinquedo
Esta talvez seja a melhor decisão de Knight. O diretor já havia feito algo parecido em “Bumblebee” (2018), quando recebeu uma franquia soterrada por metal, explosões e gigantismo e descobriu que havia um coração escondido entre as engrenagens. Antes, em “Kubo e as Cordas Mágicas” (2016), realizado no universo artesanal da Laika, também fizera de uma aventura fantástica uma história sobre memória, família e amadurecimento. “Mestres do Universo” permite-lhe repetir parcialmente o truque, agora com uma matéria-prima muito mais ingrata. He-Man nasceu em 1982 como linha de brinquedos da Mattel e somente depois ganhou, em 1983, a animação da Filmation que o transformaria num fenômeno mundial. A ordem não é irrelevante. Primeiro existiu o produto; depois foi preciso inventar uma mitologia suficientemente poderosa para que crianças acreditassem que aqueles bonecos tinham alma.
Quarenta anos mais tarde, Knight enfrenta o problema inverso. A mitologia cresceu tanto que o brinquedo desapareceu dentro dela. Quando Adam finalmente recupera a Espada do Poder e Teela surge para conduzi-lo de volta a Eternia, o filme pode abandonar a graça fácil do peixe fora d’água e ocupar-se de castelos, máquinas, criaturas, rebeldes, feiticeiros e uma guerra que esperou quinze anos por seu príncipe. Camila Mendes dá a Teela uma irritação compreensível diante daquele herdeiro que volta sem conhecer o próprio reino que deverá salvar. Ela combate melhor que Adam, raciocina mais depressa e passa boa parte do tempo consertando problemas que ele cria. A inversão funciona porque Knight não diminui He-Man para engrandecê-la. Seu protagonista precisa justamente compreender que força bruta e heroísmo nunca foram sinônimos, embora a iconografia da franquia tenha passado décadas fazendo parecer que eram.
Duncan, o Homem de Armas de Idris Elba, acrescenta peso a essa aprendizagem. Elba não tenta competir com a extravagância ao redor e acerta justamente por permanecer quase imune a ela, um homem cansado de guerra diante de um rapaz ainda fascinado pela ideia abstrata de ser herói. Já Evil-Lyn encontra em Alison Brie uma intérprete disposta a aproveitar a natureza descaradamente artificial da personagem sem convertê-la numa caricatura vazia. E então aparece Esqueleto.
Jared Leto e o Esqueleto
Jared Leto poderia ter arruinado tudo. Há papéis em que sua disposição para desaparecer sob maquiagem, voz e afetação transforma personagem em evento e filme em acessório. Esqueleto, felizmente, é um dos poucos seres da cultura pop que não apenas toleram esse excesso como parecem exigi-lo. Leto rosna, posa, ameaça, teatraliza cada gesto e faz do antagonista aquilo que deveria ser: uma aberração deliciosamente convencida da própria grandeza. Não há realismo possível para um feiticeiro de face cadavérica chamado Esqueleto, e toda tentativa de lhe oferecer profundidade psicológica demais seria quase uma crueldade.
O problema aparece quando o próprio filme não confia nessa simplicidade. O roteiro assinado por Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee e Dave Callaham acumula ironias, referências e comentários autoconscientes como se alguém temesse que o espectador pudesse levar aquilo a sério por engano. Não precisava. A existência de personagens chamados Fisto, Roboto e Homem de Armas já resolve a questão sem auxílio adicional. Quando “Mestres do Universo” simplesmente aceita sua insanidade, deixando um tigre falante, um esqueleto feiticeiro e um príncipe seminu disputarem o destino do universo com absoluta convicção, fica muito mais divertido do que quando interrompe a brincadeira para avisar que sabe estar brincando.
Dolph Lundgren e a sombra de 1987
Foi justamente esse constrangimento que prejudicou tantas adaptações de propriedades antigas. O primeiro “Mestres do Universo”, dirigido por Gary Goddard em 1987 e protagonizado por Dolph Lundgren, tentou compensar suas limitações afastando-se cada vez mais do mundo que deveria celebrar. Knight faz o contrário. Eternia precisa parecer Eternia, ainda que isso implique cores berrantes, criaturas improváveis, tecnologia convivendo com feitiçaria e uma espada capaz de solucionar problemas que fariam qualquer físico pedir demissão.
Galitzine sustenta essa bagunça porque nunca transforma Adam num monumento. Quando finalmente chega a hora de He-Man ocupar o lugar que a infância de milhões de espectadores lhe reservou, existe alguma satisfação justamente porque aquele corpo impossível continua pertencendo ao sujeito meio ridículo que não conseguia terminar um encontro sem falar de sua espada perdida. O filme poderia ter sido mais curto, menos interessado em sua própria esperteza e mais cruel com algumas gorduras narrativas do segundo ato. Ainda assim, Knight descobre alguma coisa preciosa debaixo do plástico, da nostalgia e do barulho. Um brinquedo pode não ter alma quando sai da fábrica. Depois que uma criança passa quarenta anos lembrando-se dele, a história muda.

