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Em 22 de novembro de 1963, o presidente John F. Kennedy é assassinado em Dallas, no Texas, diante de uma multidão. Pouco depois, Lee Harvey Oswald (Gary Oldman) é preso e apontado como único responsável pelos disparos. Antes que possa ser julgado, ele é morto por Jack Ruby (Brian Doyle-Murray). As autoridades encerram a investigação, mas o promotor Jim Garrison (Kevin Costner), de Nova Orleans, passa a desconfiar daquela conclusão. Dirigido por Oliver Stone, “JFK: A Pergunta que Não Quer Calar” acompanha o esforço do promotor para reabrir o caso e descobrir se outras pessoas participaram do crime.

O filme parte de um dos episódios mais conhecidos e discutidos da história norte-americana. Stone mistura acontecimentos documentados, versões contestadas e hipóteses defendidas pelo verdadeiro Jim Garrison. Essa liberdade exige cautela do espectador. “JFK: A Pergunta que Não Quer Calar” possui enorme força cinematográfica, mas não deve ser recebido como uma aula definitiva sobre o assassinato. Sua maior virtude está em reproduzir o incômodo de quem lê um relatório oficial e percebe que algumas peças continuam fora do lugar.

Um crime encerrado depressa demais

A primeira ligação com Nova Orleans surge por meio de David Ferrie (Joe Pesci), um piloto de comportamento instável que teria mantido contato com Oswald. Jack Martin (Jack Lemmon) oferece informações sobre Ferrie, embora seu relato seja prejudicado por desavenças pessoais e acusações difíceis de comprovar. Garrison interroga o piloto, mas não dispõe de material suficiente para mantê-lo sob investigação. Sem provas que sustentem uma medida judicial, o gabinete arquiva aquela parte do caso.

Três anos depois, Garrison volta a examinar o relatório da Comissão Warren, responsável por afirmar que Oswald agiu sozinho. O promotor compara horários, depoimentos, fotografias e detalhes dos disparos. Quanto mais lê, mais se incomoda com as contradições. Ele reúne uma equipe formada por Lou Ivon (Jay O. Sanders), Bill Broussard (Michael Rooker) e Susie Cox (Laurie Metcalf), que passam a revisar documentos e procurar testemunhas.

Esse trabalho ocupa boa parte de “JFK: A Pergunta que Não Quer Calar”. Em outras mãos, homens folheando pastas durante horas poderiam produzir uma experiência próxima de uma repartição em sexta-feira chuvosa. Oliver Stone imprime urgência ao material ao alternar interrogatórios, lembranças, imagens de arquivo e reconstruções. O excesso de informação às vezes cansa, mas também coloca o público dentro da confusão enfrentada pelos investigadores.

Nova Orleans ganha importância

A equipe chega a Willie O’Keefe (Kevin Bacon), um homem preso que afirma ter conhecido Oswald e participado de reuniões frequentadas por David Ferrie. O’Keefe também menciona um sujeito chamado Clay Bertrand. Seu depoimento oferece um caminho novo, mas traz um problema sério. Por estar encarcerado e buscar benefícios, ele pode ser facilmente desacreditado diante de um júri.

Garrison precisa confirmar nomes, endereços e relações antes de avançar. A investigação aproxima Clay Bertrand de Clay Shaw (Tommy Lee Jones), empresário respeitado e figura conhecida na vida cultural de Nova Orleans. Shaw nega qualquer vínculo com a identidade mencionada por O’Keefe. A partir desse ponto, o promotor tenta demonstrar que a cidade teria abrigado conexões importantes entre Oswald, Ferrie e outros homens interessados na morte de Kennedy.

Tommy Lee Jones interpreta Clay Shaw com elegância e controle. O personagem recebe Garrison com educação, responde às perguntas sem perder a compostura e mantém uma distância quase irritante das acusações. Sua serenidade cria um contraste produtivo com David Ferrie, vivido por Joe Pesci num estado permanente de ansiedade. Ferrie parece sempre perto de revelar alguma coisa, embora suas falas misturem medo, desconfiança e afirmações quase impossíveis de verificar.

Gary Oldman também se destaca como Lee Harvey Oswald. Sua participação aparece por meio de lembranças, depoimentos e versões reconstruídas por outras pessoas. O ator não transforma Oswald numa figura fácil de decifrar. Ele surge como ex-fuzileiro, simpatizante do comunismo, desertor, marido agressivo e possível participante de atividades que ultrapassavam suas declarações políticas. Cada novo relato acrescenta uma camada, mas nenhuma delas resolve inteiramente o enigma.

O caso invade a vida familiar

Enquanto o gabinete mergulha nos documentos, Liz Garrison (Sissy Spacek) vê o marido desaparecer dentro do trabalho. Jim deixa compromissos familiares de lado, passa noites lendo relatórios e leva as suspeitas para dentro de casa. Liz teme pela segurança dos filhos e questiona o custo daquela obsessão. O conflito entre os dois dá ao filme uma dimensão mais íntima, embora algumas conversas repitam argumentos já apresentados.

Kevin Costner interpreta Garrison com sobriedade. Seu promotor não aparece como um aventureiro em busca de fama, mas como um servidor público convencido de que a explicação oficial possui falhas graves. Essa convicção também expõe um lado incômodo. Garrison se torna tão dedicado à investigação que perde a percepção do desgaste causado às pessoas próximas. A busca pela verdade passa a cobrar tempo, afeto e estabilidade familiar.

O roteiro também apresenta o coronel X (Donald Sutherland), fonte ligada à estrutura militar dos Estados Unidos. Durante uma conversa em Washington, ele descreve procedimentos de segurança, interesses políticos e mudanças ocorridas no dia da visita presidencial a Dallas. O relato oferece a Garrison uma possível ligação entre o assassinato e setores poderosos do governo. Ainda assim, boa parte dessas informações permanece sem documentação disponível ao promotor.

Oliver Stone transforma dúvida em suspense

A montagem de “JFK: A Pergunta que Não Quer Calar” mistura diferentes tipos de imagem e dificulta a separação entre registro histórico e encenação. Fotografias, filmes domésticos, reportagens televisivas e cenas produzidas para a obra entram na mesma corrente. Esse recurso aumenta a tensão, mas também fortalece hipóteses que continuam discutidas fora da tela.

Oliver Stone apresenta a visão de Garrison com evidente simpatia. O promotor recebe espaço para construir seu raciocínio, enquanto seus adversários costumam surgir associados ao silêncio, à burocracia ou à preservação de interesses. Essa escolha torna o filme envolvente, porém pede atenção. Algumas conexões aparecem com grande segurança dramática mesmo quando sua base histórica permanece controversa.

Ainda assim, a obra possui uma capacidade rara de transformar relatórios, mapas e depoimentos em suspense. O espectador acompanha Garrison enquanto ele tenta descobrir quem ganhou alguma vantagem política com a morte de Kennedy, por que certos procedimentos teriam falhado e quais relações Oswald mantinha antes do atentado. As perguntas se acumulam, mas Stone preserva dúvidas suficientes para impedir uma solução confortável.

Uma acusação chega ao tribunal

A investigação avança até Clay Shaw, e Garrison decide levar o caso à Justiça. Para sustentar a acusação, a promotoria precisa organizar testemunhos frágeis, identidades contestadas e versões diferentes sobre os tiros disparados em Dealey Plaza. A defesa, por sua vez, procura demonstrar que as suspeitas foram reunidas por associação e que as testemunhas possuem credibilidade duvidosa.

O tribunal oferece ao filme seu trecho mais concentrado. Garrison apresenta fotografias, mapas, registros e análises da famosa gravação feita por Abraham Zapruder. Mais do que descobrir uma resposta única, ele tenta convencer os jurados de que Oswald talvez não tivesse realizado tudo sozinho. A dúvida histórica precisa, então, enfrentar uma exigência jurídica muito concreta. Suspeitar de uma conspiração é uma coisa. Provar a participação de um acusado é outra bem mais difícil.

“JFK: A Pergunta que Não Quer Calar” é longo, carregado de nomes e repleto de informações que exigem atenção. Mesmo assim, Oliver Stone mantém o interesse ao tratar cada documento como uma peça capaz de abrir outra frente da investigação. O resultado é um drama político vigoroso, sustentado pela atuação contida de Kevin Costner e por um elenco excepcional.

A obra merece ser vista com interesse e cautela. Ela organiza dúvidas legítimas, mas também abraça suposições controversas e adapta fatos para fortalecer a argumentação de Garrison. Seu mérito permanece na inquietação que provoca. Quando o promotor abre mais uma pasta e retorna às imagens de Dallas, o caso deixa de parecer encerrado, embora a verdade continue protegida por documentos, versões incompatíveis e décadas de silêncio.


Filme: JFK: A Pergunta que Não Quer Calar
Diretor: Oliver Stone
Ano: 1991
Gênero: Drama/História/Suspense
Avaliação: 4.5/5 1 1
Fer Kalaoun

Fer Kalaoun é editora na Revista Bula e repórter especializada em jornalismo cultural, audiovisual e político desde 2014. Estudante de História no Instituto Federal de Goiás (IFG), traz uma perspectiva crítica e contextualizada aos seus textos. Já passou por grandes veículos de comunicação de Goiás, incluindo Rádio CBN, Jornal O Popular, Jornal Opção e Rádio Sagres, onde apresentou o quadro Cinemateca Sagres.

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